Entrevistas

The Mullet Monster Mafia: “A Surf Music sempre esteve direta ou indiretamente presente em nossas vidas”

Neri Emiliano Ramirez, fundador e baterista do TMMMafia

JNSN

Neri Emiliano Ramirez, fundador e baterista do TMMMafia

A música instrumental produzida no Brasil, de tempos modernos, passa necessariamente pelo The Mullet Monster Mafia, power-trio do interior de São Paulo que chega aos 12 anos com uma respeitosa coleção de histórias e vitórias, entre cinco turnês na Europa, prêmios e cinco álbuns e outros EPs. Parte desta celebração, que também funcionará com um ode à música instrumental é o projeto Música Afônica, uma série de seis shows online, com convidados especiais, via Secretaria de Cultura do governo do Estado de São Paulo, por meio da Lei Aldir Blanc.

O baterista Neri Emiliano Ramirez, fundador do TMMMafia, concedeu uma entrevista ao site Headbangers News para falar sobre os 12 anos de carreira da The Mullet Monster Mafia e sobre o  projeto Música Afônica, no qual a banda realizá as duas penúltimas lives neste final de semana, 13 e 14 e na próxima semana, nos dias  20 e 21 de março, com transmissão gratuita no canal de Youtube da VNN Studios. 

Em parceria com o site Headbangers News, a banda irá realizar um sorteio com alguns discos importados, nas redes sociais do site.

A banda foi formada em 2009 na cidade de Piracicaba (SP). Como tudo começou?
Sim, a banda iniciou suas atividades no início de 2009 após muita insistência do JC, que tocou trompete na banda nos primeiros 4 anos. Eu tinha parado de tocar após integrar bandas de metal e hardcore e não estava muito nesse empenho, mas a persistência do JC fez com que tudo acontecesse. A princípio parecia pouco provável que pudéssemos ir tão longe com uma banda instrumental de nome complicado que ainda por cima insiste em romper barreiras sonoras, mas desde o início conseguimos estipular algumas metas e principalmente encontrar nossa identidade musical, o que ajudou em muito a inserir o nosso nome no cenário
The Mullet Monster Mafia inovou e criou um estilo Surf Music mais agressiva e intensa, com influências de punk, metal e bandas radicais de surf. Quais as principais influências da banda na hora de compor?
A Surf Music sempre esteve direta ou indiretamente presente em nossas vidas, seja através de trilhas sonoras de filmes/seriados ou ouvindo músicas clássicas que sempre tem um lugar garantido na nossa memória, então conhecíamos um pouco do estilo e mais do que saber o que queríamos tocar, tínhamos certeza absoluta do que não queríamos fazer. Nunca foi nossa intenção tocar o Surf clássico, nosso objetivo desde o ínício foi buscar uma alternativa para um segmento onde uma grande quantidade de bandas soavam de forma muito semelhante; sendo assim, optamos por buscar nossas referências no metal, no punk e no hardcore e inserir isso se utilizando de um artifício que foi criado pelo rei do estilo, o pai de todo DICK DALE. Ele tocava com uma intensidade assustadora mesmo estando no início dos anos ’60, imagino que ouvir DICK DALE naquelas dias podia ser algo semelhante a ouvir bandas de death metal atualmente, tamanha a velocidade e intensidade de sua música. Nosso objetivo foi o de tentar trazer este sentimento para o momento atual, criando uma sonoridade no limiar do extremismo para o estilo, o que nos proporcionou circular em diferentes cenas. Nós somos diretamente influenciados por bandas como Exodus, Venom, Slayer, Dick Dale, Dead Kennedys, tudo que crescemos integra nossa música de certa forma.
 
Surf Music não é um estilo tão popular no Brasil. Como foi a aceitação do público na época e como está atualmente? E fora do Brasil?
O início foi surpreendente pra gente, porque de cara lançamos nosso primeiro EP no maior festival de Psychobilly da América Latina, o Psycho Carnival, que é uma cena que de certa forma por vezes “esbarra” no estilo, e como a Surf music não tinha uma cena sólida na época (apesar de já contar com bandas incríveis como Dead Rocks, Bufalos D’Água, Almighty Devildogs, dentre outras), achamos que ali seria uma boa opção. No início houve uma certa “marra” relativa a aceitação, mas rapidamente nosso nome começou a circular e começamos a participar de festivais e tocar em vários locais do estado do Brasil. Com o passar do tempo e acredito eu, pela insitência em normalmente dividir o palco com bandas de outros estilos, pudemos observar o crescimento da música instrumental no Brasil como um todo, vendo cada vez o surgimento de bandas que inserem sua própria personalidade no estilo, o que agrega valor e garante a sobrevida de algo que existe desde o final da década de ’50. Chegamos ao ponto de ter mais de 70 bandas do estilo no Brasil espalhadas por todas as regiões, integrando diversos festivais e sendo reconhecidas por público e crítica especializadas com louvor. Pra quem quiser conhecer um pouco, lançamos uma coletânea chamada Brazilian Tsunami, um box com cd triplo com a presença de 63 bandas de surf music do Brasil. é um marco histórico!!!

