Notícias

Memory Remains: Angra – 26 anos de “Holy Land” e a história do Brasil cantada em ritmo de Heavy Metal

Em 23 de março de 1996, o Angra lançava o seu segundo álbum. Os caras fizeram uma aposta de risco: se no aclamado “Angels Cry” já haviam breves flertes com a música brasileira, em “Holy Land“, eles fizeram a musicalidade nacional predominar em meio ao Heavy Metal praticado pela banda. O resultado não poderia ser um disco fantástico, épico e obrigatório na discografia de qualquer pessoa que goste de música. É sobre essa obra magistral que o Memory Remains desta quarta-feira vai tratar.

Lançado um mês depois de “Roots“, do Sepultura, o disco causou polêmica na imprensa especializada na ocasião, tudo pelo fato de ambas as bandas terem incluído ritmos brasileiros. A treta foi mais alimentada pelos fãs do que pelas bandas, já que ambos os trabalhos tinham suas peculiaridades. Enquanto a banda dos irmãos Cavalera enveredou pela cultura indígena, coisa que eles já haviam feito em “Chaos A.D.” na instrumental “Kaiowas“, o Angra deu uma abrangência maior a outras vertentes da  música brasileira, como o baião, que já era possível de se perceber em “Never Understand“, do álbum de estréia, até mesmo para músicas de origem africanas. Então, não haviam razões para rivalidades e cada banda seguia fazendo o seu melhor e agradando ao seu público, o que não impediria alguém gostar de ambas as bandas.

Após a turnê de divulgação do disco de estreia, em que colocou a banda dividindo palco com gente como o Black Sabbath, na versão Brasileira do festival “Monsters of Rock“, 1994 e mostrou ao mundo que muito mais do que o país do samba e do futebol, o Brasil era celeiro de excelentes bandas de Heavy Metal. Então os caras se reuniram para este projeto ambicioso que deu muito certo. Certamente, a formação erudita de Andre Matos, que era maestro, foi fundamental no sucesso da empreitada.

Holy Land” é um disco conceitual, trata do Brasil em 1500, quando do início da exploração portuguesa (N. do R: nós vamos aqui evitar falar em “descobrimento”, pois na historiografia este termo encontra-se em desuso, uma vez que há registros de presença do homem por estas bandas há pelo menos 15 mil anos, logo, o “descobrimento” nada mais é do que um termo eurocêntrico). Há muita influência da música brasileira e também da música clássica, o que simbolizava a Europa no século XVI. O folclore nacional e os indígenas, tão massacrados por este governo atual, são valorizados por aqui.

O aniversariante de hoje é uma super produção e como tal, reuniu muita gente por trás: a começar na produção, que ficou a cargo de Sascha Paeth e Charlie Bauerfeind; Tuto Ferraz ficou com a produção na parte das percussões. Como uma super produção, foram utilizados nada menos do que cinco estúdios para gravar o play: os vocais, piano e órgão foram gravados no “Vox Klang Studio“, em Bendestorf, Alemanha; os convidados especiais gravaram tudo do Brasil, no “Djembe Studio“, São Paulo; os demais instrumentos foram gravados no “Hansen Studio“, Hamburgo, “Big House Studios“, Hannover e no “HG Studio“, Wolfsburg, Alemanha. Tudo isso entre os anos de 1995 e 1996. Deu trabalho, mas valeu e muito a pena.

O disco teve seu processo de gravação atrasado, pois Andre Matos sofreu um sério problema em suas cordas vocais, logo depois que a banda retornou da turnê pela Europa. E ouvindo o disco, nem parece que a lenda havia tido qualquer problema. Bem, vamos lá destrinchar faixa por faixa dessa lindeza musical, que sempre é um prazer de se escutar.

A faixa de abertura chama-se “Crossing“, uma composição de Giovanni Pierluigi da Palestina, um compositor renascentista. Trata-se de uma intro com menos de dois minutos pra logo entra o peso de “Nothing to Say“, a música mais pesada da carreira do Angra até então. E do alto se seus seis minutos ela reúne riffs pesados, batidas brasileiras e um clima primitivo, aliado ao Heavy Metal bem praticado pelos caras. Excelente abertura. Anos mais tarde, os riffs da introdução foram utilizados pela Rede Bandeirantes, no programa Esporte Total.

Silence and Distance” é a faixa que sucede e traz belas harmonias e climas Progressivos em uma música maravilhosa, com um lindo solo, mostrando que Kiko Loureiro se consagraria como um dos expoentes das seis cordas, enquanto que “Carolina IV” é a faixa mais extensa da carreira da banda, com seus mais de dez minutos e inclusão de trecho da música “Bebê“, de Hermeto Pascoal. E a música se desenvolve com inclusão de mais temas brasileiros, sobretudo a música baiana, e ganha uma pegada mais Power Metal em seu refrão. Muito boa.

A faixa título traz baião misturada ao Prog Metal, com destaque para a performance vocal de Andre Matos, que ficou estupenda. A música é uma das minhas favoritas deste play e mostra toda a versalidade do Angra, sobretudo do seu frontman, tocando um baião no teclado. “The Shaman” é a única que não me agrada, mas isso é só questão de preferência mesmo, pois ela é bem tocada. A música se tornaria o nome da banda que Andre Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori formariam após saírem do Angra. “Make Believe” é a faixa que ficou mais conhecida neste play e teve seu videoclipe exibido à exaustão pela MTV. É uma balada com toques de música clássica. Linda.

