Memory Remains

Memory Remains: Dorsal Atlântica – 32 anos de “Alea Jacta Est” e a história de um Cristo negro em um Brasil segregador

28 de janeiro de 2026


Há 32 anos, em 28 de janeiro de 1994, a Dorsal Atlântica lançava “Alea Jacta Est“, o álbum de número cinco dessa que é uma das bandas pioneiras do Metal brasileiro, e tema do nosso Memory Remains desta quarta-feira.

O álbum marca a estreia da banda pela Cogumelo, histórica gravadora mineira, responsável por fazer o mundo conhecer o Sepultura, na década anterior. A Dorsal chegou a lançar o álbum “Straight“, o sucessor de nosso aniversariante, também pelo mesmo selo, antes de migrar e encerrar suas atividades.

Para a concepção do álbum, Carlos Lopes fez um álbum conceitual, que conta a história de um personagem chamado “Black Angel”, que é o Cristo em pele negra, que vive em uma terra corrupta e suja, pregando a paz e levando esperança aos menos favorecidos e aos que não tinham muita esperança de melhorias, mas crucificado em um poste, com direito a transmissão ao vivo pela televisão. Vejamos que 32 anos depois, nada disso mudou, até piorou, muito em virtude daqueles que se utilizam da mensagem divina, muitos se metendo em escândalos. Quem se lembra de pastor se vestindo de lingerie e dizendo que estava fazendo uma investigação? Ou pastores que se metem com política, defendendo coisas que provavelmente o Cristo da Bíblia condenaria, como atos fascistas e antidemocráticos?

Outro exemplo recente de como nosso país é segregador, é o cruel assassinato do cão Orelha, em Santa Catarina. Jovens de famílias bem estruturadas financeiramente, de pele clara, que tem acesso à educação nas melhores escolas e nem isso foi suficiente para impedir que eles cometessem uma atrocidade contra um bichinho indefeso. Como “prêmio”, as respectivas famílias enviaram os criminosos para passar férias na Disney. Imaginemos se os criminosos fossem pessoas pretas, pobres e periféricas, a conversa seria outra, como sempre foi em uma nação que historicamente sempre quis fazer o processo de “embranquecimento” da população, o que é impossível, dada a riqueza da nossa miscigenação. Viemos dos indígenas, dos africanos e não podemos afirmar que somos brancos, porque não somos. “Alea Jacta Est” fala sobre essa segregação étnica.

Uma pesquisa recente da USP, apontou que, no Brasil, pessoas negras tem 49% mais chances de serem assassinadas do que pessoas brancas, o que mostra o quão nosso país segue sendo segregador, o que historicamente nunca foi novidade, haja vista a pouca importância dada aos negros, escravos e descendentes, quando da abolição da escravatura, e a consequente queda da monarquia, passando pela falta de políticas para essas pessoas, o que se reflete ainda hoje na sociedade, onde pouquíssimos negros são protagonistas.

O título é uma expressão em latim, atribuída ao imperador romano Julio Cesar, que, em tradução literal significa “A Sorte Está Lançada”, o que significa uma decisão irrevogável, e na visão da banda, significava que não iria aderir às tendências musicais da moda e manter a sua sonoridade. E mais uma vez, Carlos Lopes usou da filosofia e da poesia, se inspirando em autores como Michael Focault, Frantz Fanon e Friedrich Nietzsche.

No carnaval de 2020, a escola de samba Estação Primeira de Mangueira, desfilou com uma figura de Cristo negro crucificado, bem parecido com o mesmo que aparece na capa de nosso homenageado, o que fez com que o líder da Dorsal traçasse paralelos entre a festa do samba e a sua obra, lançada quase 30 anos antes. Aspas para ele:

“Ver a história do cristo negro, favelado, ser crucificado por uma elite imoral e corrupta, ver este disco ser praticamente encenado na passarela do Samba, foi como ver meu próprio disco, minha própria ambição como artista. A minha visão de Brasil está concretizada.”

