Resenha de Show

Praying Mantis e Oxido – duas bandas que merecem ser muito mais conhecidas em uma noite de muito heavy metal em Portugal

Jéssica Marinho

Resenha por Daniel Tavares

Quando falamos no time de futebol Botafogo, a associação mais imediata é ao time carioca, não é mesmo? Mas há outros times que carregam este nome e, em um momento ou outro, estiveram em boas ranques nas competições nacionais. No Brasil inteiro são mais de duzentos. Entre os tantos desconhecidos, destacam-se o Botafogo da Paraíba, maior campeão do Campeonato Paraibano, e o Botafogo de Ribeirão Preto, que foi responsável por apresentar ao mundo o talento de um dos maiores futebolistas brasileiros, o imortal Doutor Sócrates, e seu irmão Raí, ambos ídolos perenes em times de maior expressão nacional, como Corinthians e São Paulo. Além desses, o hoje goleiro do Flamengo, Diego Alves, conhecido pegador de pênaltis, também nasceu nos ranques do time do interior paulista. E por que tanta conversa de futebol se o que queremos aqui é balançar a cabeça? É para tratar um paralelo entre clubes de futebol menos conhecidos e bandas que, também menos conhecidas, tiveram em seus line-ups artistas que já tinham estado ou ainda estariam em outras bandas que definiram o nosso gosto por Heavy Metal. Na banda inglesa de NWOBHM/AOR PRAYING MANTIS, Doogie White (ALCATRAZZ, ex-TANK, ex-RATA BLANCA) e Bernie Shaw, o hoje vocalista do URIAH HEEP, são alguns nomes na extensa lista de ex-membros que você pode reconhecer, mas, certamente, os nomes que lhe saltarão aos olhos são de Clive Burr, Dennis Stratton e Paul Di’Anno, três músicos que estiveram naquela que é considerada a maior das bandas de New Wave of British Heavy Metal (ou ainda, que os fãs do METALLICA me perdoem, a maior banda de Heavy Metal do planeta), o IRON MAIDEN. Embora jamais tenham tocado os três juntos na mesma ocasião, a formação mais longeva incluia Burr e Stratton. Di’Anno permaneceu por pouco tempo na banda.

A PRAYING MANTIS, formada ainda em 1973 pelos irmãos Troy, iniciou por Lisboa, Portugal, uma pequena turnê ibérica que passaria nos dias seguintes por mais outras quatro cidades espanholas, antes de partir para o renomado Sweeden Rock Festival. Estivemos no show no RCA Club de Lisboa, tradicional point do metal na capital lusa, para contar, com fotos de Jéssica Mar, como é o show desta banda ícone, enquanto pouco conhecida. E, sim, adiantamos que foi como assistir a uma partida do Botafogo de Ribeirão Preto, mas com jogadores que bem poderiam estar na Seleção Brasileira. Ou Portuguesa.

RAGE AND FIRE

E são patrícios portugueses os primeiros a subir ao palco do RCA, ainda na tarde-noite de quarta. Iniciando os trabalhos (ou melhor, a iniciar) a RAGE AND FIRE (em quarteto) aqueceu o público já presente. Já mandaram em primeiro lugar a canção que lhes dá nome. Seguiram com “Black Wind” e, numa parada para uma água, perguntaram: “alguém sabe um milagre pra transformar agua em cerveja?”. “Shape Shifter” é um exemplo de som empolgante baseado nos mestres do metal, cabe dizer.  Outra que evoca um IRON MAIDEN é “Tell the Tales (of Medusa)”. E não podem faltar os solos de um guitarrista após o outro. Ainda das novas (que não estão na Demo com sugestivo nome “1986+35”), “20th Century Man” tem bons riffs, enquanto “The Last Wolf” também tem solos bonitos. É uma boa banda, nada tão original, mas muito competente naquilo que se propõe a fazer, com temas com agressividade, riffs, solos e espancamento de peles na medida certa. Compõe oficialmente a banda Vasco Machado (bateria), Mário Figueira (guitarra) e Rick Thor (vocal e baixo).

Setlist:

Rage and Fire
Black Wind
Shape Shifter
Tell the Tales (of Medusa)
20th Century Man
The Last Wolf

Jéssica Marinho

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OXIDO

Às 9:30 sobe ao palco a primeira internacional da noite, a espanhola Oxido, formada pelo simpático gorducho Iñigo de Miguel (vocal), pelos guitaristas  Feli Jiménez e Xabi Barón, pelo baixista Fermin Lanzas e pelo batera Juanma Caballero. O quinteto navarrino começou seu show com “Cicatrizaré” e empolgou com guitarristas debulhando a guitarra em riffs e solos muito bons. Seu cantar em espanhol, algo que não costumamos ouvir, pode até soar estranho nos primeiros segundos, mas logo mostra-se “um plus”. “Somos Oxido, de Pamplona, 1000 km daqui. Passamos 7 dias e 7 noites para chegar aqui, parando em todos os bares”, apresenta-se Iñigo. “Esta noite somos a tempestade, somos filhos do heavy metal, somos filhos do rock and roll”, ele continua antes da ótima “Soy la tormenta”, que dá nome ao trabalho mais recente da banda. E, falando nele, o tema que vem em seguida é a canção que o abre, “Solamente Fuego”. “Ela fala dessa gente que só merece fogo”, afirma Iñigo.

