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Memory Remains: Black Sabbath – 51 anos de “Master of Reality”, o marco zero do Doom Metal

Em 1971, o mundo era basicamente dividido entre os blocos capitalista e socialista, liderados por Estados Unidos e União Soviética, respectivamente. Na América Latina, vivíamos períodos sombrios, com ditaduras instaladas no Brasil e Argentina, por exemplo. Na música, os The Beatles já estavam separados e o mundo havia perdido três dos maiores ícones do estilo: Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morrison, todos aos 27 anos. Entretanto, tivemos coisas boas naquele ano e o Memory Remains desta quinta-feira vai tratar de “Master of Reality“, o terceiro disco do Black Sabbath, que foi lançado em 21 de julho daquele 1971.

O aniversariante do dia é um disco que definitivamente colocou a banda como a influenciadora das demais bandas que foram formadas dali em diante. Difícil dizer qual dos discos do Black Sabbath é o melhor, pois é uma questão bastante pessoal. Porém, este faz parte de uma era histórica, onde os quatro cavaleiros de Birmingham brilhavam com criatividade e mostravam estar na vanguarda. Afinal, eram os inventores de um estilo que segue vivo hoje e apesar dos pesares não dá indícios de que vai se enfraquecer.

Eu nem era nascido e o quarteto  já estava no seu terceiro full-lenght, tudo isso em um período de dois anos. Se no debut auto-intitulado, o Black Sabbath “assombrou” o mundo com aquela mistura insana de blues com um peso jamais visto para a época (o long play de estreia rendeu à banda presença no top 30 dos Estados unidos), o segundo disco, “Paranoid”, teve seu single (a faixa título) figurando entre o top 5 britânico, consolidando a banda. Além disso, os dois primeiros lançamentos estavam entre os 20 álbuns mais vendidos em sua terra natal e os frutos estavam sendo colhidos, com turnês por toda a Europa e América do Norte.

E foi com todas essas “good vibes” que Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward, atravessaram o atlântico, e adentraram no “Record Plant”, em Los Angeles, acompanhados do produtor Roger Brain e do engenheiro de som Tom Allow (ambos haviam participado dos dois primeiros lançamentos da banda). A banda já tinha duas músicas prontas (ou quase), as quais já eram presença certa no set list da última turnê no mês de Janeiro daquele ano de 1971: “After Forever” e “Into The Void”, esta última, se chamava “Spanish Sid”.

Então, uma vez no estúdio, a banda iniciou o processo de produção e gravação. Se no primeiro álbum, eles tiveram 48 horas para produzir, gravar e mixar e em “Paranoid” eles tiveram 5 dias, em “Master Of Reality”, foram dois meses, entre fevereiro e abril de 1971, o que era uma novidade para a banda. Se em tão pouco tempo em estúdio, saíram dois álbuns maravilhosos, o que poderíamos esperar em dois meses de espera? Chover no molhado, outro clássico.

Durante a turnê “Reunion”, que marcou o último reencontro do Black Sabbath com os membros originais, o baterista Bill Ward comparou a mudança musical em “Master of Reality”, comparado com os dois anteriores, o autointitulado e “Paranoid”. Vamos conferir a declaração do batera.

“No primeiro álbum, tivemos apenas dois meses para fazer tudo e em “Paranoid” Mas no terceiro álbum nós pudemos tomar todo o nosso tempo e experimentar coisas diferentes. Todos nós abraçamos a oportunidade. Tony tocou partes de guitarra clássica, o baixo de Geezer dobrou sua potência, eu fui para uma bateria maior, experimentando overdubs e o Ozzy era muito melhor. E essa foi a primeira vez que não tínhamos shows agendados, o que nos permitiu concentramos apenas em tornar o álbum um marco.”

Em breves 34 minutos e apenas 8 faixas (se desconsiderarmos as intros “Embryo” e “Orchid”, são apenas 6 músicas, de fato), o Black Sabbath mais uma vez inovaria em seu som. Primeiro, com a mudança na afinação na guitarra de Iommi; ele abaixou três semitons e tocou de forma mais suja, ato que foi acompanhado por Geezer no seu baixo, em algumas músicas, o que deu um ambiente mais sombrio às composições. Se a mãe das mães das bandas de Heavy Metal tinham criado o estilo, agora neste terceiro álbum, eles se responsabilizavam pela criação de mais vertentes dentro do próprio estilo: O Doom e o Stoner, mesmo que eles não tivessem consciência disso na época.

