Resenhas

A Light In The Darkness

The Bateleurs

Avaliação

9.0

The Bateleurs, direto de Portugal, lança o segundo álbum ‘A Light In The Darkness’ pelo selo Discos Macarras Records, que estará disponível em plataformas de streaming, CD e em edição especial em vinil. O trabalho sucede o álbum de estreia ‘The Sun In The Tenth House’ e traz uma mudança na formação, lapidando um som que mistura diversas referências e traz um som nostálgico, moderno e cheio de peso. Não à toa, esse novo disco é a prova de que a banda encara o rock como laboratório: energia crua, sujeira bem-vinda e uma boa dose de cinismo embalada em riffs e dinâmicas que soam contemporâneas, mas também reverenciam o passado.

A jornada começa com “A Price For My Soul”, uma abertura explosiva: riffs secos, bateria marcada e uma produção que já escancara o tom do disco — direto, sem massagem, mas cheio de detalhes escondidos nas camadas de guitarra. Uma faixa que entrega o puro rock’n’roll sem firula ao falar sobre uma jornada por encruzilhadas, reviravoltas da vida e encontros com entidades pouco recomendáveis – lembrando muito bandas como Lucifer e Coven. . Formada em 2018, The Bateleurs pode ser considerado uma novata na indústria da música, no entanto, a sofisticação de suas músicas mostra que tem um conhecimento muito além daqueles novatos.

Logo depois, “Widow Queen” mantém o peso, agora com grooves e muitos momentos de pré-tensão: baixo pulsante, vocais que exploram nuances entre o rasgado e o limpo, lembrando como a escola do hard rock e blues podem se cruzar. Estamos na segunda faixa mas já é notável que os vocais de Sandrine Orsini irão carregar todo o disco, nos conduzindo por essa audição gostosa. Produzido pela própria banda e mixado pelo baixista Ricardo Dikk, o álbum contou com engenheiros de som de primeira linha para capturar com precisão todo o potencial das músicas, e cada faixa foi gravada sem o uso de tecnologia de correção moderna.

A sonoridade em geral mescla peso do rock’n’roll entre os anos 70 e 80, com um apelo melódico acessível, resultando em músicas que equilibram agressividade contida com passagens introspectivas. É um som que não se perde em virtuosismo: a força está na simplicidade dos acordes e na intensidade da entrega, sempre mirando impacto imediato e emocional. A voz é talvez o elemento mais reconhecível: grave, dramática, carregada e sempre colocada em primeiro plano, com um tom de urgência e tirada do amargo.

Na sequência, “For All To See” chega com uma pegada mais prog na entrada, e logo culminará em uma bateria urgente e um refrão poderoso, com backing vocals que remetem as raízes do blues e seus originários. “Dancing On A String” dá um passo para trás na velocidade, traz um ambiente denso na introdução com baixo ardente e depois nos joga em um rock mais moderno, riffs intencionalmente para cima, que sugerem momentos de êxtase, e tudo isso sem perder a veia blues leve que a banda não esconde.

“Never Back Down” nos é apresentada com aquela vibe de jam de garagem levada ao limite, com aquela vibe do rock americano dos anos 70, e não era pra menos, a masterização foi feita no Infrasonic Sound, em Nashville, Tennessee (Rival Sons, Chris Stapleton), pelo aclamado engenheiro David Gardner, que trouxe essa vibe ao disco. Essa faixa também conta com os backing vocals ardentes do blues e solo de guitarra característicos.

Enquanto “The Lighthouse” abaixa a intensidade e se torna a balada do álbum, com riffs suaves e vocais mais calmos. A instrumentação traz algo mais místico, uma energia diferente de todo o disco, até sermos surpreendidos com a potência vocal. “Best Of Days” explode em um stoner com uma base rítmica sólida e riffs fortes, essa batida é ótima para curtir um show.

Chegando a “Gardens Of Babylon”, o clima fica robusto e cheio de inspiração de bandas como Lynyrd Skynyrd, The Allman Brothers Band, e mais. Os riffs densos e melodias abertas se misturam, quase sempre ancoradas em afinações mais graves. A bateria segue um caminho sólido e direto, priorizando batidas retas e poderosas, criando uma base quase marcial. Essa é a canção que mais remete ao rock americano.

Em “Down The Garden Path” somos novamente jogados ao peso e densidade, com riffs e vocais de energia única e uma construção que quase beira o progressivo. Sem cair na pompa excessiva, a faixa conquista aqueles que apreciam o bom e velho rock’n’roll.

Vale lembrar que o disco conta convidados especiais foram adicionados para desenvolver ainda mais os arranjos: Tiago Maia tocou slide guitar, Nuno Louro no órgão Hammond, João Colaço na bateria em duas músicas, e Ruben Monteiro (Irish Whistle) e Niklos Pavliidis (violino) em uma faixa bônus especial disponível apenas no CD. O fechamento fica com “Before The Morning Is Done” entrega um final que soa como uma explosão de sentimentos, voltando ao tom místico com flautas, violão e vocais angelicais, sem perder a autenticidade grave de Sandrine Orsini.

No entanto, é importante notar que The Bateleurs não se aventura muito além dos limites do estilo tradicional de blues rock. O grupo pisa no freio quando o assunto é criar melodias mais inovadoras e não convencionais. Isso resulta em um som que, embora bem executado e fiel às raízes do gênero, não oferece grandes surpresas ou inovação. Mas é inegável o investimento para produzir um disco de alto padrão, além do talento nato dos músicos, que apostaram na receita clássica do rock.

Para aqueles que são fãs de bandas americana como Rival Sons, Black Stone Cherry e os mais oldschool, The Bateleurs oferece exatamente o que se espera: riffs pesados, vocais que impõe presença e vibe nostálgica. Para os apreciadores ‘A Light In The Darkness’ é um prato cheio, mantendo-se fiel aos fundamentos do gênero sem explorar novos territórios sonoros – a não ser pelas duas músicas suaves já citadas.