Há 40 anos, em algum dia de 1986, a dificuldade para saber a data exata dos lançamentos nacionais mais antigos, o Ratos de Porão lançava “Descanse em Paz“, segundo álbum de sua gloriosa carreira, e que é tema do nosso Memory Remains de hoje.
Após o lançamento de “Crucificados Pelo Sistema“, o Ratos de Porão acabou por encerrar suas atividades por um breve momento. Essa separação coincidiu com fim do movimento Punk em São Paulo, devido as diversas brigas entre as gangues. João Gordo e o guitarrista Mingau, que hoje se recupera de um tiro que levou em 2023, quando estava em Paraty, abandonaram o barco.
A banda teve a faixa “Parasita” lançada em uma coletânea Punk chamada “World Class Punk“, que saiu em K7 pelo selo ROIR, de Nova Iorque. Ainda que a banda jamais tenha recebido algum centavo de royalties, o lançamento ajudou a popularizar a banda, sobretudo fora do Brasil.
Em 1985, eles retornaram às atividades, com a formação original, sem João Gordo e com o baterista Betinho. Gravaram um split com o Cólera, chamado “Ao Vivo na Lira Paulistana“. Após esse lançamento, João Gordo retornou à banda, onde permanece até hoje e trouxe ideias para incorporar uma sonoridade mais voltada ao Crossover Thrash, influenciada por bandas como DRI, English Dogs e Discharge.
Ainda em 1985, o RDP participou da coletânea “Ataque Sonoro“, sendo esta a única oportunidade em que Gordo e Betinho gravaram algo juntos. Eles gravaram as músicas “Condenado” e “Cérebros Atômicos“, essa última presente em nosso homenageado. Depois deste lançamento, Betinho saiu da banda. Spaghetti foi chamado para assumir o posto de baterista, e João Gordo já disse em entrevistas que ele só foi efetivado porque dispunha de um kit de bateria. Mas ficou até o ano de 1991, quando saiu para dar lugar a Boka, atual dono do posto.
A nova formação assinou com o selo Baratos Afins e todos entraram em estúdio, que apesar das pesquisas, não conseguimos identificar onde a banda registrou o play. Luiz Calanca, proprietário do selo Baratos Afins, foi o responsável pela produção. E foi a partir deste lançamento que foi desencadeada a insatisfação de alguns Punks, que ainda insistem em chamar o Ratos de Porão como traidores do movimento Punk.
A capa traz uma imagem brutal. É uma foto de um cadáver de uma mulher que foi espancada até a morte e foi retirada de um jornal sensacionalista do Rio de Janeiro, que tinha como tônica noticiar crimes bárbaros acontecidos na capital fluminense. Provavelmente, o jornal era “O Povo”, extinta publicação, que se assemelhava ao paulistano “Notícias Populares”. João Gordo já publicou memes em suas redes sociais desta capa, com o ex-presidente Jair Bolsonaro em lugar da mulher originalmente retratada. Gordo é crítico de governantes autoritários e é alvo de críticas daqueles que não entenderam o movimento Punk Rock.
Dando play na bolacha, o Ratos de Porão trouxe um belíssimo álbum. A mudança na sonoridade foi impactante, mas o tempo de duração é o mesmo de um disco de Punk Rock: 27 minutos, onze faixas e alguns grandes clássicos, como “Cérebros Atômicos“, “Velhus Decréptus“, a faixa-título, “Paranóia Nuclear“, e “Juventude Perdida“. As duas últimas são tocadas quase sempre nos shows atuais da banda.
Ainda que os fãs mais radicais tenham torcido o nariz para o direcionamento mais Crossover que o Ratos de Porão adotou, é fato que a banda conquistou novos fãs com o play, sobretudo os headbangers, status que perdura até hoje em dia, o Ratos agrada Punks e bangers, gregos e troianos.
Este foi o único álbum que o Ratos de Porão lançou pela Baratos Afins, já que em 1987, a banda assinou com a Cogumelo, influenciada pela amizade desenvolvida com a galera do Sepultura, e por lá lançaram o álbum “Cada Dia Mais Sujo e Agressivo“, que ganhou uma versão em inglês. Depois a banda partiu para a Roadracer, uma subsidiária da Roadrunner, por onde ficou mais tempo.
No ano de 1998, o selo Silva Music produziu o álbum tributo chamado “Traidô – 20 bandas Tocando Ratos de Porão” e duas músicas de nosso homenageado ganharam versões: foram elas “Paranóia Nuclear” e “Juventude Perdida“, tocadas por Zero Vision e Muzzarelas, respectivamente. O Zero Vision, inclusive, incluiu a faixa em seu segundo álbum, chamado “South American Nightmare“, lançado no mesmo ano de 1998.
Em 2021, o Ratos de Porão fez alguns shows para comemorar os 40 anos de existência da banda, e tocou por algumas oportunidades os primeiros álbuns na íntegra. “Descanse em Paz” não foi esquecido e em foi tocado de cabo a rabo. Os integrantes disseram na época que tiveram de reaprender as músicas, pois não eram tocadas há algum tempo.
Felizmente, o RDP segue em plena atividade e sem planos de cessar o discurso antifascista. A banda está nos devendo um álbum de inéditas, o que não acontece desde 2022, com “Necropolítica“, quando o homenageado foi o ex-presidente e hoje cumprindo pena por tentativa de golpe de estado. Longa vida às ratazanas.

Descanse em Paz – Ratos de Porão
Data de lançamento – 1986
Gravadora – Baratos Afins
Faixas:
01 – Cérebros Atômicos
02 – Morrer Mais uma Vez
03 – Velhus Decréptus
04 – No Junk
05 – Sofrimento Real
06 – Juventude Perdida
07 – Paranóia Nuclear
08 – Descanse em Paz
09 – Fora Eu
10 – Aviso Final
11 – Zona
Formação:
- João Gordo – vocal
- Jão – guitarra
- Jabá – baixo
- Spaghetti – bateria