Botando a bolacha para rolar, a abertura se dá com “Sweet Leaf”, uma música que combina o peso do Metal com as pegadas do que viria a se tornar o Stoner, além do psicodelismo das guitarras e um Bill Ward provavelmente em sua melhor performance na banda. A tosse no início da música é de Tony Iommi, que se engasgou próximo ao microfone após dar uma tragada num cigarro de maconha, enquanto as fitas de gravação rolavam entre uma e outra música. O engenheiro de som “achou” a tossida e sugeriu a Ozzy que eles a utilizassem, o que foi prontamente aceito pelo “madman”. E o que ficou mais interessante é que a tossida caiu como uma luva, pois a letra fala sobre o uso da maconha. O nome, veio de um maço de cigarros que Geezer havia comprado na Irlanda e na embalagem estava escrito “it´s the sweetest leaf that gives you the taste” (é a folha mais doce que te dá sabor – em tradução livre). Honestamente, a minha música favorita de toda a carreira do Black Sabbath. O Godsmack gravou uma versão para esta música, que acabou sendo lançada na segunda edição do tributo “Nativity in Black”. Os texanos do Butthole Suffers se inspiraram nos riffs deste clássico para uma música da banda, chamada “Sweat Loaf”.

A música seguinte é “After Forever”, que confesso, a conheci através de uma excelente versão, mais moderna, tocada pelo Biohazard, isso lá nos anos 90. Curioso que sou, fui buscar a versão original, que claro, é muito melhor pela sua crueza. Aqui temos Heavy Metal puro e cristalino, onde Geezer Butler brilha nas linhas de baixo e Iommi com seus riffs mágicos, tendo uma letra que trata do cristianismo, porém, na época, a banda foi acusada de blasfêmia. Ótima canção. A música inspirou o nome da extinta banda holandesa em que Floor Jansen (atual Nightwish) era vocalista. Além do cover dos novaiorquinos, há versões desta música executadas pelas bandas Aurora Borealis e até mesmo a turma do White Metal do Stryper.

Warner Bros. Records

A faixa três é uma pequena intro, “Embryo”, um tema macabro que serve como ponte para a faixa seguinte… Nada menos do que um clássico chamado “Children Of The Grave”. E aqui Tony Iommi dá as cartas com seus riffs certeiros, em letra que trata do sentimento anti-bélico, falando sobre crianças que são enterradas vivas. Vamos abrir aspas mais uma vez para Bill Ward:

“Quando começamos a tocar esta música na tour pelos EUA, os veteranos da guerra do Vietnã estavam voltando para casa e muitos deles iam aos shows de cadeiras de rodas, chegavam perto do palco, erguiam suas bandeiras e cantavam junto. Era muito emocionante.”

Vale lembrar que o White Zombie gravou esta música para o tributo ao Sabbath, “Nativity In Black” e mesmo eu não gostando da banda de Rob Zombie, eles não decepcionaram, mas fica a pergunta: que artista consegue estragar uma música do Black Sabbath? Nem a Anitta conseguiria tal proeza. O Havok também regravou este clássico.

Orchid” é outra intro, onde Iommi prova que nem só de riffs o “pai” vive. Aqui ele consegue mostrar um dedilhado perfeito no violão e que nos dá aquela sensação de paz. Uma ótima ponte para a música que vem a seguir…

…”Lord Of This World” chega e essa é maravilhosa, que traz o peso da guitarra mesclado com a pegada Stoner descrito lá em cima, na primeira música. A boa performance vocal de Ozzy também dá as caras por aqui. A letra trata de temas demoníacos e possessão de inocentes, uma especialidade de seu compositor, Geezer Butler, que já abordava o tema desde o debut da banda. Essa é outra que eu conheci através do “NativityIn Black”, tocada pelo Corrosion of Conformity, uma banda pela qual eu não morro de amores, mas que me chamou atenção também lá nos anos 90 para as maravilhas que o Black Sabbath fazia 20 anos antes. Um dos pontos altos deste disco.

