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Memory Remains: Deicide – 31 anos do álbum de estreia, destilando o ódio anticristão

Em 24 de junho de 1990, na frutífera região de Tampa, Flórida, começava a ser escrita a história de outra das bandas populares daquele celeiro do Death Metal estadunidense: o Deicide lançava seu álbum de estreia e vamos contar a história dele no Memory Remains desta quinta-feira.

Precisamos voltar alguns anos no tempo para situar o leitor: em 1987 a banda foi formada, usando o nome Carnage. Logo depois, Glen Benton se juntou ao grupo, que mudou de nome, passando a se chamar Amon. Sob esse nome, gravaram duas demos, “Feasting the Beast” (1987) e  “Sacrificial” (1989). Aliás, para este disco de estreia, entraram as músicas destas duas demo, mais as músicas “Deicide” e “Mephistopheles”, escritas para completar a tracklist.

Após alguns shows, eles foram contratados pela Roadrunner, que passou a pressionar a banda pela mudança no nome, que era o mesmo de uma casa citada no álbum “Them”, de King Diamond, lançado no ano de 198 pela mesma Roadrunner. Então, eles adotaram o nome atual, que em latim significa “o ato de matar um ser de natureza divina”, mais especificamente, Jesus Cristo. Outro significado para a palavra é “aquele que tem interesse em matar Cristo”.

Com Glen Benton incumbido da tarefa de escrever as letras, ele que daria uma entrevista onde dizia que cometeria suicídio em cima do palco, durante uma apresentação da banda, quando tivesse 33 anos, a mesma idade com a qual Cristo foi morto, ele acabou não cumprindo a promessa, justificando que fora mal interpretado quando deu a polêmica entrevista e gerou revolta de alguns fãs. Para nossa felicidade, ele segue vivo, compartilhando esse sentimento anti-religioso e anti-cristo. Ele não está de todo errado, uma vez que as religiões são as principais razões para a discórdia na humanidade e responsáveis por inúmeras mortes ao longo da linha do tempo. No Brasil, atualmente ela é responsável por ancorar um governo de cunho extremista, com ideias fascistas e um (falso) nacionalismo exacerbado. Fico imaginando como o fã de Bolsonaro vai se sentir quando descobrir as letras de Glen Benton. Será que vão chamá-lo de comunista? Vão mandá-lo morar em Cuba ou na Venezuela? Ou vão dizer que ele está “lacrando”? Tire você, caro leitor, as suas conclusões.

Assim sendo, a banda se reuniu no icônico Morrisound Recording, em Tampa, Flórida, para gravar o aniversariante do dia. Sob a batuta do igualmente icônico produtor Scott Burns, a banda passou o mês de março daquele já distante ano de 1990 no referido estúdio, e de lá saiu com este petardo. Eles voltariam a utilizar esse mesmo estúdio nos anos seguintes, para gravar os álbuns sucessores deste, o qual passaremos a destrinchar, sem mais delongas, a partir das linhas abaixo. Venha comigo, no caminho eu te explico.

Lunatics of God’s Creation” abre o trabalho e apresenta uma banda rápida, pesada e ríspida, ainda que a produção seja muito tosca e mostre uma sonoridade bem rude, dá para perceber uma certa complexidade na composição, com mudanças constantes no seu andamento. Curiosamente, a letra não trata necessariamente de adoração à Satanás ou ao anti-cristianismo e sim fala sobre Charles Manson, o famoso serial killer que fez hora extra na Terra. “Sacrifícal Suicide”, a faixa número dois tem uma primeira estrofe bem arrastada, ficando rápida no refrão e assim a faixa vai se desenvolvendo, com direito a um solo à velocidade da luz, mas os destaque são os riffs brutais.

Oblivious to Evil” tem menos de três minutos e mantém a mesma pegada da faixa anterior: começa com poderosos riffs arrastados, fica veloz no meio com outro solo rápido e volta para o final quase que Doom. “Dead by Dawn” tem riffs extremamente rápidos na sua intro, que logo dão lugar a passagens que se não chegam a ser rápidos como a intro, também não chegam a ser extremamente arrastados como a faixa anterior. Essa música entrou na trilha sonora do jogo Grand Theif Auto IV, mais conhecido aqui em terras tupiniquins pelas suas iniciais, GTA.

Blasphereiron” é bem Old-School, com riffs insanos e batidas desesperadas, um dos pontos altos do play. A faixa que dá nome à banda e ao play abre a segunda metade do petardo e se destaca por ser bem trabalhada, mostrando onde os brasileiros do Krisiun iriam se inspirar futuramente. As duas melhores faixas do disco, sem sombra de dúvidas.

Carnage in the Temple of the Damned” traz de volta o Death Metal Old-School, que ajuda a manter o nível do disco lá nas alturas. Riffs sujos são os grandes destaques por aqui. Essa faixa é outra que não se refere ao ódio pela figura divina, fala sobre Jim Jones, um pregador, ativista político e líder de uma seita que orquestrou um suicídio em massa, na Guiana, no ano de 1978. “Mephistopheles” tem o início arrastado e depois o couro come com riffs à velocidade impressionante e uma bateria que é uma quebradeira incomum, se encerrando da mesma forma que começou.

Day of Darkness” inicia a parte final do play e como muitas músicas aqui, a banda manteve a fórmula de intercalar partes rápidas e mais cadenciadas, sendo que essas últimas são as que mais sobressaem. E “Crucifixation” traz o ato final deste debut, apostando na mesma receita de compor suas músicas, mas diferentemente da faixa anterior, as partes mais rápidas têm um destaque maior.

São breves 33 minutos que mostram uma banda com sangue nos olhos e ainda que estivesse demasiadamente crua e a produção contribuiu exatamente para isso, a estreia foi muito boa e esse disco é um marco não somente para o estilo, mas para a cena local, que mais tarde revelaria inúmeras bandas que hoje são igualmente culturas pelos fãs do Metal extremo. Detalhe básico é que Glen Benton afirmou não ter utilizado nenhum tipo de drive em seus vocais, quando gravou este play.

O álbum é constantemente citado como se não o mais vendido da história do Death Metal, disputa esse título com o álbum “Covenant” dos seus contemporâneos Morbid Angel. O sucesso de vendas, no entanto, não foi capaz de fazer uma banda tão extrema e com letras contendo pura blasfêmia, pudesse figurar em charts, principalmente na Billboard, por exemplo. Entretanto, o álbum foi alvo de ótimas críticas da imprensa especializada na época e é por isso que ele é merecedor de todos os nossos confetes na presente data. 

Sendo assim, desejamos uma longa vida a esta banda, que tudo isso passe logo, embora o atual mandatário brasileiro insista para que o vírus siga ceifando mais e mais vidas. Porém, nós que valorizamos a ciência, torcemos para que tudo isso seja controlado e que em breve possamos ver Glen Benton e companhia, aterrorizando os cristãos e criando mais obras recheadas de “subversão”, para desespero dos fascistas de plantão. Longa vida ao Deicide e graças ao tinhoso que ele não cometeu suicídio.

Deicide – Deicide

Data de lançamento – 24/06/1990

Gravadora – Roadrunner

Faixas:

01 – Lunatics of God’s Creation

02 – Sacrifícal Suicide

03 – Oblivious to Evil

04 – Dead by Dawn

05 – Blasphereiron

06 – Deicide

07 – Carnage in the Temple of the Damned

08 – Mephistopheles

09 – Day of Darkness

10 – Crucifixation

Formação:

Glen Benton – vocal/ baixo

Eric Hoffman – guitarra

Brian Hoffman – guitarra

Steve Ashein – bateria