Resenha de Show

Guaru Metal Fest: Bulldozer põe fim à espera de mais de 30 anos dos fãs pela banda

A banda italiana Bulldozer no palco do Extreme Day (dia 7)

Dani Moreira/Divulgação


A banda italiana Bulldozer no palco do Extreme Day (dia 7)

Nos dias 7 e 8 de setembro, o Clube Recreativo, em Guarulhos, recebeu a 7ª edição do Guaru Metal Fest, evento coroado com algumas das mais expressivas bandas do gênero, valioso legado de músicos engajados em fazer brilhar o cenário do metal nacional, tornando-o cada vez mais forte, cada vez mais unido. Nesta edição, o Guaru Metal Fest foi ousado, trouxe ao palco do Extreme Day (dia 7) a banda italiana Bulldozer em sua única apresentação no Brasil antes de seguir com a turnê The Black Speed of Wrath 2018 pela América Latina.

Sempre bom lembrar que o público fiel do Guaru Metal Fest correspondeu com maestria às investidas sonoras das bandas, uma galera muito bem preparada para curtir desenfreadamente doses elevadíssimas de metal, previstas ao longo das mais de 12 horas no primeiro dia do evento.

Para a surpresa de todos, o Bulldozer, headliner da noite, subiu ao palco mais cedo do que o horário previsto, botando um ponto final à espera de mais de 30 anos. Em sua primeira e única apresentação no Brasil, a banda de metal extremo formada na Itália na década de 1980 pôde constatar a garra e energia dos fãs brasileiros, que prestigiaram o show da banda do começo ao fim.

A banda italiana Bulldozer no palco do Extreme Day (dia 7)

Dani Moreira/Divulgação


A banda italiana Bulldozer no palco do Extreme Day (dia 7)

O show começou com uma emocionante homenagem dos italianos ao compositor, produtor e guitarrista da banda Rebaelliun, Fabiano Penna, que faleceu em fevereiro deste ano, vítima de infecção bacteriana. Imagens projetadas rememoraram algumas das passagens da carreira do músico e sua incontestável contribuição para o fortalecimento do metal extremo e da cena underground.

Com composições perfeitamente ambientadas com o uso dos teclados do jovem GC, o vocalista AC Wild, o baixista Pozza, o baterista Manu e o guitarrista Andy Panigada apresentaram ao público do Guaru Metal Fest um repertório cheio de vigor e com um recorte perfeito de músicas que marcaram a carreira da banda, como composições do álbum The IX Circle of Hell, de 1987, como “Heaven´s Jail” e “Rob Klister”, além de “Fallen Angel” e “Welcome Death, do álbum The Day of Wrath, de 1985. Uma novidade que impressionou os fãs foi ver AC Wild também tocando baixo, incrementando ainda mais o peso do espetáculo.

Do lado de cá do palco, os músicos do Bulldozer encontraram fãs aficionados, que conheciam a discografia da banda e estavam prontos para matar no peito as pesadas investidas sonoras, sobretudo das que emaravam com exatidão da guitarra de Andy Panigada, que arranca de seu instrumento timbres e riffs irreverentes e autênticos, compondo junto com o vocal diferenciado de AC Wild, a marca registrada do Bulldozer.

Aos fãs de metal do Brasil e de toda a América Latina, o Bulldozer deixa um recado emocionado, principalmente porque entendem como a vida é difícil por aqui, se comparada com outras partes do mundo: “Sabemos das muitas dificuldades que fazem de vocês, brasileiros e latino americanos, mais combatentes, espirituosos e resistentes às inúmeras adversidades da vida. Temos notado que os organizadores dos shows, assim como a Andressa (Deca), são como nós, verdadeiros fãs e, certamente, não fazem isso por dinheiro, mas para manter viva a paixão pelo nosso amado metal, que é parte integrante de nossas vidas e sobreviverá muito tempo depois de nós, para além da nossa existência”, declara Andy.

Havok 666 com seus death metal brutal no Extreme Day

Dani Moreira/Divulgação


Havok 666 com seus death metal brutal no Extreme Day

Metal à exaustão

Cumprindo com grande habilidade a responsa de abrir o Extreme Day, o Death metal brutal do Havok 666 não deu espaço para os bangers respirarem, tamanho o peso das músicas, repletas de velocidade, batidas agressivas e um vocal extremamente assustador. Diretamente de Salto, no interior de São Paulo, André Brutaller e Felipe Wrecker vêm trilhando um caminho intenso, sobretudo com o lançamento de Sodomized by Divine Order, verdadeiro massacre sonoro aos quais os fãs de metal foram submetidos em músicas como  “Not Enslaved”, “Apostasy of Disciple of Messiah”, “Christian church Thrives on Hypocrisy”, “Praise of Empty Christ”, entre outras.

