Resenha de Show

Ratos de Porão e Krisiun fazem grande apresentação no mês de Março mais quente dos últimos dez anos no RJ

Flávio Farias/Headbangers News

Rio de Janeiro quente como sempre, com temperatura marcando 29 °C às 21h no mês de março mais quente dos últimos dez anos, que faz Dubai parecer Oslo, e a Lapa, reduto da boêmia carioca, que nem parece a Lapa de outrora, vazia, recebeu na sexta-feira, 11, Ratos de Porão e Krisiun, duas bandas que se posicionam contra esse atual governo fascista e nojento, que há de ser derrotado nas urnas.

Uma noite mais que especial, pois o Ratos comemora seus 40 anos de existência e o Krisiun vai encerrando a turnê de divulgação do seu último álbum, Scourge of the Enthroned, que marcou mais uma edição do Tomarock Festival, um evento com tradição no underground carioca e que desta feita anunciava suas maiores atrações. A discotecagem ficou a cargo da DJ Priscila Dau e rolou de tudo entre uma banda e outra: de Dead Kennedys à Black Sabbath, passando por System of a Down, Slayer, Motorhead, Nirvana, Misfits e algumas esquisitices como Planet Hemp e Metallica da fase Reload. Entre o Krisiun e o Ratos de Porão, a moça acertou a mão e tocou Painkiller, Cowboys From Hell, Crazy Train e From Out to Nowhere, por exemplo, o que melhorou e muito a qualidade de sua playlist.

Apesar da bizarrice do prefeito do Rio, Eduardo Paes e do governador do estado, Cláudio Castro, terem revogado a lei que tornava obrigatória o uso de máscaras em locais fechados, os negacionistas seguiram sem vez, já que continua sendo exigido o comprovante de vacinação ou o passaporte da vacina, ou seja, sem espaço para imbecis, embora nem precisava desta obrigatoriedade, uma vez que quem defende esse tipo de ideia certamente não concorda com o que pregam e acreditam as bandas em questão. Mas realmente, ficar sem máscara nesse calor, nos ajudou a suportar.

Embora o Ratos de Porão e o Krisiun tenham carreiras distintas, o respeito entre ambas as bandas é enorme. E a amizade também. João Gordo, inclusive, participou do álbum The Great Execution (2011), escrevendo e cantando na faixa Extinção em Massa. E durante a apresentação, o baixista/vocalista Alex Camargo fez questão de exaltar a importância do Ratos de Porão para o cenário nacional. Isso demonstra a humildade dos gaúchos, que conquistaram o respeito e são referência do Death Metal mundo afora, mas que jamais se esqueceram de suas origens.

Com pontualidade britânica, o Pavio subiu ao palco exatamente às 22:30 e em 35 minutos de set eles apresentaram a sua mistura de Metalcore com elementos do New Metal. O discurso antifascista é o diferencial da banda. O som estava muito alto e a guitarra por vezes soava estridente demais, mas deu para perceber que a banda faz seu som de maneira bem honesta. Aí ponto para o organizador do Tomarock Festival, Luciano. O cara está sempre promovendo eventos, nadando contra a corrente em uma cena desunida e ofuscada por outros estilos musicais, mas o cara segue na batalha e deu uma oportunidade para a banda do Rio tocar entre os gigantes. Uma pena que foi para uma plateia pequena, pouco mais de 50 pessoas se aglomeravam em frente ao palco. Os cariocas deixaram uma boa impressão.

