Circle of Stone, diretamente dos Estados Unidos lança o segundo álbum ‘Ghost of Tomorrow’. O trabalho sucede o álbum de estreia ‘Siver The Ties’ e traz uma evolução na banda, lapidando um som que mistura diversas referências e traz um som nostálgico, moderno e cheio de peso. Não à toa, esse novo disco é a prova de que a banda encara o rock como laboratório: energia crua, sujeira bem-vinda e uma boa dose de cinismo embalada em riffs e dinâmicas que soam contemporâneas, mas também reverenciam o passado. Gravado em diferentes continentes, com produção musical realizada principalmente no JEC Studio, nos EUA, O álbum de 10 faixas é, segundo a banda, “uma ousada exploração da filosofia anti-IA, demonstrando o compromisso da banda em criar música autêntica, produzida por músicos de verdade”.
A jornada começa com “Fight Back”, uma abertura explosiva: riffs secos, bateria marcada e uma produção que já escancara o tom do disco — direto, sem massagem, mas cheio de detalhes escondidos nas camadas de guitarra – no primeiro acorde já notamos a semelhança gritante com a maior banda de doom/heavy metal da história. Uma faixa que entrega o puro rock’n’roll sem firula com aquele tom sombrio do doom metal. Formada em 2023, em Atlanta, Estados Unidos, Circle of Stone pode ser considerado uma novata na indústria da música, no entanto, a sofisticação de suas músicas mostra que tem um conhecimento muito além daqueles novatos.
Logo depois, “True Intensions” mantém o peso, agora com grooves e muitos momentos dinâmicos: baixo pulsante, vocais que exploram nuances entre o rasgado e o limpo, lembrando como a escola do stoner e grunge podem se cruzar. Estamos na segunda faixa mas já é notável que os vocais de Russell Stewart irão carregar todo o disco, nos conduzindo por essa audição gostosa.
A sonoridade em geral mescla peso do rock’n’roll entre os anos 70 e 90, com um apelo melódico acessível, resultando em músicas que equilibram agressividade contida com passagens introspectivas. É um som que não se perde em virtuosismo: a força está na simplicidade dos acordes e na intensidade da entrega, sempre mirando impacto imediato e emocional. A voz é talvez o elemento mais reconhecível: grave, dramática, carregada e sempre colocada em primeiro plano, com um tom de urgência e tirada do amargo.
Na sequência, “Scape Decay” chega com uma pegada mais prog na entrada, e logo culminará em uma bateria urgente e um refrão poderoso, que remetem as raízes do southern rock, hard e seus originários – mas logo entrega a real inspiração: Algo entre Alice in Chains e Velvet Revolver. “Never Forget” dá um passo para frente na velocidade, traz um ambiente pesado com baixo ardente e depois nos joga em um metal mais moderno, riffs intencionalmente para cima, que sugerem momentos de êxtase, e tudo isso sem perder a veia heavy metal que a banda não esconde.
“Broken Soul” nos é apresentada com aquela vibe de jam de garagem levada ao limite, com aquela vibe do rock americano dos anos 90, e não era pra menos, a origem e influ~encia da banda traz essa vibe ao disco. Essa faixa também conta com os backing vocals ardentes e solo de guitarra característicos casada aos vocais mais certeiros – é a faixa que mais gostei.
Enquanto “Leap of Faith” abaixa a intensidade e se torna a balada do álbum, com riffs suaves e vocais mais calmos. A instrumentação traz algo mais místico, uma energia diferente de todo o disco, até sermos surpreendidos com a potência vocal. “Break the Silence” explode em um grunge/heavy metal com uma base rítmica sólida e riffs fortes, essa batida é ótima para curtir um show.
Em “Save Your Lies” somos novamente jogados ao peso e densidade, com riffs e vocais de energia única e uma construção que quase beira o progressivo. Sem cair na pompa excessiva, a faixa conquista aqueles que apreciam o bom e velho rock’n’roll -principalmente dos anos 90, mas com aulas de guitarra de Tony Iommi.
Chegando a “Outrage!”, o clima fica robusto e cheio de inspiração. Os riffs densos e melodias abertas se misturam, quase sempre ancoradas em afinações mais graves. A bateria segue um caminho sólido e direto, priorizando batidas retas e poderosas, criando uma base quase marcial. Essa é a canção que mais remete ao grunge moderno. Com o britânico Stewart nos vocais, guitarra rítmica e baixo, o americano Joe Garmon nas guitarras solo e rítmica, além de J.R. Mysterion na bateria e percussão, o Circle of Stone oferece uma experiência musical poderosa, mesclando as maiores bandas do Reino Unido e dos Estados Unidos.
O fechamento fica com “Cast Down Heart…Titan” entrega um final que soa como uma explosão de sentimentos, voltando ao tom místico, sem perder a autenticidade. Aqui há ais tons de southern rock, mas mantendo o baixo pulsante e a energia pesado entregue em todo o disco – com uma surpresa no final que eu adorei. Foi uma ótima escolha para encerrar essa aventura musical.
No entanto, é importante notar que Circle of Stone não se aventura muito além dos limites do estilo tradicional de stoner/grunge/metal. O grupo pisa no freio quando o assunto é criar melodias mais inovadoras e não convencionais. Isso resulta em um som que, embora bem executado e fiel às raízes do gênero, não oferece grandes surpresas ou inovação. Mas é inegável o investimento para produzir um disco de alto padrão, além do talento nato dos músicos, que apostaram na receita clássica dos estilos.
Para aqueles que são fãs de bandas oldschool como Alice in Chains, Stone Temple Pilots, Soundgarden (que por sua vez foram inspiradas por Black Sabbath, Judas Priest e Pentagram), Circle of Stone oferece exatamente o que se espera: riffs pesados, vocais que impõe presença e vibe nostálgica. Para os apreciadores ‘Ghost of Tomorrow’ é um prato cheio, mantendo-se fiel aos fundamentos do gênero sem explorar novos territórios sonoros, mas executados de uma forma que não se pode criticar.