Das raízes do heavy metal às suas ramificações mais ousadas — é impossível ignorar quando uma banda brasileira surge com identidade forte, discurso afiado e a rara capacidade de inovar sem perder o peso. É exatamente esse o caso da paulistana InRaza, que desde sua formação em 2017 vem consolidando terreno tanto no Brasil quanto no exterior, levando consigo uma mensagem clara: a luta pela igualdade social é tão urgente quanto o impacto de um bom riff.
O nome InRaza nasce da ideia de “enraizar” o senso de coletividade, e isso se traduz na postura do grupo dentro e fora do palco. Musicalmente, a banda combina a agressividade típica do metal moderno com melodias bem construídas e passagens sofisticadas — uma assinatura que traz fôlego novo à cena nacional. A formação atual conta com Robin Gaia (baixo), Fernanda Souza (vocal), Bruno Ascêncio (guitarra) e Davi Oliveira (bateria).
Entre eles, Robin merece destaque especial. Baixista de presença marcante e linhas vigorosas, ele é um dos pilares da sonoridade do InRaza. Sua forma de tocar — que alterna peso denso, fluidez e precisão — não apenas sustenta as composições como reforça a identidade moderna que o grupo vem consolidando.
Nos últimos anos, o InRaza percorreu o diversas partes do país, conquistando público fiel por onde passou. E agora se prepara para um dos momentos mais importantes de sua trajetória: o lançamento de seu primeiro full-length. O trabalho será impulsionado por uma campanha intensa de divulgação, incluindo shows e presença reforçada na mídia especializada.
Recentemente publiquei por aqui um artigo sobre neurodiversidade e música, e a repercussão me mostrou o quanto esse debate é urgente dentro da cena pesada. Por isso, decidi ampliar a conversa ouvindo quem vive essa realidade de dentro do palco: bati um papo com Robin Gaia, baixista do InRaza, músico autista e voz fundamental para entendermos como a neurodivergência atravessa a experiência artística e profissional no metal.

Crédito: @mazzei.br
HBN: Se possível, conte um pouco sobre como você começou a tocar: quando percebeu que a música era um espaço natural para você e como descobriu sua aptidão?
Eu comecei a tocar quando tinha entre 12 e 13 anos. Era o auge do grunge na metade dos anos 90. Na época, meu pai tinha falecido há pouco tempo, eu estava entrando na adolescência e começando em uma escola nova. A música acabou sendo uma ferramenta de socialização, e foi nesse período que fiz amigos que tenho até hoje.
HBN: Você lembra do momento ou da fase em que a música deixou de ser só um interesse e se tornou uma paixão profunda?
Acho que foi quando eu me descobri “roqueiro”. Na periferia, o rap e o pagode eram o que estava em alta entre os adolescentes, e eu acabei descobrindo as bandas de Seattle e o Black Sabbath (por um vinil que era do meu pai), além de muitas influências de programas como o Clip Trip da TV Gazeta e a MTV.
Tudo isso fez com que eu quisesse aprender mais coisas. Eu comecei a tentar entender as letras e a ler as obras em que elas eram baseadas. Isso me atraiu muito na época — virou um estilo de vida.
HBN: A música apareceu para você como uma forma de expressão, de organização sensorial ou simplesmente como algo divertido?
Acho que a música foi um instrumento de socialização, porque eu tinha dificuldade de fazer amizades. Por consequência disso, passei a querer fazer música. Foi algo muito bom, pois fiz amizades incríveis nessa época.
HBN: Como foi o processo do seu diagnóstico? Você o recebeu na infância, adolescência ou vida adulta?
Recebi meu diagnóstico na fase adulta, já com 30 anos. Eu fui diagnosticado meio que “por acaso”, porque estava buscando terapia por estar passando por momentos difíceis no trabalho. A psicóloga que me atendeu era especialista em autismo e fez o que seria a primeira triagem. Depois disso, segui todos os passos até fechar o diagnóstico.

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HBN: Depois do diagnóstico, mudou algo na sua forma de entender sua relação com a música ou com você mesmo?
