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Memory Remains: Iron Maiden – “The Number of the Beast” é o mais novo quarentão do Heavy Metal

Há 40 anos atrás, o mundo era bem diferente: vivíamos o período da guerra fria, onde as nações se dividiam no apoio aos Estados Unidos e a então União Soviética, em uma guerra que felizmente não passou da ideologia. No Brasil, vivíamos uma crise estratosférica e um governo que apesar de pertencer à ala militar e ditatorial, fazia a intermediação para o retorno da democracia. E no universo da música, o Iron Maiden lançava neste 20 de março, “The Number of the Beast“, o terceiro álbum da gloriosa carreira dos britânicos e certamente um dos três discos mais influenciadores do Heavy Metal de maneira geral. Pois bem, este será o assunto do nosso Memory Remains desta terça-feira.

A banda vinha de dois bons álbuns e um vocalista emblemático que era Paul Di’anno, mas ele destoava dos demais membros da banda, por ser conhecido pelo abuso de drogas, em especial, cocaína. E no momento em que o quinteto começava a ficar famoso nos Estados Unidos, Di’anno foi demitido e a explicação foi por ele “não ter carisma e energia no palco”, Para o seu lugar, o chefe Steve Harris recrutou um jovem vocalista vindo do Samsom. Ele é ninguém mais do que Bruce Dickinson.

Bruce exigiu algumas condições para passar a fazer parte desta que se tornaria uma das maiores bandas de Heavy Metal de todos os tempos: ele não abriria mão de cortar seu cabelo e bateu o pé quanto as suas vestimentas, só usaria as roupas que lhe fizessem bem e as que ele quisesse. O que parecia ser muita pretensão, acabou por demonstrar sua personalidade e essa personalidade iria causar seríssimos atritos entre ele e Steve Harris. Isso seria percebido dez anos mais tarde, quando o vocalista se viu obrigado a ter que escolher entre gravar álbuns solo ou permanecer na donzela. Assim sendo, o líder do Iron Maiden acatou as exigências do novato, na decisão mais acertada que ele cometeu na sua vida.

A mudança no vocal foi bastante significativa, pois se Di’anno tinha uma pegada mais Punk, seu substituto tinha (e ainda tem) um timbre melhor, mais potência, os agudos se tornariam uma marca registrada da banda, em igual proporção aos duetos de guitarra e do baixo cavalgado de Steve Harris. As linhas melódicas passaram a ganhar maior destaque, fazendo com que Bruce Dickinson fosse elevado ao patamar dos grandes vocalistas como Ronnie James Dio e Rob Halford, por exemplo. Muitos dos cantores que surgiram tempos depois colocam Bruce como sendo uma de suas maiores influências. Sobre a performance de Bruce, vamos abrir aspas para o produtor Martin Birch.

“Sinceramente, eu não creio que Paul Di’anno fosse capaz de cantar algumas das linhas que (Steve) Harris tinha em mente. Quando Bruce chegou, abriram-se várias possibilidades para o álbum.”

Além de todos os dados históricos do aniversariante do dia, “The Number of the Beast” tem alguns marcos: tatra-se do primeiro álbum a contar com colaborações de Adrian Smith, que escreveu “The Prisioner“, “22 Acacia Avenue” e “Gangland“. È também o único disco a conter o nome do baterista Clive Burr nos créditos, pois este seria também o último registro dele com a banda. Nicko McBrain entraria em seu lugar logo depois e não mais deixaria o posto. Ao que consta, Bruce Dickinson teria participado do processo de composição também, mas por conta de compromissos contratuais com sua ex-banda, o Samsom, ele não pôde ser creditado.

A banda com seu novo vocalista se reuniu no “Battery Studios“, em Londres, por onde ficaram entre os meses de janeiro e fevereiro daquele 1982, na companhia de Martin Birch, que seria o produtor de longa data. Foi neste estúdio que nasceu um dos álbuns que podem definir o Heavu Metal e do qual iremos comentar faixa a faixa a partir das linhas abaixo.

Carlos Pupo/Headbangers News

Invaders” já mostra uma banda completamente diferente do que eles haviam apresentado nos dois álbuns anteriores, com uma música bem rápida, enérgica e tendo o baixo de Steve Harris duelando com os agudos do estreante Bruce Dickinson, pelo protagonismo da faixa. O solo, é um capítulo a parte, muito bom. “Children of the Damned” é o oposto da faixa anterior, começando mais lenta e com um clima bem progressivo. Outra vez os agudos de Bruce Dickinson ganham o protagonismo.. Durante o solo a música cresce ainda mais, ficando ainda melhor.

The Prisoner“, a faixa número três chega trazendo ótimos riffs e mostrando o melhor da NWOBHM, com direito a um refrão bem melódico e que explica a afirmação do produtor Martin Birch sobre a troca de Paul Di’anno por Bruce Dickinson. Essa música foi inspirada em uma série homônima de TV do ano de 1967 e a fala antes do início da música foi retirada de um dos episódios. “22 Acacia Avenue” é uma das mais extensas do álbum, com seus mais de seis minutos, alternando partes mais Heavy com outras mais Progressivas, tendo o baixo cavalgado de Steve Harris o norteador das coisas.

