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Memory Remains: Nevermore – 11 anos de “The Obsidian Conspiracy”, o capítulo final de uma banda que inovou

Nesta terça-feira, 8, “The Obsidian Conspiracy” completa 11 anos de vida. Este que acabou por se tornar o canto do cisne do Nevermore é tema do nosso Memory Remains de hoje. Importante ressaltar que este álbum fora lançado em diferentes datas, porém, estamos usando como parâmetro a data em que fora lançada no seu país natal.

Em 2010, faziam já 5 anos do lançamento do álbum anterior, “This Godless Endeavor“. Nunca a banda havia ficado tanto tempo em um hiato entre dois lançamentos. O leitor que conhece a banda certamente irá questionar, quando estiver lendo estas linhas, dizendo que a banda havia soltado o DVD/CD ao vivo “The Year of the Voyager” (2009). Mas a banda estava passando por problemas internos, que depois viriam a tona, com as saídas do guitarrista Jeff Loomis e do baterista Van Williams. Antes disso, tivemos a saída do competentíssimo Chris Broderick, que passaria a integrar o Megadeth, em 2007.

Talvez por isso mesmo, tenhamos percebido que o clima das músicas tenha ficado mais denso e sombrio, como nunca havia sido na carreira do Nevermore. Mas isso não faz do homenageado de hoje um disco ruim, pelo contrário. E para quem ainda não escutou, não é de primeira que você irá assimilar o que a banda tentou passar neste play.

Enquanto que o baixista Jim Sheppard e o baterista Van Williams descansavam neste período entre o lançamento de “The Year of The Voyager” e “The Obsidian Conspiracy“, Dane e Loomis investiram nas suas respectivas carreiras solo, tendo Dane lançando o excelente “Praises To The War Machine“, um disco descompromissado e bastante diferente do seu trabalho com o Nevermore, mas muito bom, e Loomis por sua vez lançando “Zero Order Phase“, essa verdadeira máquina de riffs, que caberiam muito bem nos discos de sua banda. Confesso que essa demora grande, somado a estes lançamentos, me deixou um tanto quanto preocupado com o futuro da banda.

A banda então, recrutou o produtor Peter Wichers, com o mago Andy Sneap na mixagem e masterização e a gravação se deu em três estúdios: “Robert Lang Studios” e no “Cadillac Limo Studios“. Lançado pela “Century Media” e com a arte gráfica a cargo de Travis Smith, o mesmo que criou toda a concepção da capa do álbum póstumo de Warrel Dane, “Shadow Work“.

Peguemos declarações de antes do lançamento, das mentes pensantes do Nevermore, Warrel Dane, vocalista e letrista, e Jeff Loomis, guitarrista e o cara que escreve as músicas. Com a palavra, Warrel:

Essas músicas estão cheias de raiva, lírica e musicalmente. Loomis trouxe riffs incríveis, que sem dúvida, agradará tanto aos fãs mais novos quanto aos antigos. E a combinação de Peter (Wichers) com Andy (Sneap) resultará em algo muito, muito especial.”

E Jeff Loomis completou:

Eu acho que o novo disco ainda soa como Nevermore, mas acho que irei dar um pouco mais de espaço para o Warrel dessa vez (…), é apenas um pouco mais aberto musicalmente para ele realmente ser capaz de fazer o que ele quer. Vai ser um álbum interessante.

E de fato, Warrel Dane ganhou mais espaço, as guitarras continuam presentes, não mais como outrora, mas temos grandes momentos em “The Obsisian Conspiracy“. Colocando a bolacha para rolar, a gente começa a entender isso. A abertura se dá com a poderosa “The Termination Proclamation“, em que Jeff Loomis traz alguns de seus riffs mais complexos e criativos já escritos por ele. Abre bem o disco.

Em “Your Poison Throne“, mais riffs sinistros, desta vez aliados á liberdade vocal que Warrel Dane, onde ele caprichou bem no refrão grudento onde ele canta “Rise! Rise! From your poison!”. Lembro que eu colocava este disco para tocar todos os dias em um trabalho que eu tive e um amigo gostou tanto do som que repetia esse refrão, e até me pedia para “colocar a música do Rise! Rise!”. Excelente começo, com duas músicas muito boas. “Moonrise (Through the Mirrors of Death)” foi a primeira música deste disco que me chamou atenção. Ela é boa, moderna, pesada e melódica.

And The Maiden Spoke“… Essa música tem uma história estranha, pelo menos para mim. Eu não gostava muito dela no início, talvez, seja pelo que eu disse alguns parágrafos acima, em que este não é um disco de fácil compreensão. E essa música é a mais perfeita síntese da minha afirmação. Pois bem, com o tempo, eu fui escutando-a com mais atenção e… Como não gostar desses riffs nervosos de Jeff Loomis? A música é muito raivosa, Van Williams arrebenta na execução da bateria. Ela poderia perfeitamente estar na tracklist de “Enemies of Reality“, o disco mais raivoso da carreira dos caras. Só que aqui ela é bem mais densa. Hoje eu faço é aumentar o volume quando chego na faixa 4.

