Surgido no cenário alternativo, o indie rocker I Forget Myself — nome artístico de um multifacetado cantor, produtor e multi-instrumentista nascido na África do Sul, europeu de origem e radicado em Hong Kong por mais de dez anos — chega com seu novo álbum, A Countenance in Involution, lançado em junho de 2025. Contando com a parceria do baterista Kyle Reece Williams e a mixagem precisa de Clint Watts, o álbum flerta com o experimental sem perder a base sólida do rock alternativo.
Logo na faixa de abertura, “Silence”, o disco planta sua identidade: menos silencioso do que sugere, ela aposta em texturas sutis e vocais quase sussurrados que crescem até um leve clímax, sem se descontrolar. Um pré-aquecimento delicado que prepara o terreno para o que vem depois. Em “What It Is to Know”, o ritmo ganha contornos mais efetivos, com aparato de guitarras robustas e diretas, criando uma dinâmica que equilibra nervo e paisagem sonora.
“Our Common Flame” traz riffs de pulso firme que sustentam uma melodia meio progressiva — ainda que modernizada com camadas atmosféricas. “Remained in View” aproveita a faixa anterior acrescentando grooves e leves momentos de lisérgica que se sustenta na economia de elementos.
Em “Exist”, a faixa assume um swing a mais, quase repleto de elementos do mathrock no baixo e guitarra, enquanto temos guitarras salpicadas em blues por cima, fazendo a canção parecer um interlúdio cinemático – que aliás está em quase todo disco. Logo depois, “Discard the Thought” traz um tom mais alto ao “progressivismo” até então pertinente no disco, criando um clima 30 Seconds to Mars outonal embalado por ambiência e aceleração gradual.
O ponto alto, “The Precipice”, traz uma atmosfera mais sombria ao disco – algo mais sinuoso e sujo, guitarras distorcidas se chocam contra sintetizadores expansivos, com uma construção que remete a bandas como Nine Inch Nails, Alice in Chains — vocais em duo, pausas dramáticas e clímax sonoro, tudo isso embalado em uma única faixa.
“A Wish Eroded” retoma uma suavidade marcada por dedilhados e estética dream pop, contrastando com o momento anterior. Em seguida, “Brace for Impact! cumpre o que promete no título, com um ritmo acelerado e uma bateria dinâmica e baseada em tradução de guitarra, o solo é um pouco “estranho”. Mas não atrapalha a experiência. A faixa prepara o terreno para “To Colour in Motion Too”, que suaviza tudo com melodia crescente, progressiva e elevada, camadas quase líquidas de guitarra e bateria que mais parecem pinceladas percussivas.
O encerramento chega com “Dividends”, um desfecho breve (1m25s), quase acústico, que repete um canto frágil sobre torno rítmico contido — um final em fading gracioso e introspectivo. A faixa mais icônica do disco. Ela começa prometendo algo, e cresce.. Cresce até culminar o fim, deixando a todos nós no looping infinito de ouvir novamente a primeira faixa e buscar aquela promessa nas dadas ao final do disco.
Se você curte bandas que transitam entre Radiohead, Muse e Nine Inch Nails, mas com uma pegada mais sutil, com um toque ambient/jazz, A Countenance in Involution é para você. A estética sonora do álbum navega pelo alternativo, mas sempre com cuidado e fluidez: ora introspectivo, ora expansivo, como uma conversa consigo mesmo, envolvendo riffs, ritmos e atmosferas que convidam à reflexão.
Recomendo apertar o play com fone de ouvido e deixar as camadas se revelarem aos poucos. É um disco que cresce a cada audição — uma verdadeira viagem sonora que te convida a se encontrar no reflexo das texturas. Vale muito conferir e se deixar envolver!