Entrevistas

Luciano Garcia (Porto Laguna): “A gente tem que abrir a cabeça”

Luciano Garcia, guitarrista e compositor do CPM 22, concedeu entrevista ao site Headbangers News para falar de seu projeto solo Porto Laguna.
Ele também falou sobre do EP deste projeto, intitulado Olympéa, que foi gravado no Estúdio Wah Wah, em São Paulo, com produção dele próprio e de Michel Kuaker. Para os vocais de todas as faixas do EP, Luciano escalou a cantora Kamille Huebner.

Kamille Huebner e Luciano Garcia, do Porto Laguna.

Divulgação

Kamille Huebner e Luciano Garcia, do Porto Laguna.

Como você apresenta este projeto “Porto Laguna”? De onde surgiu o nome?

O projeto surgiu em 2014, a princípio comigo cantando e tocando violão, e o meu amigo Thiago Brizola na guitarra. Aí fomos desenvolvendo, chamamos alguém pra tocar baixo, tocar bateria, mas a minha ideia era não ter banda fixa. Era eu e ele, e chamar umas pessoas pra tocar, só que ao mesmo tempo eu queria uma mulher cantando as minhas músicas. E eu tinha uma voz na minha mente de um estilo que eu queria. Então eu fui compondo as músicas, fazendo tudo e em 2015 eu cheguei a gravar doze músicas tocando violão e cantando. Bateria, baixo e guitarra. Mas não adianta, convenci todo mundo, menos a mim. Todo mundo ouvia “pô meu, você canta legal, que voz legal” e tal, mas é diferente você cantar bem, cantar afinado e ser vocalista e cantor. Exige um “plus” a mais, né? Então foi aí que surgiu a ideia em 2014, porque eu gosto de folk, blues e country. E eu sempre quis fazer esse tipo de som, gravar e mostrar para as pessoas esse outro lado também que está no espectro do rock!

Sobre a vocalista Kamille Huebner, pode contar um pouco como se conheceram, da trajetória dela e influências na música?

Então. A Kamille eu conheci virtualmente! Ela foi no show do CPM 22 e foi um show que acabou e eu sai meio “batido” do palco aqui em São Paulo. Fui direto pra casa e não passei nem no camarim. E aí, eu cheguei em casa e vi que uma pessoa tinha me marcado numa foto, fui ver e era a Kamille. Ela entrou no camarim, tirou uma foto com a banda e me marcou também, mesmo eu não estando. Aí eu fui ver, né? Quem que é ela? Vi que não a conhecia, mas vi que ela cantava. Aí abri uns dois, três vídeos dela cantando. Quando eu ouvi a voz dela, pensei “nossa, é a voz que eu ouvia dentro da minha cabeça!”, era a voz que eu queria, o estilo para o Porto Laguna. Um estilo mais delicado, uma voz bem tranquila, né? Foi assim que a gente se conheceu, aí chamei ela no direct, fiz a proposta, perguntei se interessava. Ela disse que sim! Inclusive, mandei a música “Grandes Mares” pra ela. E ela me devolveu trinta segundos com ela cantando e tocando violão. E aí, muito melhor que eu, né? Muito mais legal o clima que eu queria pra música. E a partir daí a gente foi trabalhando. Sobre a trajetória dela, eu sei que ela trabalha com design e esporadicamente cantava aqui e ali. Acho que ela não tinha nada gravado. Tem agora comigo no Porto Laguna. E ela também pinta, é artista plástica, inclusive, a capa do EP e a capa do single foi em cima de uma pintura dela, um quadro que ela fez muito bonito. Eu sei que as influências dela vem muito mais da MPB e isso foi muito bom para o Porto Laguna. Juntou com o blues, o folk, o country que eu trouxe e essa coisa MPB mais delicada. Então foi uma junção perfeita!

Este projeto é uma ideia antiga que conseguiram tirar do papel devido à quarentena ou a própria quarentena foi o ponto inicial?

Como eu disse, comecei a compor em 2014, gravei em 2015 comigo cantando, mas não me convenci e ficou no gelo. Quando eu achei a Kamille em 2018 a gente fez os ensaios, colocamos as músicas no tom dela e aí começamos os trabalhos no final de 2018. No estúdio, violão e voz, pré-produção, fizemos uma demo. Depois começamos a colocar os elementos: aqui nessa música vai gaita, aqui vai teclado, aqui vai rabecão e tal… Em 2019, lá em abril e maio, o disco já estava pronto, mas eu senti que não era hora de lançar ainda. Eu estava fazendo bastante coisa com o CPM também, então meio que ficou no gelo. Foi passando o tempo, e quando chegou a pandemia que eu pensei “Putz, a hora é essa! Tô sem show, tá tudo parado em relação ao CPM 22, eu estou com tempo pra cuidar da mixagem”. Mas na verdade já estava pronta. Aí fomos atrás de cuidar da masterização, cuidar da arte da capa. Assinamos contrato para distribuição digital. Então a quarentena foi a brecha, tanto na minha agenda, quanto com as pessoas que eu trabalho. Todo mundo dizendo “pô, vamos fazer alguma coisa”. Foi a hora certa de lançar esse trabalho!