O trio viajou para Belo Horizonte, e se reuniram no Polifonia Studio. Carlos Lopes fez a produção, sendo auxiliado nesta função por José Nilton Loureira Araújo Lima, e tendo como engenheiro de som, Marcos “Gaguin”, figura conhecida na cena mineira, tendo tocado na banda Sagrado Coração da Terra e também no Sargent Peppers, uma das mais respeitadas bandas cover do The Beatles. Inclusive, há uma versão em CD, onde a última música do play, “Tribute to Gaguin“, é uma ode ao rapaz.

Chegou a hora de dar play no álbum. Musicalmente, a Dorsal Atlântica seguia trazendo seu Crossover Thrash, trazendo doze músicas em 44 minutos. Os grandes destaques ficam por conta de músicas como “Take Time“, “Thy Kingdom Come“, “Give a People Chance“, “Raise the Dead” e “Black Messiah“. “Alea Jacta Est” é um tesouro do Metal nacional, mais do que isso, é uma aula de história em forma de música, como Carlos Lopes sempre fez questão de mostrar que é, um sujeito que pensa fora da caixinha. A sonoridade se manteve flertando entre o Thrash Metal, o Hardcore e o Crossover, e o álbum é considerado uma relíquia. Quem tem (é o caso deste redator que vos escreve), há de concordar com tal afirmação.

Apesar de toda a riqueza da história, era de se esperar que o álbum não fosse tão bem recebido por parte do público, que chegou a cometer a heresia de acusar a banda de ter se tornado uma banda de White Metal. Não surpreende, principalmente nos dias de hoje, quando temos entre os fãs, muitos entusiastas do preconceito étnico, alguns outros que não aceitam a diversidade e que até mesmo, defendem o machismo. Carlos Lopes não tem o menor pudor na hora de manifestar o seu lado político e isso desperta a ira da turma que estava tomando descarga de raios em Brasília no último domingo.

A Dorsal Atlântica caiu na estrada e Carlos Lopes fazia o trabalho equivalente a pregar no deserto, pedindo para que as pessoas lessem, e mais do que isso, compreendessem a mensagem passada por ele. O próprio Carlos chegou a proferir, em um show no extinto Aeroanta, em São Paulo, a frase que iremos reproduzir abaixo:

“É muito importante que vocês leiam essas letras […] são sobre transformação, sobre mudar a sociedade, e é isso que todo mundo quer.”

Apesar da mensagem progressista em suas letras, a Dorsal Atlântica já não estava em perfeita harmonia nesta época. Cláudio Lopes, irmão de Carlos, abandonou a banda, o que deixou o líder magoado, e Carlos disse em entrevistas que já não estava satisfeito em ter que administrar o ego dos músicos que preferiam estar com as groupies do que em cima do palco, tocando. Ângelo Arede, que hoje é vocalista da Gangrena Gasosa, assumiu o posto de baixista, vindo a gravar “Straight“, mas saiu, dando lugar à Alexandre Farias, que ficou até a banda se separar, em 2000.

Felizmente, Carlos Lopes voltou ao mundo do Metal depois de se aventurar por alguns anos no Funk, e está de volta com a Dorsal Atlântica, desde 2012, lançando álbuns sempre no esquema de Crowfunding. A banda já terminou as gravações de “Miseris Noblis“, o novo álbum, que deverá ser lançado ainda este ano. E enquanto a Dorsal não faz nascer o novo álbum, hoje é dia de celebrarmos mais um ano deste play que envelhece muito bem, obrigado. E como é bom saber que temos bandas preocupadas com o bem-estar comum, como a Dorsal Atlântica.

Alea Jacta Est – Dorsal Atlântica 

Data de lançamento – 28/01/1994

Gravadora – Cogumelo

 

Faixas:

01 – Thy Kingdom Come

02 – Give People a Chance 

03 – R.I.P. (Racism, Ignorance, Prejudice) 

04 – Straitgate

05 – Raise the Dead 

06 – Human Rights

07 – Virtual Reality

08 – Last Act 

09 – Black Messiah 

10 – Loyal Legion of the Admirers 

11 – Life Goes On (Vidcom Experiences) 

12 – Take Time

 

Formação:

  • Carlos Lopes – guitarra/ vocal
  • Cláudio Lopes – baixo
  • Guga – bateria