Entrevistas

Ashmedi (Melechesh): “Meus sentimentos para todas as pessoas no Brasil – é trágico demais como o COVID-19 está arruinando vidas”

Melechesh é uma banda de black metal formada em 1993, em Jerusalém. Com uma carreira longeva, ela é conhecida pelo som próprio influenciado pela cultura do Oriente Médio.

O site Headbangers News teve a satisfação de conduzir uma conversa com o membro fundador da banda, Melechesh Ashmedi. Na entrevista, assuntos como o início do grupo, influências, cena metal em Israel/Palestina foram tratados. Confiram o conteúdo!

Texto por Marcos Franke e Carlos Filho.

Olá! Como vocês estão? Iniciando a entrevista, gostaria que você falasse um pouco sobre o começo da banda e apresentasse a banda para os nossos leitores.

Bem, a ideia do Melechesh era dar ênfase ao ocultismo, ao misticismo do oriente médio, mitologia mesopotâmia/suméria, kabbalah e outros aspectos de nosso som próprio, representando ou inventando o black metal do oriente médio. É o som e não apenas as temáticas – dos padrões de bateria até os riffs de guitarra feitos com credibilidade e diferentes.

Melechesh foi formado em 1993 em Jerusalém. Como foi a recepção dos ouvintes da sua música no seu país?
Bom, a parte complexa é que eu não sou nem de Israel nem da Palestina, mas nasci lá. Eu sou armeno/assírio de uma família católica oriunda da Turquia. Eu fui batizado na casa de São Marcos com a linguagem aramaica. Ele foi um dos apóstolos e a localização é onde foi a santa ceia, na antiga cidade de Jerusalém – não muito distante de onde Jesus foi crucificado. Educado em uma escola católica – veja no que eu me tornei. Então sim, tocar black metal – até ensaiávamos em Bethlehem (N.T.: Belém) imagine algo assim, pessoas não estavam felizes. Geralmente Israel é mais mente aberta quando o assunto é arte, mas tivemos problemas quando quisemos nos tornar cidadãos ou algo assim… Mas eventualmente as coisas mudaram, aparecemos na TV e tivemos tantos seguidores que fui obrigado a me mudar pra Europa por 20 anos. Agora estou de volta.

Como é a cena de heavy metal no seu país hoje em dia?

O metal está em todo lugar e eu estou sendo re-introduzido nele aprendendo as bandas que estão lá. É um país pequeno mas é uma cena saudável de bandas que tocam. Eu não me considero um embaixador delas ou algo assim, pois como eu disse nenhum de nós é cidadão, mas sim expatriados.

Há músicos específicos em seu país que influenciam o Melechesh?

Não no país, mas como músico você se forma com aquilo que está ao seu redor e com o que você escuta. Na minha casa se escutava Eagles, Foreigner e rock em geral – eu comecei a ouvir metal muito cedo. Mas eu tirei o meu som mais tarde do rock clássico, do punk e do metal extremo, psicodélico, clássico, blues, ragas indianos, sufi music.Todas as músicas boas deixam marcas em você.

O álbum mais recente de vocês, Enki, foi lançado em 2015. Vocês estão trabalhando em um novo álbum? Como está o processo de gravação?
Após nosso sexto álbum, Enki, nós fizemos turnês sem parar. Eu visitei Israel uma vez e acabei entrando numa briga e bati num cara e fui preso – acabei perdendo o controle da situação e mesmo assim eu ainda consegui fazer uma turnê enquanto o tribunal me dava dor de cabeça por três anos me causando muito stress e atrasos. Agora tudo parece resolvido e agora estava ocupado escrevendo o novo álbum e com ele pronto agora só tenho que estruturar ele e colocar as coisas no lugar certo. Uma vez com as demos de pré-produção em mãos eu posso agendar um estúdio.

Os temas específicos para as letras de sua música contribuíram para que a banda se destacasse na cena. Você poderia falar um pouco como isto te inspirou para usar estes temas em seus álbuns?