Por ser uma vibe completamente diferente do CPM, a inspiração deve ser outra. De onde tiram inspirações para o Porto Laguna?

Basicamente as influências do Porto Laguna são folk, blues e country. Começa lá atrás com Robert Johnson, Muddy Waters, Johnny Cash, Elvis Presley. Passa por Eric Clapton, o QueenKy é uma influência muito forte, Loretta Lynn, Johnny Carter, Reprise, Eddy Arnold, coisas que eu ouvi muito! O próprio Bob Dylan, as coisas mais antigas dele. Coisas contemporâneas também como Nick 13. Basicamente foram eles que formaram as influências e referências para o Porto Laguna. E com aquela parte da Kamille, da MPB, que é uma que eu não tenho muito e que casou bem com o estilo.

O mais recente trabalho que teve seu reconhecimento por conta de uma volta aos palcos, foi a do “Ira! Folk”, em 2017/2018 com Nasi e Edgard Scandurra. Vocês pensam em shows dentro dos teatros também?

Sobre shows, a gente ainda não pensou em fazer não. O formato, a gente pode ter vários diferentes. Pode ser só eu e a Kamille. Pode ser eu, a Kamille e o Thiago Brizola tocando guitarra, bandolim, lap steel. Pode ser somente eu, ela e o Pelotas no teclado. Pode ser de vários jeitos. Vários formatos, mas não pensamos ainda nisso não. A gente lançou as músicas. Show de final de semana para mim é complicado, porque o CPM pega praticamente todos os finais de semana do ano. Exceto quando a gente tira folga ou férias. A princípio a gente vai manter as coisas nas plataformas e videoclipes. Gerar algum conteúdo pro no YouTube também. A gente tocando em estúdio não pensamos ainda. Essa coisa da pandemia tá amarrando um pouco. Os planos de juntarmos para fazermos as coisas. Mas os shows ainda estão todos em stand by.

Vocês estão aderindo ao formato de singles ao invés de lançar um EP ou CD de uma vez. Acreditam ser a melhor opção nesse momento?

É, lançar singles é um formato atual. Eu conversei muito com o pessoal da Ditto e eles disseram que seria a melhor forma para o Porto Laguna. Eu também não me opus, achei legal. É meio estranho na verdade, mas a gente vem de um outro tempo, né? A gente lançava um disco inteiro ou lançava um single antes na rádio. Fazia um clipe e depois saía o disco completo. Mas eu achei legal esse esquema também para o momento. Não sei se no próximo EP ou no próximo disco do Porto Laguna façamos de um jeito diferente, mas achei que funcionou bem.

E este nome diferente “Olympéa”, de onde surgiu?

O nome “Olympéa” na verdade eu pensei em colocar como o nome da banda/projeto. Porque me remete ao “Olympia”, a casa de shows de São Paulo onde eu vi os melhores shows da minha vida. Foram lá! E também tem uma música do Rancid, a “Olympia Wa” que eu gosto muito. Eu gosto da palavra também, só que já havia o nome registrado, a casa de shows e também remetia a outras coisas. Então eu deixei ele meio de lado. Quando eu pedi para a Kamille fazer um quadro para a capa do disco, ela me disse que já tinha algumas coisas prontas e me mostrou essa capa que vocês conhecem, que é uma floresta de olho grego! Então eu pensei “pô, que legal, uma floresta de olho grego, uma coisa que afasta mal olhado, pessoas invejosas e tudo mais!” Olympéa, uma palavra grega, combina, os deuses do Olimpo e toda aquela coisa. E também tem uma outra coincidência. O perfume que a minha namorada usa, que eu adoro, se chama “Olympéa” com essa grafia em francês. E aí juntou a fome com a vontade de comer! Falei “pô, vai ficar Olympéa”, e aí ficou! E acho que tem tudo a ver com o trabalho e  com as questões pessoais.

Deixe uma mensagem para os seus fãs, com certeza aqueles que amam HC estão curiosos desse novo projeto.

A mensagem que eu deixo para o pessoal que curte CPM 22 e hardcore é o seguinte: a gente tem que abrir a cabeça, o HC tem as suas raízes que vem muito do country, muito do blues, do folk. Se você pega Bad Religion, Misfits, Ramones, tem muito disso, né? Tá no nosso universo! E eu acho legal também poder surpreender. As pessoas ouvem e falam “Nossa, que diferente! Estava imaginando uma coisa mais na linha do CPM”. Mas se fosse pra fazer uma coisa na linha do CPM, eu já tenho o CPM! Então é isso pessoal, vamos abrir a cabeça. Vamos curtir rock. Vamos curtir outros estilos de músicas que vocês gostem e que vocês se identifiquem. E vamos pra cima! Sem música, a vida seria um erro.