Entrevistas

Marcus D’Angelo (Claustrofobia): “A vida é curta demais para não correr atrás do que se ama, faremos o sacrifício necessário para manter a banda viva e o compromisso com a arte intacta”

Marcus D’Angelo (Claustrofobia): “A vida é curta demais para não correr atrás do que se ama, faremos o sacrifício necessário para manter a banda viva e o compromisso com a arte intacta”

22 de janeiro de 2026


Claustrofobia retorna após o aclamado álbum ‘Unleeched’, lançado pelo selo americano M- Theory Audio e disponível no Brasil pelo selo da Wikimetal Music. Agora, a banda brasileira promove o single “AQUI NÃO”, com participação de João Gordo, do Ratos de Porão.

Fundado e liderado pelos irmãos D’Angelo, fortemente independentes desde 1994, a banda atua com o mesmo respeito e atitude desde os clubes underground mais sujos até os maiores palcos da atualidade, canalizando sua energia do heavy metal com uma sólida carreira no Brasil, América do Sul, Europa e Estados Unidos. Atualmente morando nos Estados Unidos, a banda excursionou com o Sepultura,  abrindo os shows da turnê de despedida, a ‘Celebrating Life Through Death’, ao lado Obituary e Agnostic Front. E recentemente, abriu 22 shows da turnê norte-americana da CRYPTA.

Em entrevista, o vocalista e guitarrista Marcus D’Angelo, fala sobre a parceria com o João Gordo, a vida nos Estados Unidos e planos de um novo álbum.

O que a presença do João acrescentou à música em termos de mensagem, peso e atitude?

O João Gordo carrega uma energia que muda o ambiente. Quem já viu o Ratos de Porão ao vivo entende: quando ele entra, o tempo fecha. Sempre foi uma voz que provoca, incomoda e escancara as coisas, sem pedir licença.“AQUI NÃO” já nasceu com esse espírito. É uma música de confronto, de identidade forte, que não tenta agradar nem se encaixar. Quando pensamos na participação do João, faz sentido justamente por isso.

A presença dele amplia a mensagem e força a música a existir num esquema mais tenso. O nome dele, por si só, já traz atenção imediata e reações opostas, e isso fortaleceu ainda mais a música. E, no fim das contas, o João é um amigo de coração gigante que, junto com seus companheiros do Ratos de Porão, lançou verdadeiras obras-primas do metal punk brasileiro. Discos que são influências diretas para o Claustrofobia e para inúmeras bandas. Já tentamos fazer algo juntos desde o álbum ‘Peste’ e nunca tinha rolado. Dessa vez aconteceu, na hora certa. Ter ele nessa música foi uma honra. Eu amo a liberdade do Claustrofobia.

A mudança para os Estados Unidos representou um recomeço. Quais foram os maiores desafios fora do palco nesse processo?

Sem dúvida, o maior desafio foi toda a parte burocrática para poder estar aqui dentro da lei, além do tempo de adaptação. Aqui não existe gambiarra. Mesmo com oportunidades surgindo por causa da banda, tivemos que resolver praticamente tudo sozinhos, contando apenas com alguns poucos aliados que valem ouro.

O primeiro ano foi especialmente duro. Enfrentamos muitos obstáculos e até tentativas claras de nos prejudicar. Foi um processo pesado, mas que nos deixou mais fortes, mais atentos e ainda mais determinados a seguir em frente. E aqui estamos.

O público norte-americano reage de forma diferente aos shows do Claustrofobia em comparação ao público brasileiro?

Na verdade, o público do metal é muito parecido no mundo todo. Mas, de certa forma, o público norte-americano é um dos mais próximos do brasileiro. Ao mesmo tempo, como existem muitos shows por aqui, a experiência acaba sendo mais comum, então tudo depende muito do lugar e do contexto. Uma coisa é certa: quando os fãs daqui gostam da banda, eles demonstram. Fazem questão de começar o mosh pit, compram todo o merchandising e apoiam de verdade. Esse envolvimento faz toda a diferença.

Podemos esperar um álbum completo ou vocês pretendem apostar mais em singles e lançamentos pontuais?

Com certeza continuamos metendo ficha em álbuns. Somos uma banda que pensa em formato de disco. Lançamos singles pontuais quando faz sentido, até para não ficar muito tempo sem soltar material novo, mas isso nunca substitui a ideia de um álbum completo.

Viemos da escola ouvir um disco do começo ao fim: entender o conceito, as letras, a ordem das músicas, a vibe e a produção. Sempre pensamos as músicas dessa forma. Inclusive, já temos cerca de 11 faixas em estágio bem avançado que devem compor o próximo álbum.

Posso adiantar que será um trabalho cravado nas raízes do Claustrofobia e do metal brasileiro. Por isso, tudo indica que nós mesmos vamos capitanear a produção. A ideia é buscar algo cada vez mais orgânico, numa concepção mais antiga mesmo: microfonar tudo, sair tocando e mixar sem alterar a nossa performance com excesso de limpeza ou artifícios de estúdio. Fizemos essa experiência no single “AQUI NÃO” e ficamos muito satisfeitos com o resultado, então a tendência é seguir por esse caminho.

O disco terá músicas em inglês e algumas em português, mantendo a tradição e a identidade da banda. Também teremos participações especiais surpreendentes e um experimento meio louco que deve causar impacto. Depois de décadas de estrada, vamos entregar exatamente o que todos esperam do Claustrofobia. É hora de cravar o estilo de vez.

O que mantém a Claustrofobia em movimento?

Sem dúvida, o que nos mantém em movimento é o amor pela banda e a paixão pelo metal, pela música e pela arte. É isso que realmente nos move. Ainda vibramos como adolescentes quando surge um riff forte ou uma batida que funciona de verdade. Sempre soubemos o que queríamos. Muitas bandas dizem que nunca imaginaram chegar onde chegaram, mas com a gente foi diferente. Desde o início, quando descobrimos a música, o rock e o metal, nos encontramos ali, materialmente e espiritualmente. Sempre imaginamos chegar até aqui e sabíamos, desde cedo, que nada iria nos parar. E assim foi. Bem ou mal, chegamos longe, estamos vivos e cheios de inspiração.

A vida é curta demais para não correr atrás do que se ama, então, não importa o que aconteça, vamos sempre fazer o sacrifício necessário para manter a banda viva e o nosso compromisso com a arte intacta. Hoje somos pessoas diferentes e consigo enxergar coisas muito boas no horizonte. O metal nos protege, nos fortalece e nos dá força para lutar pela vida. É algo difícil de explicar, mas absolutamente real.

Vocês sentem que hoje a banda é vista mais como um nome internacional do metal do que apenas uma referência brasileira?

É difícil dizer, porque cada pessoa enxerga a banda de um jeito diferente. São muitos anos de estrada, gerações diferentes e leituras variadas. Já ouvi muita coisa sobre o Claustrofobia ao longo do tempo, e às vezes até assusta a forma como certas imagens são criadas.

Pelo que eu percebo hoje, somos vistos como uma banda internacional, mas que carrega e representa o metal brasileiro legítimo na forma de tocar, de se posicionar e de encarar a música. Esse equilíbrio faz muito sentido pra gente. No fim das contas, são as pessoas, o público e a cena que vão dizer como a banda é vista. Mas, sendo bem sincero, é uma pergunta que eu realmente não consigo responder com total precisão (risos).