Iñigo manda bons agudos e sai bem tanto em sons mais agressivos quanto mais calmos, como na balada “Me falta viento”. E não podemos deixar de ressaltar também o excelente solo de guitarra em “Mal Vino”. Ou talvez eu nem possa chamar de solo, porque competia com uma levada de baixo também excelente. Com o perdão do trocadilho, a música é um bom vinho, um bom vinho em uma cidade onde bons vinhos são comprados com poucas moedas no supermercado.

Na sequência, “Que duela”, Iron Maiden puro e total, cagadito y cuspidito. Encaminhando-se para o fim, ainda temos “Sonarás”, que dá título ao segundo álbum da banda, fechando com “Elétricos” e “Oxidados”. E se o mote da banda é falar de headbangers um tanto já enferrujados, não sei como os guitarristas não saem daí com as mãos queimadas de tanto shred.

Setlist

Cicatrizaré
Caen Los cuervos
Soy la tormenta
Solamente fuego
Te quieren muerto
Me falta viento
Mal vino
Que duela
Sonarás
Elétricos
Oxidados

Jéssica Marinho

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PRAYING MANTIS

Mas a mais aguardada mesmo (infelizmente, temos que dizer, por um público bem pequeno, em que pese o show ser numa quarta-feira) era a PRAYING MANTIS. A louva-a-deus assassina dos irmãos Chris e Tino Troy, nesta formação complementada pelo maestral Andy Burgess (guitarra), por Hans in’t Zandt (bateria) e pelo vocalista John “Jaycee” Cuijpers (vocal) também começou seu show com a canção epônima, seguida de outro clássico, “Panic in The Streets” do álbum de estreia, “Time Tell No Lies”, dona de um solo de guitarra arrebatador. Que solo!

Pense só em estar dirigindo numa dessas estradas tapete do continente europeu com uma música como “Highway” rolando no som do carro. Algo que talvez só se compare a ver ao vivo a execução de faixas como esta, assim tão de pertinho.

E houve até momentos mais, digamos, descontraídos. “Desculpe, eu não sei muito espanhol…”, disse um deles, só para receber impropérios do público português.

Adiante, Jaycee relembra: “Lançamos um álbum no começo desse ano, se chama Catharsis e este é o primeiro single”. Cry for The Nation” começa de forma bastante emocional e é seguida por “Closer to Heaven”, também do disco novo, mas está mais para um JOURNEY. O PRAYING MANTIS sempre teve uma pegada AOR e nunca se limitou ao NWOBHM, até por ter nascido bem antes da “nova onda”.

“Dream On” é a balada da noite (não sem brincadeiras, “Agora temos uma, como se fala em português, balada? Salada?”). Uma canção tão bela como a homônima aerosmithiana.

Embora tocando para um público muito aquém (em número, ressalte-se) de sua grandeza, a banda britânica não demonstrou nenhum descontentamento. Pelo contrário, estavam felizes. O gnomo Tino Troy com seus trejeitos característicos era um dos mais sorridentes. Tocam e sentem a sua música estejam tocando para cinquenta ou cinquenta mil pessoas. Até deram uma escapada em “Time is Slipping Away” e tiveram que reiniciar, mas levaram na esportiva (“essa é uma nova canção de um álbum futuro”). Era uma festa.

Outro clássico da noite foi “Captured City”. E a PRAYING MANTIS, que chegou sem backdrop, sem qualquer efeito visual (nem mesmo a pele do bumbo tinha o seu nome – tinha o da Oxido) se iguala musicalmente àquela outra banda que abraçou o mundo e foi abraçada por ele tem carretas e carretas de equipamentos de figuração. Em canções assim, ambas são equivalentes. E nada pode ser tão “niuobaum” quanto “Letting Go”.

Que bom ter a oportunidade de ver ao vivo uma banda dessas, ver os irmãos Troy mandando ver. Que decisões erradas ou oportunidades perdidas evitaram que fossem gigantes? Isso nem o tempo dirá.

Mas o tempo já tinha corrido bastante. Nem fingiram que iam sair pro bis, e já mandaram o clássico skynyrdico “Simple Man” e fecharam o show com “Children of the Earth”. Letra pueril, adolescente, mas não poderia ser diferente, foi escrita por adolescentes  em 1975. É triste saber que algumas das questões levantadas se tornaram até mais atuais em 2022.

Finalizamos refletindo que, se não são gigantes em apelo comercial, a PRAYING MANTIS tem e teve em suas formações alguns Ronaldos da música, lembre você dos Ronaldos brasileiros ou do Cristiano português.

Setlist

1. Praying Mantis
2. Panic in the Streets
3. Highway
4. Keep It Alive
5. Cry for the Nation
6. Closer to Heaven
7. Dream On
8. Turn the tables
9. Times Slipping Away
10. Captured City
11. Letting go
12. Simple Man
13. Children of the Earth

 

Agradecimentos:

Hugo Fernandes e Metals Alliance, pela atenção e credenciamento.

Jéssica Marinho e Headbangers News, pela confiança e imagens que ilustram esta matéria.

 

Jéssica Marinho

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