HBN: Sim, e muito! O diagnóstico me fez entender vários pontos que eu achava que eram negativos. A partir disso, começou uma jornada de readaptação em vários sentidos — desde entender coisas pelas quais eu me culpava por não compreender, até reconhecer pontos em que eu tinha vantagem.
HBN: O diagnóstico trouxe alívio, explicações ou novas maneiras de olhar para sua trajetória artística?
Sim. Eu mudei muito desde o diagnóstico. Foi o ponto de partida para uma nova vida. Passei a entender e colocar limites em muitas coisas, e isso me fez crescer muito individualmente.
Antes, eu achava que não entendia ou aprendia as coisas da forma convencional por ser “burro”. Quando entendi onde estava o problema, evoluí muito em pouco tempo.
HBN: Sua sensibilidade sensorial influencia seu estilo musical ou suas escolhas de instrumentos? Se sim, amplie.
Sim, influencia bastante. Por ter muita sensibilidade sensorial e também crises sensoriais, passei a ser muito apegado a detalhes, principalmente com frequências mais agudas e sons cacofônicos, pois geralmente são eles que mais me desregulam sensorialmente.
HBN: Você já se autopercebeu usando a música para regular estímulos sensoriais ou algum outro aspecto que tenha impacto direto no seu comportamento? Como isso aparece no seu dia a dia?
Tem uma música em particular que, há alguns anos, eu deixo estrategicamente nas minhas playlists: Spirits Will Collide, do Devin Townsend. Ela me acalma muito em momentos de crise. Claro que isso varia para cada pessoa, mas para mim músicas assim acalmam e ajudam a focar, porque têm muitas camadas e são fáceis de assimilar.
Uma curiosidade é que, uma vez, tive a oportunidade de falar sobre isso com o Devin, e ele disse que um de seus filhos é autista. Ele ficou muito feliz em saber que essa música me ajudava nas crises.
HBN: Como funciona o seu processo criativo?
Para mim funciona de forma muito orgânica. Muitas vezes, quando tenho alguma ideia, fico cantarolando mentalmente o riff que quero executar e fico em um looping mental até conseguir reproduzi-lo. Geralmente funciona assim.
HBN: Como você vivencia shows, ensaios e ambientes cheios de estímulos? Existe alguma preparação específica que te ajuda?
Ótima pergunta!
Eu já fui muito questionado sobre isso, e, se repararem, há muito tempo eu toco monitorado (com fones de ouvido). Ou seja, no palco eu ouço apenas o que vem mixado e em um volume bem controlado nos fones — e isso ajuda muito.
Eu fiquei 12 anos sem ir a shows porque era uma época em que eu tinha muita dificuldade de me manter bem em ambientes assim. Voltei a ir em 2022.
Hoje tomo várias precauções: vou com abafadores auriculares, sempre deixo alguém avisado que estarei em um show e, na maioria das vezes, estou acompanhado de algum amigo que pode me ajudar se houver algum problema.
HBN: A comunicação com outros músicos acontece de forma fluida para você? Há algo que as pessoas deveriam compreender melhor sobre seu jeito de trabalhar?
Eu tento ser o mais claro possível em tudo e, sinceramente, muitas vezes sinto dificuldades — mas sempre busco manter uma boa comunicação e ser bem objetivo.
Acabo sendo muito detalhista, e isso às vezes ajuda, mas também atrapalha. É algo que tenho trabalhado para melhorar.
HBN: Palcos e público te energizam ou te sobrecarregam?
Geralmente eu consigo lidar bem com tudo. Claro, existem casos e casos. Eu gosto da energia do palco. Talvez o que mais me sobrecarregue seja a quantidade de funções que exerço no contexto da banda, porque acabo ficando com a parte técnica e burocrática. Isso é bem desgastante.
HBN: Em que aspectos você sente que seu autismo potencializa sua criatividade ou sua visão artística?
Acho que potencializa principalmente o foco. Além disso, sinto que consigo ver a música por uma perspectiva diferente — não melhor, apenas distinta.
Várias músicas que compus nasceram de formas bem diferentes. Por exemplo, temos uma música em que trouxe elementos totalmente fora do metal: coisas que vão desde ópera até elementos de reggae e rap.