Quem está no vinil, é hora de virar o lado da grande bolacha porque temos uma abertura como poucos discos têm: duas músicas que são mais do que clássicas, são verdadeiros petardos: a faixa título, que tem a narração de Barry Clayton e a música se desenvolvendo de maneira épica, com riffs fantásticos, um peso jamais visto na banda até então e o refrão que qualquer headbanger sabe cantar, além do solo, mais uma vez esplêndido. O segundo petardo não fica muito atrás, “Run to the Hills” é simplesmente sensacional, começando com batidas despretensiosas de Clive Burr, mas que depois vai ganhando corpo e tem no mesmo Clive Burr o seu grande destaque, pelas viradas em seu kit. Outra música cujo refrão gruda e o clima dela, meio Hard, meio Heavy é perfeito. O Metallica fez uma pequena homenagem ao Iron, tocando um pedaço da introdução, em seu disco de covers, “Garage Inc.”, de 1998. Essas duas músicas são OBRIGATÓRIAS nos shows da banda até hoje.

Em “Gangland“, temos a introdução trazendo a bateria de Clive Burr novamente se destacando em uma música com pegada mais setentista, ao mesmo tempo bem NWOBHM, onde se faz impossível o ouvinte se manter parado. “Hallowed by the Name” traz de volta sua vibe mais Prog e ao longo de seus mais de sete minutos, todos se destacam em algum momento, fechando com chave de ouro um disco quase perfeito do início ao fim. Você nem percebe que se passaram 40 minutos, tão prazerosa foi a audição.

O aniversariante do dia foi um verdadeiro sucesso de crítica e também comercial, sendo o disco mais vendido da carreira do Iron Maiden, com mais de 14 milhões de cópias vendidas mundo afora. Foi certificado com Disco de Ouro na Áustria, Alemanha e Suíça; Platina nos Estados Unidos e no Reino Unido e triplo Platina no Canadá. Foi o primeiro álbum do Iron Maiden a alcançar o Topo das vendas no Reino Unido e o single “Run to the Hills” foi o primeiro a entrar no Top 10 britânico.

Nem tudo foram flores, pois “The Number of the Beast” recebeu duras críticas por conta da temática religiosa em algumas das  letras e a capa também colaborou para tal. Aliás, a capa merece um destaque a parte, é de longe a mais bela do Iron Maiden, tendo a mascote Eddie com uma marionete do diabo e espalhou-se pelo mundo a fantasiosa história de que a banda é satanista por tais fatos. Querendo ou não, isso ajudou a voltar ainda mais os holofotes para a banda. Ainda sobre a capa, o fundo azul se deveu a um erro de impressão, que foi corrigido na edição de relançamento em 1998, onde o findo fiou mais escuro.

É sabido do gosto por futebol por parte dos integrantes do Iron Maiden. Steve Harris, inclusive é um fanático torcedor do West Ham, clube de Londres. E há uma informação no encarte do play aniversariante do dia que aconteceu uma partida de futebol entre o Iron Maiden contra os alemães do Scorpions. A peleja acabou empatada pelo placar de 1 a 1.

Além do reconhecimento dos fãs e de outros nomes notáveis do Heavy Metal, o nosso mais novo quarentão recebeu honrarias da revista Kerrang!, que classificou o álbum em 6° na sua lista dos 10 Melhores Álbuns de Sempre do Rock e em 15° na lista dos 50 Álbuns Mais Influentes de Sempre; A Rolling Stone por sua vez, fez uma votação entre seus leitores para compilar uma lista dos Melhores Álbuns de Heavy Metal de sempre e o álbum ficou em 4° lugar. O website IGN compilou uma lista com os 25 Melhores Álbuns de Heavy Metal de Sempre e The Number of the Beast ocupa o 3° lugar. E juntamente com o álbum de estréia, é um dos citados no livro “1001 Álbuns Que Você Precisa Ouvir Antes de Morrer”.

Enfim, um baita disco, com um legado imenso e que se faz merecedor de toda homenagem. Temos um encontro marcado com o Iron Maiden aqui no Brasil no dia 2 de setembro, no Rock in Rio quando a banda novamente será o headliner do festival. Então vamos escutar esse play no volume máximo e nos cuidar, tomando as vacinas e as doses de reforço para que possamos ficar cada vez mais imunizados e poder curtir nossos shows com mais segurança. Desejamos uma longa vida para a Donzela que segue ativa, para delírio de todos nós.

The Number of the Beast – Iron Maiden

Data de lançamento – 22/03/1982

Gravadora – EMI

Faixas:

01 – Invaders

02 – Children of the Dawn

03 – The Prisoner

04 – 22 Acacia Avenue

05 – The Number of the Beast

06 – Run to the Hills

07 – Gangland

08 – Hallowed by the Name

Formação:

Bruce Dickinson – vocal

Steve Harris – baixo

Adrian Smith – guitarra

Dave Murray – guitarra

Clive Burr – bateria