A banda goiana Arbach se apresenta  no Extreme Day (dia 7)

Dani Moreira/Divulgação


A banda goiana Arbach se apresenta no Extreme Day (dia 7)

Melodia, agressividade e cadência dão um tom peculiar à sonoridade do Arbach, banda formada em 2004 em Anápolis, Goiás, cuja proposta é mostrar ao público fiel que é preciso ser grotesco para recriar um Black Metal tão assustador quanto possível. No melhor estilo corpse paint, o resultado desse filme de horror é um som vociferado, extremamente pecaminoso para os ouvidos, mas sem desprezar uma levada cheia de cadência, estrondosamente tenebrosa, que agradou o público e arrancou urros assertivos do público.

Os Guerreiros Headbangers no Guaru Metal Fest

Dani Moreira/Divulgação


Os Guerreiros Headbangers no Guaru Metal Fest

É sempre um prazer ver os Guerreiros Headbangers no palco e quando isso acontece no Guaru Metal Fest, a sensação é de que um portal maldito se abre, unindo Guarulhos a Osasco e permitindo que esses demônios invadam nossa casa com uma legião de fãs cativos. Além disso, os caras arrasam nossa mente com um metal muito bem elaborado, poderoso, cheio dos riffs magistrais da guitarra de Márcio Almeida, das levadas potentes da bateria de Zedek Blast e do baixo de Reinaldo Steel, sem falar do vocal desafiador e sarcástico de Jhair Tormentor, uma orquestração que levou os bangers do Guaru à loucura.

Essa já é a segunda apresentação do Guerreiros Headbangers no Festival. De acordo com o baixista Reinaldo Steel, essa apresentação superou a anterior, que aconteceu em 2015, na King Club. “A qualidade do som estava impecável, gostaríamos de parabenizar o técnico de som, que deixou tudo perfeito para o estilo que tocamos”, comemora o baixista.

Além da destreza do técnico de som, vale lembrar a excelência do trabalho da equipe de palco, que a cada apresentação se desdobrava para manter o evento no horário, muito embora isso tenha sido impossível no Extreme Day, devido ao atraso de mais de 1 hora no início do Festival.

The Evil traz o ambiente de filmes de horror ao festival

Dani Moreira/Divulgação


The Evil traz o ambiente de filmes de horror ao festival

Ainda mais surpreendente, a apresentação dos mineiros do The Evil envolveu o ambiente em um clima de magia, mistério, tensão e aromas, digno dos mais aterrorizantes filmes de horror. Comemorando seis anos de estrada em pleno Festival, Theophylactus (baixo), Saenger (bateria), Iossif (guitarra) e Miss Aileen (vocal) incorporaram as profundezas do abismo, evocadas em composições de Doom Metal marcadas, sobretudo, por um vocal agudo e sonoridades melódicas.  Diante da receptividade extrema do público do Guaru, Miss Aileen acredita que o gênero merece mais visibilidade em meio aos fãs de metal: “Há mais bandas desse estilo do que as pessoas conhecem e que são muito boas, acredito que o legado obscuro e história do Doom Metal, que ficou perdido nos anos 70 e 80, tem que ser resgatado, vale muito a pena conhecer a raiz do que hoje é parte essencial do metal extremo”.

O convite de Miss Aileen para que o público de metal possa se aprofundar no Doom Metal já tem dia e horário. A banda The Evil se apresenta no Doom Over BH no próximo dia 20 de outubro, a partir das 22h, em Belo Horizonte (https://www.sympla.com.br/doom-over-bh__355594) com as bandas Fallen Idol Black Father Klan, outras fieis representantes do gênero.

Lacerated and Carbonized, explosão de fúria no Guaru Metal Fest

Dani Moreira/Divulgação


Lacerated and Carbonized, explosão de fúria no Guaru Metal Fest

E quando a coisa fica ainda mais pesada

O submundo da violência, degradação e desigualdades que marcam o Rio de Janeiro são o mote para a explosão de fúria das composições do Lacerated and Carbonized, o que reflete um Death Metal visceral, cheio de vigor. Jonathan Cruz (vocal), Caio Mendonça (guitarra), Paulo Doc (baixo) e Victor Mendonça (bateria) sobem ao palco do GMF, mostrando que não estavam ali de brincadeira, verdadeira metralhadora de riffs, levadas ensandecidas e incessantemente fortes, que aliadas ao vocal sujo de Jonathan levaram o público do Extreme Day mais uma vez ao delírio. A apresentação também marcou o retorno de Victor aos palcos, afastado da banda há um ano e meio depois de um acidente, período em que foi substituído por Sandro Moreira, baterista do Rebaelliun.

Symphony Draconis no Extreme Day (dia 7) do Guaru Metal Fest

Dani Moreira/Divulgação


Symphony Draconis no Extreme Day (dia 7) do Guaru Metal Fest

Com uma ideologia que mostra o verdadeiro potencial humano, as músicas do Symphony Draconis caem sobre as cabeças do público do Extreme Day com alto potencial de destruição em meio a um Black Metal agressivo, que evoca temas como ocultismo e satanismo. Desde 2013, quando a banda lançou o álbum Supreme Art of Renunciation, eles vêm se dedicando a shows em que exibem o poderoso gutural de Stiemm Nechard, que aliado às guitarras de Thiernox e Aym cria uma ambientação harmonicamente bem trabalhada e até melodias leves em meio ao estrondoso e coerente diálogo entre os instrumentos. O resultado foi um show que deixou os fãs bastante satisfeitos e até aqueles que ainda não conheciam a sonoridade do Symphony Draconis adicionaram mais essa preciosidade a sua playlist preferida. Todos nós temos muito orgulho do underground nacional.