O Heavy Metal volta com “Z.I.T.O“., que ninguém até hoje sabe o que o título significa. Já neste século, Rafael Bittencourt contou que a música nasceu de um sonho que ele teve com extraterrestres, enquanto o disco era gravado e que tal sonho parecia real. É um Powerzão com mais toques de músicas brasileiras, onde o Metal predomina. O nível do disco está mantido nas nuvens.

Deep Blue” é outra das minhas favoritas deste play. Uma música densa, com tons dramáticos, fortes influências de música clássica e outra performance histórica de Andre Matos. “Lullaby for Lucifer” encerra o play em uma música bem calma, apenas com o violão acompanhando a voz de Andre Matos. Belo final, belo álbum. A edição japonesa ainda contém uma faixa bônus, “Queen of the Night”, que entraria logo depois no EP “Freedom Call“.

Sâo 56 minutos de audição onde temos tudo de melhor que o Heavy Metal pode nos proporcionar em termos de técnica e feeling, aliados à musicalidade única brasileira. E quando nos referimos a esse termo, não estamos falando desses lixos musicais que infestam as rádios, programas de TV e as festas em geral, até porque tais estilos não existiam. A ruindade musical da época era outra e eles sabiam que não era o melhor caminho se juntar  ao que seria facilmente esquecido. Eles optaram pelo lado erudita da música brasileira e isso é digno de muitos aplausos.

A minha relação com este disco é muito curiosa. Na época, eu estava ainda me familiarizando com o Heavy Metal, e embora eu já curtisse o Sepultura, por exemplo, ainda tinha uma certa resistência com o Angra. Mas meus amigos escutavam muito a banda, então mais dia, menos dia, eu iria me render a excelência dos caras. E isso se deu um pouco mais adiante, mais precisamente no já citado EP “Freedom Call“, que me fez olhar com mais carinho para o trabalho dos caras e o quinteto ganhou um fã a partir daí.

Tive a honra de assistir a uma apresentação da banda em 2016, na cidade do Rio de Janeiro, em um show dos 20 anos deste “Holy Land”. Embora a vibe na ocasião tenha sido completamente diferente da época, apesar da ausência de Kiko Loureiro, à época em turnê com o Megadeth e da ausência de Andre Matos, que tinha ainda rusgas a resolver com os ex-companheiros, foi uma apresentação espetacular. E sentimentos como choro e arrepios não foram raros durante a execução do disco. Um filme de quase uma hora me passou pela cabeça, e como um sujeito saudosista que sou, foi impossível não lembrar de coisas como a primeira namorada, a sétima série do ensino fundamental, o primeiro porre, enfim, coisas da adolescência, em que não temos as preocupações que hoje temos enquanto adultos e chefes de família. São esses os sentimentos que “Holy Land” provoca no redator que vos escreve e eu tenho certeza de que o leitor que viveu essa época há de se identificar.

Infelizmente após o lançamento de “Holy Land“, os problemas entre os músicos começaram a virem a tona. Andre Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori ainda gravariam “Fireworks“, o álbum posterior, mas depois debandariam para formar o Shaman. Mas o que fizeram com o aniversariante de hoje está eternizado na história da música pesada. Era o Brasil colocando definitivamente, os dois pés no mundo do Metal.

Hoje o Angra está com uma formação completamente diferente de 26 anos atrás, restando apenas Rafael Bittencourt. E embora os músicos atuais sejam excelentes, nada é comparado ao que fizeram neste play. Um disco perfeito, merecedor de todos os confetes. E se a NASA resolver enviar uma nova sonda Voyager, eu sugiro que “Holy Land” embarque, pois se há vida em outras galáxias, estas vidas precisam conhecer o que estes terráqueos, embora estúpidos em maior parte do tempo, são capazes de produzir coisas absurdamente lindas como o aniversariante de hoje.

Vamos então celebrar mais um ano de lançamento dessa pérola do Heavy Metal brasileiro. Desejando que esse Angra com formação atualmente tão talentosa quanto ao de 1996 possa voltar a fazer discos à altura deste “Holy Land“, que merece ser cultuado por todos os dias e que hoje será escutado no volume máximo. Com os shows voltando a acontecer, cabe a nós entendermos a necessidade de nos vacinar e tomar as doses de reforço, pois somente assim iremos combater esse vírus interminável e voltar a assistir nossos ídolos em cima dos palcos. Lembremos que o negacionismo não combina com a arte.

Holy Land – Angra

Data de lançamento: 23/03/1996

Gravadora: Paradoxx Music

Faixas:

01 – Crossing

02 – Nothing to Say

03 – Silence and Distance

04 – Carolina IV

05 – Holy Land

06 – The Shaman

07 – Make Believe

08 – Z.I.T.O.

09 – Deep Blue

10 – Lullaby for Lucifer

Formação:

Andre Matos – Vocal/Teclados/Órgão/Orquestrações

Kiko Loureiro – Guitarra/Violão/Percussão em “Carolina IV“

Rafael Bittencourt – Guitarra/Violão/Percussão em “Carolina IV“

Luis Mariutti – Baixo

Ricardo Confessori – Bateria/Percussão

Participações especiais:

Mônica Tiele – Vocal

Celeste Gattai – Vocal

Reginaldo Gomes – Vocal

The Farrabamba Vocal Group – Côro

Sascha Paeth – Programação de Teclados/Arranjos Orquestrais

Paulo Bento – Flauta

Pixu Flores – Berimbau

Ricardo Kubala – Viola

Castora – Apito/Tamborim/Percussão

Holger Stonjek – Baixo