Emptiness Unobstructed” é uma música digamos, mais comercial…Ela é legal, com partes mais atmosféricas, outras mais prog. Fora a única para qual a banda lançou um videoclipe. A faixa seis, chamada “The Blue Marble And The New Soul” é uma balada, mas bem diferente das baladas que o Nevermore costumava criar. Quem conhece bem a banda, sabe que Jeff Loomis não abria mão da sua pedaleira e do peso da sua mão direita comandando as sete cordas. Aqui posso afirmar que, sem dúvida nenhuma, trata-se da composição mais criativa, do ponto de vista harmônico, de toda a história da banda. É de fato uma linda composição. A performance de Warrel Dane é espetacularmente linda. Embora eu ainda prefira as músicas mais pesadas da banda, não posso negar que, essa música agradará até mesmo quem não gosta de Heavy Metal.

O peso volta a dominar tudo com “Without Morals“, uma música que nos remete à época do “The Politics of Ecstasy“, muito pela atmosfera, porém, esta faixa é traz obviamente, um Nevermore bem mais moderno. Excelente som. “The Day You Built The Wall” é uma das pouquíssimas músicas de toda a carreira da banda que eu não gosto muito. E olha que eu conto nos dedos de uma das mãos essas músicas que eu não sou fã. Pois essa música é bem chatinha, pedante, a exceção da parte em que antecede o refrão onde fica bem pesada e com riffs poderosíssimos. Poderia muito bem ter ficado de fora.

She Comes in Colors” é uma das mais densas do disco. E por isso, uma das mais fantásticas. Esse clima sombrio, aliado ao peso, torna essa música linda. Os caras se redimiram do equívoco da faixa anterior, o que, convenhamos, no caso do Nevermore, não era preciso fazer muito esforço. O começo, acústico, engana na primeira audição.

O final se dá épico, com a faixa título. Como nos álbuns anteriores, pelo menos desde “Dead Heart in a Dead World“, a última faixa tinha que obrigatoriamente ser aquela digna de arrasar territórios. E aqui, Jeff Loomis arregaça tudo, claro, que bem acompanhado do restante da banda, que não deixa a peteca cair em nenhum minuto. E o último verso desta música, teria um quê de “premonição” do genial Warrel Dane, em que ele canta “These are my last words“. E eram as suas últimas palavras, pelo menos em um álbum oficial de estúdio do Nevermore.

Apesar de alguns considerarem esse trabalho de regular para bom, eu digo que, com conhecimento de causa que tenho de Nevermore, que se trata de um trabalho diferente, complexo, que não é de fácil absorção, mas que não faz dele um disco ruim, muito pelo contrário. Destaco a bela produção, que deixou o som impecável, a banda também ajuda, pois havia um entrosamento monstro entre eles e todos músicos do maior gabarito. E por isso ele se faz digno deste texto.

Para a turnê deste álbum, a banda recrutou o excelente guitarrista húngaro, Atila Vöros. Mas a banda acabou encerrando suas atividades em 2012, depois da saída de Jeff Loomis e Van Williams. Em entrevista concedida a este redator, em um outro veículo, o guitarrista Thiago Oliveira, que gravou o álbum póstumo de Warrel Dane, nos confidenciou que testemunhou, na sala de sua casa, quando Warrel e Loomis fizeram as pazes por telefone e que haviam conversas para um retorno da banda, o que não acabou acontecendo com a lastimável notícia da morte do vocalista, no dia 13 de dezembro de 2017, em São Paulo. É uma grande pena que a banda não tenha voltado com sua carreira, eles mereciam muito mais do que conquistaram. Mas hoje não é dia de se lamentar e sim de celebrar a vida de “The Obsidian Conspiracy“, do legado maravilhoso que este quarteto de Seattle deixou. E de dizer ao caro leitor: “Sim, eu escuto gente morta!”

The Obsidian Conspiracy – Nevermore

Data de lançamento – 08/06/2010

Gravadora – Century Media

Faixas:

01 – The Termination Proclamation

02 – Your Poison Throne

03 – Moonrise (Through The Mirrors of Death)

04 – And The Maiden Spoke

05 – Emptiness Unobstructed

06 – The Blue Marble And The New Soul

07 – Without Morals

08 – The Day You Built The Wall

09 – She Comes in Colors

10 – The Obsidian Conspiracy

Formação:

Warrel Dane – Vocal

Jeff Loomis – Guitarra

jim Sheppard – Baixo

Van Williams – Bateria