Flávio Farias/Headbangers News

Às 23h40, o Krisiun subiu ao palco com o público já nas mãos e logo nos primeiros acordes um imenso moshpit se formou no meio do salão do Circo Voador. O som estava perfeito e a banda muito simpática. O aniversariante do dia, o frontman Alex Camargo, a todo momento agradecendo a recepção e o guitarrista Moysés Kolesne chegou a afirmar que o Rio é a capital do Metal nacional. Exageros a parte, a banda ao vivo é letal e em músicas como Vicious Wrath por exemplo, isso ficou evidente. Já o baterista Max Kolesne, cirúrgico em seu kit, destruiu tudo com uma naturalidade impressionante. E a sequência de clássicos se estendeu com Combustion Inferno, Bloodcraft, Descending Abominations, até o final, com Kings of Killing. Alex Camargo, sempre exaltando a cena nacional em seus discursos entre uma música e outra, também lembrou que a nossa vida não deve parar por conta de um presidente genocida. Era seu aniversário e a galera cantou parabéns para ele em unissono, que agradeceu emocionado. Em pouco mais de uma hora tivemos uma apresentação para levantar defunto. Era a primeira vez que eu vi o Krisiun ao vivo e eu já sabia da sua letalidade, porém, saio ainda mais impressionado com os irmãos. Eles amadureceram seu som no Século 21 e a sacada da banda para isso foi genial. Era a hora de descansar um pouco o pescoço para a apresentação derradeira, com o Ratos de Porão.

Em menos de cinco minutos, o palco do Krisiun foi desmontado e começou a operação de guerra para montar o palco do Ratos, que até então só tinha o amplificador de Juninho com sua bandeira do MST desde o início. A ansiedade era grande, pois desde 2019 o Ratos não tocava no Rio de Janeiro. Na ocasião, eles (injustamente) abriram para o Raimundos, que comemoravam os 25 anos do primeiro álbum. Os paulistanos por sua vez, comemoravam os 30 anos de Brasil, seu álbum mais icônico e que segue mais atual em 2022 do que quando foi lançado. Recentemente escrevemos um texto sobre esse play e você pode clicar AQUI para conferir.

Pouco antes de a banda subir ao palco, o organizador do festival, Luciano Paz, distribuiu água para quem estava ali no gargarejo, em uma atitude nobre que eu jamais vi em minha vida de shows… E olha que eu ando nisso há quase 30 anos. E mandou ver no discurso antifascista, antirracista e anti homofobia, pedindo para que aqueles que compactuam com isso, fossem embora de seu evento. Ovacionado ele foi e o Ratos entrou para ser mais ovacionado ainda. Eles aproveitaram para surpreender a todos tocando o álbum Vivo praticamente na íntegra, pois o ano de 2022 marca os 30 anos do lançamento deste play. Eles não precisaram de muito para causar um caos no Circo e em instantes a casa estava super lotada.

A mesma sequência do álbum foi tocada até Velhus Decreptus, porém, não tão rápida como no primeiro registro ao vivo. A guitarra de Jão deu uma pequena falhada em Crucificados Pelo Sistema, mas ninguém ligou e Bola, Juninho e Gordo terminaram a música assim mesmo. Menos de um minuto de pausa merecida pois as ratazanas pareciam um rolo compressor em forma de música, e eles voltaram com Ódio e Nunca Mais, Igreja Universal, Herança e Crise Geral, assim em quase uma hora eles destruíram tudo e saíram do palco, voltando para o encore trazendo as faixas mais recentes como Conflito Violento. Foi um pouco mais de uma hora e vinte de apresentação irretocável, e como uma banda com seus 40 anos de estrada, lógico que eles acabariam por deixar algumas músicas de fora, então, não tivemos nenhuma música do álbum Homem Inimigo do Homem, do EP Guerra Civil Canibal, do split lançado com o Look for an Answer ou mesmo as versões Punk dos álbuns Feijoada Acidente?, o que é perfeitamente compreensível e justificada pela performance animal desta que é disparada, a melhor banda do Brasil, em termos de som, de atitude, de engajamento político. Os gritos da plateia mandando o dublê de presidente ir para um lugar especial também merecem destaque e o discurso de João Gordo pedindo para que os milicianos dêem o fora do Rio de Janeiro foi tão apoteótico quanto as músicas tocadas. Uma noite memorável neste Rio de Janeiro que volta a respirar e volta a testemunhar grandes shows.


Circo Voador

Data: 11/03/22

Horário: 20h

R. dos Arcos, s/n