Resenhas

Camera Obscura

Scopitone

Avaliação

8.0

O projeto Scopitone lança seu álbum de estreia, ‘Camera Obscura’. Com um conjunto de sete faixas que servem como vinhetas de histórias cativantes, o álbum é uma verdadeira celebração da jornada musical e pessoal. Com faixas que misturam influências e sonoridades diversas, o álbum é uma demonstração do talento e da versatilidade da banda, mergulhando na poesia romântica, na música emocionalmente intensa, voltada para a audição atenta, e não para ser ouvida como música de fundo. E este álbum é mais um passo firme na jornada sonora do artista belga Vincent Roose, idealizador do projeto, que adiciona um toque pessoal a cada faixa, tornando este álbum imperdível para os entusiastas da música.

A abertura com a apropriada “Panopticon”  já mostra suas origens enigmáticas. Um synth rock sombrio com sentimento profundo, muito semelhante a sons que vão de Depeche Mode, LCD Soundsystem a Dead Can Dance, mas também cm toque progressivo de Rush, criando algo único. Logo na primeira faixa o artista transmite sua lamúria, onde ele perfura o ouvinte, sem dizer uma palavra. Nascido na noite da reeleição de Donald Trump, o disco é uma exploração fluida de gêneros sobre ansiedade, história e invenção humana — cada faixa adotando uma tecnologia diferente como lente, do panóptico à bomba atômica.

O disco molda a sensibilidade cinematográfica da música: as canções se desenrolam como cenas encenadas, com paisagens intensas, conferindo um apelo narrativo distinto, totalmente instrumental.  Em “The Light of a Man-made Star” temos guitarra ao estilo David Gilmour, com linhas de violão que remetem aos clássicos do Pink Floyd e uma pegada cheia de atitude com um instrumental mais reflexivo e depressivo.

O disco tem variações de sentimento, na “Portrait”, o clima muda completamente para algo mais lisérgico e introspectivo, uma faixa lenta e hipnotizante que parece flutuar em um mar de reverberação, em uma viagem extremamente melancólica, provando que a banda consegue transmitir seus mais profundos sentimentos sem dizer nenhuma palavra – E isso é um dom. Em seguida, “The Phantom Carriage” mantém o clima introspectivo mas com reverberação nas linhas de piano, usando também outros instrumentos pouco convencionais, criando um clima mágico e assombroso – reforçando que o disco foi construído em torno de forte dinâmica e estruturas de música não convencionais. Segundo o release, o disco é “cru, emocionalmente direto e deliberadamente variado em som e estrutura, Camera Obscura combina sua música com ilustrações de Iolanda Rodríguez que traçam um paralelo consciente com Wish You Were Here, do Pink Floyd”.

Chegando na “Silver Screen”, falas retiradas de algum filme em preto e branco transmitem uma sensação cinematográfica, onde o piano já começa profundo e cortante, a canção toca na alma, é uma música “emocionalmente intensa, voltada para a audição atenta, e não para ser ouvida como música de fundo. A faixa traz muitos elementos do rock progressivo, com uma pegada depressiva e envolvente. Mas também uma ótima faixa para se tornar trilha sonora de filmes.

Já “Karelian Dream” nos transporta para o deserto, com uma atmosfera angustiante e reflexiva, com linhas de piano e sintetizadores – mais ousado ainda é a mudança repentina de ambiente para os pianos depressivos e encantadores, mudando a intensidade da faixa. É uma faixa que quase podemos ver o sol poente em tons laranja enquanto a melodia se estende no horizonte. Sentimos então uma mudança brusca, literalmente inspirado em Pink Floyd, explorando som mais soturno, onde os riffs característicos do rock dos anos 70 se destaca com uma linha minimalista e poderosa de 9 minutos. O artista dá um passo criativo e experimental aqui, criando um equilíbrio fascinante, totalmente inspirados nos hits da época.

Encerrando essa viagem sonora perfeita, temos uma faixa bônus de “Sednoid”. Aqui, Scopitone tenta dar contraste à faixa anterior, mas mantém o clima assombroso e misterioso, prendendo o ouvinte e o convidado para desvendar todo esse mistério que o artista proporciona, em uma faixa totalmente instrumental. Ele encerra o álbum com um toque soturno e conclusivo – mas não tire conclusões até ouvir a faixa inteira, pois ela irá surpreender. Scopitone entrega uma obra que mistura ousadia, melancolia e experimentação, tudo com um toque místico que só eles sabem fazer. Definitivamente, você precisa ouvir esse álbum – mais de uma vez, pois foi criado fora de tendências e algoritmos, com a intenção de que os ouvintes o vivenciem como um ciclo emocional completo.