A banda Arma apresenta seu speed metal com uma pegada nervosa

Dani Moreira/Divulgação


A banda Arma apresenta seu speed metal com uma pegada nervosa

NTS Oldskull, Carlos Otr e Vinícius Mephisto formam a banda Arma, power trio paulistano que dedica suas composições a um Speed Metal com uma pegada nervosa, daquelas que vibra no nosso entendimento. Veloz e pesado, o show da banda Arma não deixou os fãs parados e ficou a certeza: esses caras manjam muito de rock’n’roll.

Rebaelliun retornando aos palcos depois da inestimável perda de Fabiano Penna

Dani Moreira/Divulgação


Rebaelliun retornando aos palcos depois da inestimável perda de Fabiano Penna

Retornando aos palcos depois da inestimável perda que abateu a banda, o Rebaelliun proporcionou ao público do Guaru Metal Fest um momento único, tamanha a ansiedade dos fãs em vê-los de volta a ativa. A dor no peito era grande, mas não maior do que a satisfação de ver esses bravos guerreiros fazendo aquilo para o qual foram predestinados: um Death Metal brutal, agudo, plenamente rico em técnica e vigor.

É evidente que a ausência de Fabiano Penna é sentida pela banda, que em muitos momentos rasgou o verbo em saudações e declarações de amizade ao guitarrista, que faleceu no começo do ano, depois que o Rebaellium voltou de uma turnê pela Europa. Formada em 1998 em Porto Alegre, o Rebaelliun é uma das bandas mais expressivas do Death Metal nacional e hoje conta com os membros da formação original Sandro Moreira, na bateria e Lohy Silveira, no vocal e baixo, e o novo integrante, Evandro Passos, que assumiu a guitarra no lugar de Penna. O show que os caras apresentaram no Guaru Metal Fest mostrou a banda numa pegada excelente, impecável em técnica e energia, com composições dos álbuns Burn the Promised Land, de 2000, e The Hell’s Decrees, de 2016, além da música “War Cult Anthem”, do EP Bringer of War.

Hellish Grave agradou o público que resistiu bravamente até o final do evento

Dani Moreira/Divulgação


Hellish Grave agradou o público que resistiu bravamente até o final do evento

Hellhammer, Venom, Discharge, Possessed, Bathory são algumas das influências da sonoridade do Hellish Grave, banda de Black Metal formada em São Paulo e Osasco em 2011. Numa pegada extrema do metal negro da morte, que vai do uso de corpse paint a um vocal gutural tenebroso, sujo, cru e com uma orquestração digna dos mais terríveis espetáculos de horror, o Hellish Grave agradou o público que resistiu bravamente até o final do evento. À banda, restou reconhecer o carinho dos fãs, que não arredaram o pé e prestigiaram o horripilante som que os caras fazem. Foi realmente incrível.

A banda de black metal fluminense "Velho"

Carla Maio/Headbangers News


A banda de black metal fluminense "Velho"

De Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, para o palco do Extreme Day, a banda Velho traz todo o peso de suas músicas num Black Metal ainda mais assustador. “Decrepitude & Sabedoria”, “Senhor De Tudo” e “Vida Longa Ao Primitivo” são algumas das composições da banda, fortemente marcadas por temas relacionados à misantropia. Corpse paint, vocal gutural rasgado e bastante interação com o público marcaram a apresentação cheia de energia do Velho, outra banda que elogiou o público que não se rendeu até o final.

Undertaker of the Danmed que se apresentou já com o sol raiando

Carla Maio/Headbangers News


Undertaker of the Danmed que se apresentou já com o sol raiando

Já era mais de 6h da manhã quando os caras do Undertaker of the Danmed ganharam o palco do Guaru Metal Fest. Mesmo com a garra e energia que marcam suas composições e são características mais que evidentes nos músicos da banda, a apresentação dos chilenos ficou prejudicada pelos primeiros raios de sol que invadiam o Clube Recreativo, afinal, a essa altura, éramos todos vampiros à espreita de nossos caixões. A apresentação na íntegra aconteceria somente no sábado à tarde, um capítulo singular para uma banda de Black metal que se apresentou, com glória, para o público do Heavy Day. Esse é o Guaru Metal Fest, um evento que, a cada ano, não cessa de se reinventar. A seguir, segue a resenha do próximo capítulo desse evento incrível.


Clube Recreativo de Guarulhos

Data: 07/09/18

Horário: 14h

Rua Dr. Nilo Peçanha, 111