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Tiamat no Carioca Club: O retorno dos mestres da melancolia

Tiamat no Carioca Club: O retorno dos mestres da melancolia

16 de dezembro de 2025


Crédito das fotos: Priscila Ramos / Agenda Metal

Há momentos na música ao vivo em que o tempo se dobra sobre si mesmo, criando uma ponte entre o que foi e o que ainda pulsa. Na noite quente de 15 de dezembro, no Carioca Club, os suecos do Tiamat materializaram exatamente essa alquimia temporal, provando que quinze anos de ausência podem ser tanto uma eternidade quanto um piscar de olhos.

Antes mesmo que as primeiras notas ecoassem pela casa de shows, Johan Edlund ofereceu aos presentes um momento de intimidade quase ritualística. Sentado na borda do palco como um xamã moderno, o frontman carimbava mãos e autografava encartes com a paciência de quem compreende que a música é, antes de tudo, um encontro humano. Aqueles poucos minutos de atraso transformaram-se em um prólogo perfeito para o que estava por vir — uma cerimônia onde cada gesto importava.

Quando “Church of Tiamat” finalmente rompeu o silêncio, ficou claro que estávamos diante de uma banda que não apenas sobreviveu ao tempo, mas o domesticou. Johan Edlund nos vocais, Lars Sköld na bateria, Anders Iwers no baixo, Per Wiberg nos teclados e Simon Johansson na guitarra formavam uma congregação sônica de precisão cirúrgica, cada membro contribuindo para uma arquitetura sonora que oscilava entre a catedral gótica e o abismo existencial.

O setlist funcionou como uma cartografia emocional da banda: de “In a Dream” até “Gaia”, vinte faixas que mapearam três décadas de evolução artística. “Clouds” trouxe aquela melancolia etérea que define o Tiamat, enquanto “The Sleeping Beauty” revelou camadas de densidade que só músicos verdadeiramente maduros conseguem alcançar.

Johan Edlund permanece um frontman singular — não pela teatralidade exagerada, mas pela autenticidade visceral com que habita suas próprias composições. Em “Cain” e “Love in Chains”, sua voz carregava o peso de quem viveu cada palavra antes de cantá-la. Há algo profundamente honesto na maneira como ele entrega a melancolia, sem artifícios desnecessários, apenas a verdade crua de quem compreende que a beleza e a dor são faces da mesma moeda.

O que torna o Tiamat uma banda única é sua capacidade de fundir gothic rock, grave metal e doom sem que nenhum elemento se sobreponha aos outros de forma grosseira. “Wildhoney” e “Whatever That Hurts” exemplificaram essa síntese perfeita, onde a pesadez não anula a melodia, e a atmosfera não sacrifica a potência. “Brighter Than the Sun” brilhou como um momento de transcendência, enquanto “25th Floor” fechou a noite com a intensidade de quem sabe que alguns encontros são únicos.

É impossível ignorar que quinze anos de ausência cobraram seu preço. O público de segunda-feira, embora fervoroso, era numericamente modesto — reflexo cruel de como a indústria musical pune a descontinuidade. Mas os que estavam presentes testemunharam algo raro: uma banda que não apenas manteve sua identidade artística intacta, mas a aprofundou.

O show do Tiamat no Carioca Club foi uma masterclass sobre como a música pode funcionar como máquina do tempo emocional. Não foi apenas um concerto; foi um reencontro com uma sonoridade que ajudou a definir os contornos do metal melancólico dos anos 90.

Para os fiéis que compareceram, a recompensa foi generosa: duas horas de música que confirmaram por que o Tiamat permanece uma referência incontornável quando se trata de transformar peso em beleza, escuridão em luz.

SETLIST:

Church of Tiamat

In a Dream

Clouds

The Sleeping Beauty

Divided

Will They Come?

Cain

Love in Chains

Phantasma De Luxe

Brighter Than the Sun

Wildhoney

Whatever That Hurts

The Ar

Do You Dream of Me?

Visionaire

Cold Seed

Wings of Heaven

Vote for Love

25th Floor

Gaia

Galeria do show