Calma fãs de Megadeth: Dave Mustaine não lançou uma nova biografia, vou falar aqui de “Mustaine: Memórias do Heavy Metal”, livro escrito com apoio do jornalista Joe Layden e lançada em no Brasil em 2013 pela Editora Benvirá.
Apesar de ter o livro em mãos desde 2018, o tempo foi passando, outros lançamentos e prioridades passando na frente, até que, com o anúncio do fim da banda e audição no bom autointitulado derradeiro disco, era enfim a hora de encerrar esse capítulo.
Mustaine começa pela sua infância tumultuada. Filho de um pai controlador que obrigava sua mãe a mudar constantemente de casa, eles acabam pousando então na casa de uma irmã Testemunha de Jeová – “uma experiência traumática”, até porque nessa época ele estava mais interessado em bandas de rock e garotas do que na religião propriamente dita (anos depois o jogo mudaria).
Aos dezesseis anos já traficava maconha e vivia o mantra “sexo, drogas e rock n’ roll”, que atingiria patamares críticos poucos anos depois no Megadeth. Independente e autônomo desde cedo, ele acaba tocando em algumas bandas até que passa na “seletiva” para entrar no Metallica, na época com James Hetfield no vocais, Lars Ulrich na bateria e Ron McGovney, baixista e saco de pancadas. O trio James, Lars e Mustaine tinha personalidade forte e quando bebiam (uma constante) as coisas podiam e costumavam sair de controle, como da vez em que Mustaine deu um golpe de karatê e quebrou o calcanhar de Phil Sandoval (Armored Saint), isso sem falar nos sopapos entre os companheiros de banda que depois ensaiavam como se nada tivesse acontecido.
Mesmo escrito vinte anos depois de ter sido chutado do Metallica dá para sentir todo seu rancor pela forma como foi feito e como a viagem de quatro dias dentro de um ônibus e um folheto político faria surgir o Megadeth, e com ele a promessa de um dia ter uma banda maior e mais famosa do que o Metallica (não conseguiu nenhum dos dois, mas o Megadeth acabou se tornando uma banda grande e influente, o que não é pouca coisa). O Metallica obviamente é um dos capítulos mais importantes e esperados do livro, mas ele logo é deixado para trás (vai ter outros episódios com a banda mais para a frente).
Com o Megadeth montado, disco a disco a carreira do grupo vai sendo revisitada. Pelos seus relatos abertos fiquei me perguntando alguma vezes: como que essa banda chegou aonde chegou? Não falo da sua qualidade musical, mas sim dos seus membros, porque excessos etílicos, de alucinógenos e de relacionamentos tóxicos eram uma constante na rotina do grupo, não importa a formação. Mustaine nunca foi santo (ele mesmo assume isso algumas vezes), mas como era a sua banda, passou do limite de que ele entendia como tolerável, rua, não importava quem fosse.
Mesmo sendo uma banda em ascensão, referência no thrash metal, ou até mesmo por conta disso, as recaídas nas drogas foram uma constante em sua vida: mais de quinze internações em clínicas de reabilitação, algumas forçadas até, principalmente quando entra em cena o crack, a heroína e remédios. Mas o teimoso Musta sempre se reerguia, trocava algumas peças e partia para o próximo disco.
Como ele mesmo disse, “Se vai escrever um livro, deve ser o mais franco possível”, então também estão ali os fracassos: o projeto MD.45 que não passou disso, os discos “Cryptic Writings” (1997) e “Risk” (1999), duas jogadas pensadas unicamente em vendas para atingir a sonhada posição #1, mas que chegou mesmo na #5 e que ainda comprometeram por uns bons anos a reputação da banda.
Não esperava do livro menos do que polêmicas e aquele humor ácido típico de Dave Mustaine e sim, está tudo lá: no melhor estilo “sincericídio”, ele não poupou nomes, membros da própria família, detalhes de aventuras com groupies e de overdoses. Os fatos não vão a fundo, lá no detalhe do detalhe, mas é possível ter uma boa noção das coisas – claro, pela sua visão.
Para quem espera que o capítulo sobre conversão ao cristianismo seja repleto de glamour, adianto que não foi bem assim, foi bem até simples na verdade, mas algo efetivo e decisivo em sua vida, talvez o que tenha feito o hoje vovô Mustaine estar ainda entre nós.
Do período que o livro foi lançado até hoje, claro que muita coisa aconteceu com ele e por tabela com o Megadeth: a melhora da sua relação com James e Lars (farpas para o baixinho dinamarquês são uma constante no livro), o rompimento, ao que tudo indica, definitivo com Junior (David Ellefson) e os bons discos lançados após 2015 que recolocaram a banda de volta nos trilhos.
A edição da Editora Benvirá tem uma qualidade básica, em que as fotos de chamadas dos capítulos saíram em preto e branco e recheio em papel comum, mas nada que desabone o livro, já fora de catálogo. Já a edição de 2023, lançada pela Belas-Letras, vem com mais fotos coloridas, uma miniatura em papel de montar do Mustaine e uma réplica do flyer de um dos primeiros shows do Megadeth (tamanho 21 x 14cm).