Solitude” é a penúltima música do álbum e trata-se de uma música mais calma, na mesma linha de “Planet Caravan” (presente no álbum anterior). A letra trata de solidão. Não é ruim, mas está abaixo das demais faixas. Talvez tenha sido colocada ali propositalmente, para acalmar um pouco o ouvinte, pois o melhor estava por vir. Três bandas gravaram versões para esta faixa: o Cathedral (Doom Metal), os noruegueses do Ulver, além da banda de Death Metal Demented Saint.

E fechando com chave de ouro, temos “Into The Void”, uma música que, em minha modesta opinião, tem o riff mais espetacular do Rock em geral e que jamais foi igualado por nenhuma banda e/ou guitarrista na história. Essa música mostra, pelo menos antes de seu refrão, porque a banda é aclamada como sendo também a mãe do estilo Doom. O peso, a levada bem arrastada e a rapidez do refrão (penso eu que esta provavelmente tenha sido a música que inspirou aquele nosso “mosh”, nos shows). Confesso que me arrepiei, ao assistir ao vivo, em 2013, a banda, mesmo sem o monstro Bill Ward na bateria, sendo substituído pelo competentíssimo Tommy Clufetos, que tocou demais naquela noite) executar esse clássico. A letra fala sobre poluição e a forma como o homem se mata com suas próprias criações. Bem atual, não é mesmo? A preocupação com o meio ambiente e o planeta autossustentável já eram bandeiras levantadas da banda há mais de meio século atrás. E há quem diga que as bandas de rock abordam temas inúteis… Para este clássico, há versões das bandas Kuyss (Stoner), Exhorder (Thrash Metal) e até o Soundgarden também pagou tributo ao Sabbath.

Master Of Reality” vendeu mais de um milhão de cópias antecipadamente, teve seu lançamento em julho de 1971, nos EUA, onde ficou em oitavo lugar nas paradas e por 43 semanas figurou entre os discos mais vendidos. Mais tarde, o aniversariante de hoje seria certificado duas vezes com o disco de platina; Em agosto, a terra natal da banda conheceu o terceiro álbum, onde alcançou o top 5. Aqui em terras tupiniquins, o LP foi lançado no mesmo ano . Existe uma versão do álbum com as letras coloridas na capa, o que dificilmente convenceria um fã a comprar, caso ele não conhecesse a banda. Você pode ver a referida capa abaixo.

Uma curiosidade é que durante as sessões de gravação, a banda gravou contra a sua vontade, uma faixa chamada “Weevil Woman ’71’”, que sairia como single de estreia. Mas a faixa ficou de fora do lançamento oficial e ficou guardada até que foi lançada uma versão dupla e expandida do álbum, o que aconteceu somente no ano de 2009.

Este disco rendeu uma turnê de 14 meses em que tocaram exaustivamente. Além disso, como disse alguns parágrafos acima, influenciou (e ainda influencia) diversas bandas, foi responsável pela criação de alguns sub-gêneros do Heavy Metal e tem um legado enorme dentro do estilo. Claro que há os que não gostam nem do álbum, nem da banda, mas para estes, eu vos digo: nada disso que eu, você e todos nós curtimos em nossos tempos contemporâneos existiria se não fosse o Black Sabbath. Você pode até não gostar, mas tem que respeitar e colocar a banda no pedestal, pois foram eles quem criaram isso tudo. Sabemos que as chances de uma nova reunião são praticamente nulas, mas seria bem interessante se rolasse.

Então é dia de celebrar esse discaço, no volume alto e repetindo até a exaustão. O Black Sabbath é a mãe das mães das bandas de Heavy Metal e merece de nós toda reverência. Tudo o que veio depois foi inspirado nas ideias insanas que Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Buttler e Bill Ward tiveram. São 51 anos, com corpinho de 25 e que envelhece cada vez melhor. É nossa obrigação preservar e zelar pelo legado deixado por estes caras.

Master of Reality – Black Sabbath

Data de lançamento – 21/07/1971

Gravadora – Vertigo

 

Faixas:

01 – Sweet Leaf

02 – After Forever

03 – Embryo

04 – After Forever

05 – Orchid

06 – Lord of This World

07 – Solitude

08 – Into the Void

 

Formação:

Ozzy Osbourne – Vocal

Tony Iommi – Guitarra

Geezer Butler – Baixo

Bill Ward – Bateria