Bem, é um lugar mágico, falar de berços de civilizações – mesmo este tipo de mito influenciou outras mitologias e religiões – mesmo em metáforas. Eu tenho orgulho de ser parte desta região tão rica culturalmente. Então sim, representar tudo isto num som de uma banda de metal era ideal. Eu me interesso muito na ideia de que os astronautas nos visitaram no passado. Não há respostas absolutas de como nossos antepassados adquiriram tanta informação e há muitas coisas plausíveis e interessantes a serem exploradas. Geometria sagrada, os anunnaki, magia movimenta à música. Eu sou uma pessoa multidimensional com um MBA em administração, mas isto tudo me fascina. Não esqueça que tudo que eu escrevo tem duplos sentidos e metáforas.

Em algum momento você sentiu a necessidade de mudar a temática de seus álbuns?

Não, porque a temática é tão extensa. É uma dimensão em que a área por si só é um microcosmo para o mundo ou universo e nós não estamos limitados em um tema específico. Como eu disse, eu escrevo em metáforas de uma forma de exploração. Há muitos assuntos e temas neste escopo que ainda estão intocados.

A banda estava programada para tocar num Festival em São Paulo. Você tem informações se o festival foi adiado ou cancelado por causa da pandemia de COVID-19? Como é sua relação com os fãs da América do Sul? Tenho certeza que a expectativa em ver vocês aqui é enorme!

É mesmo? Eu não sei, talvez eu perdi algum e-mail.

Eu fui completamente imunizado desde janeiro de 2021 com as duas doses da Pfizer – as primeiras pessoas que a receberam são de Jerusalém – o que é terrível. Fizemos nenhum show por 15 meses, sem nenhuma entrada de dinheiro e nós estamos sentindo falta do palco. Mas eu respeito e aprecio o que está acontecendo.  Eu apoio qualquer decisão tomada por causa da pandemia. Meus sentimentos para todas as pessoas no Brasil – é trágico demais como o COVID-19 está arruinando vidas; Nunca tocamos no Brasil e estamos ansiosos para tocar. Eu sou amigo de Max Cavalera e ele também foi músico convidado no álbum Enki. Eu cantei com ele Territory no Festival Brutal Assault e ele sempre me fala que precisamos tocar no Brasil. Eu sempre confirmei e eu estou totalmente de acordo. Eu já fui pro Brasil e eu amei. Temos muito apoio dos fãs, recebemos mensagens e espero estar aí logo mais. O mais próximo que cheguei do Brasil foi quando tocamos na Colômbia, no Rock al Park – foi uma loucura. Eu estou ansioso demais para tocar para nossas irmãs e irmãos no todo poderoso Brasil.

Vocês estão ensaiando um setlist específico para este show?

Nós tentamos diversas faixas retiradas de todos os álbuns, mas é difícil encaixar todas. Mas tenho certeza que será um setlist matador com dinâmicas e climas que certamente resultarão em uma performance energética nossa que deixará a galera sedenta para mais.

Como o COVID-19 está impactando seu dia-a-dia? Eu ouvi falar que Israel já foi todo vacinado!
Bem, Melechesh é meu trabalho principal, então eu basicamente parei. Eu decidi ser positivo e fazer o melhor possível para tornar isto o maior descanso que já tive. Olhei para dentro de mim, li muito e pratiquei para me apaixonar ainda mais pela música já que a quantidade de turnês que fizemos era cansativa demais. No começo, rock n roll era sempre beber e na real, eu deixei de beber por seis meses. Agora, parece que as coisas com o COVID estão acabando, mas pelo jeito isto deu mais tempo para que existam mais lutas (risos). Trágico.

Nós do Headbangers News agradecemos a sua disponibilidade para fazer esta entrevista. Deixe sua mensagem aos fãs e leitores do site.

Bom, muito obrigado, meus amigos. Espero estar em seu país o mais cedo possível. Não se preocupem que eu certamente aproveitarei as caipirinhas com cachaça com todos vocês! Muita sorte com a atual situação, meus amigos. – Ashmedi