The Mullet Monster Mafia chega aos 12 anos com uma respeitosa coleção de histórias e vitórias, entre cinco turnês na Europa, prêmios e cinco álbuns e outros EPs. Conte uma das histórias mais marcantes nesses anos de carreira. 
É verdade, conseguimos chegar a lugares inimagináveis para uma banda instrumental de nome complicado vinda da roça no interior de São Paulo. Muitas coisas aconteceram nestes 12 anos, tivemos a oportunidade de tocar em mais de 20 países, de tocar em grandes festivais, em casas de shows históricas, de dividir o palco com nomes como Extreme Noise Terror, Bad Religion, Zeke, The Animals, Guanabatz, Agent Orange, Man or Astroman, etc… Tivemos a oportunidade de conversas, tomar uma cerveja, ouvir histórias e trocar experiências com pessoas que fizeram parte da nossa história e tudo isso não tem preço, é impossível de descrever em palavras… Por outro lado a melhores histórias, os melhores momentos e os momento inesquecíveis sempre estão ligados às pessoas que esta jornada nos deu a oportunidade de conhecer e conviver. Estar na pista tocando, tendo a oportunidade de viver seu sonho é o melhor  de todos os mundos.
Refletindo sobre esses 12 anos de estrada, suponho que lá no começo suas ideias e pensamentos sobre a música eram diferentes. Faça uma breve análise sobre esses pensamentos. Você mudaria algo?
Rapái… Pode parecer meio doido, mas numa cho que mudaríamos muita cisa da nossa caminhada não… Certamente a cabeça era outra, os sonhos e os planos para atingir nossos objetivos circulavam por ideias que apenas imaginávamos, o Mulletão foi uma grande escola para nós como banda, como tocadores de rock danado e como pessoas. Ter a oportunidade de viajar, estar presente dentro do circuito real, estar inserido em um cenário que você via apenas por revistas e/ou fotos te ensina demais… Mudamos nossos conceitos após ter a oportunidade de vivenciar a estrada. Muitas vezes isto é algo que mina grandes bandas da América do Sul, em razão da distância geográfica, mesmo com o advento da internet, fica difícil de compreender como as coisas realmente funcionam. Depois de cair na pista tudo muda, você descobre os atalhos, compreende melhor como as coisas funcionam e especialmente porque as bandas de fora soam de maneira diferente, tudo isso te transforma. Se pudesse mudar algo talvez optasse por ter a oportunidade de vivenciar isso um pouco antes.
Para celebrar esse aniversário, a banda está realizando uma série de shows online. Conte um pouco sobre o projeto. Como está a aceitação dos fãs?
Sim, em meio a pandemia completamos 12 anos de janela e como conseguimos aprovar um edital do ProAC de apresentações online, resolvemos juntar tudo e transformar esta proposta em uma grande celebração que batizamos de “Projeto Música Afônica”, uma clara referência a nossa sonoridade instrumental. De quebra convidamos alguns amigos para tocar conosco, inserindo percussão, o contra baixo acústico e violão na nossa sonoridade buscando criar um “produto” diferente do usual para quem nos conhece e acompanha a banda. Junto as apresentações também estamos gravando algumas entrevistas falando um pouco sobre nossa história, nosso envolvimento com a música instrumental e também sobre este formato doido que inventamos pra levar este projeto adiante. No total serão 06 episódios que funcionarão como um mini-documentário de certa forma, ficando online para que qualquer pessoa possa acessar e entender um pouco melhor este universo sem voz. No momento já foram transmitidos 02 episódios, e no proximo final de semana serão mais 02, sábado 13 e domingo 14 e os últimos irão ao ar dias 20 e 21 deste mês de março. A aceitação de nossos amigos vem sendo acima das expectativas e existe uma grande possibilidade desta loucura virar um disco.
Em parceria com o site Headbangers News, a banda irá realizar um sorteio com alguns discos importados. Como surgiu essa ideia e qual a expectativa?
Sim, vamos sortear alguns cd´s pra turma ai que animar de ouvir algo mái pro doido, os discos são o TO MEGA SURF, que tem nossos 2 primeiros registros Power Surf Orchestra (2009) e Dogs of the Seas (2011) + 02 bonus, outro é o Clash of the Irresistible (2013) nosso primeiro disco lançado pela Drunkabilly Records da Bélgica, que é um split com nossos amigos irlandeses do Spellbound, uma das mais respeitadas badnas de Psychobilly do Mundo, a coletânea Brazilian Tsunami que é um cd triplo com as 63 bandas de surf do brasa (que mencionei acima) e finalmente o I.N.F.E.R.N.O. que é nosso último registro, lançado em 2019 na Europa em cd e vinil. A idéia é divulgar o maximo possível a banda e a sonoridade e a expectativa é poder atingir pessoas que de certa forma não convivem ou não tem proximidade com os estilo, 
Quais os planos para o futuro?
No momento estamos completamente centrados em finalizar o Projeto Música Afônica, deixando uma proposta online que possa ser acessada e descoberta por pessoas de qualquer parte do mundo. Também estamos no processo final da edição de nosso último disco nos Estados Unidos, onde a Otitis Media Records vai disponibilizar uma edição especialíssima que virá com adesivo, camiseta e detalhes diferentes da versão do vinil lançado na Europa ano passado. No mais é continuar trabalhando online e esperar que todo este cenário bizarro que estamos vivendo possa chegar ao final o quanto antes para que possamos voltar a pegar a pista, fazer tournês e beber com nossos amigos ao redor do mundo.
Podem deixar uma mensagens para nossos leitores?

Muito obrigado pelo espaço cedido, pela oportunidade de falar um pouco sobre nossa música e nossa história. Espero que possamos continuar com nossa sina de levar este tipo de sonoridade o mais longe possível, quebrando barreiras e abrindo um leque de possibilidades além do usual. Que todos continuem se cuidando, mantendo distanciamento social neste momento difícil que estamos vivendo, sendo governados por hienas acéfalas. Agora é momento de nos unirmos e fazermos a nossa parte para que em breve possamos estar juntos novamente, saudáveis e com energia suficiente para lutar por um país melhor com igualdade para TODOS.

Grande abraço e esperamos nos ver na pista em breve!!! É nói que txá!!! Mulletão x SURFTHRASHLENHA!!!

Thiago Altafini/Urgência Filmes