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Memory Remains: Nevermore – 23 anos de “Dreaming Neon Black” e a dor de Warrel Dane com a perda da namorada

Em 25 de janeiro de 1999, o Nevermore lançava o terceiro full-lenght de sua carreira. “Dreaming Neon Black” não é só considerado por muitos fãs como o melhor trabalho da banda. É também um disco que representa muito para este redator que vos escreve. O aniversariante do dia é tema do nosso Memory Remains desta terça-feira.

Foi a minha porta de entrada para esta que, não escondo de ninguém, é a minha banda favorita. Através da faixa “Poison Godmachine“, que conheci através de uma antiga revista chamada “Planet Metal”, que vinha com um CD coletânea encartado (N. do R: quem tem mais de 35 anos com certeza se lembrará) e em uma das edições, eu acabei conhecendo a banda e a minha vida mudou completamente.

E se no primeiro disco, a banda ainda apresentava latentes características do antigo Sanctuary e no segundo disco, os caras já começavam a formar o embrião da sonoridade simplesmente impossível de se rotular, neste disco, ai é que o ouvinte apegado às ramificações, fica mais confuso, no bom sentido da palavra. A banda começava a moldar o seu som aqui. E um som único, inimitável.

Voltando um pouco no tempo, a banda estava colhendo os frutos do excelente disco antecessor, “The Politics of Ecstasy“, que incluiu uma tour sendo banda de abertura do Death. Os caras precisavam se superar. Então o imortal Warrel Dane trouxe um conceito para o disco, cujas letras tratariam da lenta decadência de um homem ao perder a sua namorada. O homem da história é o próprio Warrel, cuja namorada, de nome Patricia Candace Walsh morreu após entrar para uma seita que pregava o uso de drogas pesadas. Ele tinha pesadelos, nos quais a moça clamava seu nome enquanto sucumbia afogada, e isso explica as duas versões da capa do disco, em uma delas, um corpo feminino boiando, já sem vida e na outra versão, uma mulher submersa na água, com uma das mãos para fora, esperando ajuda. A arte da capa, assinada pelo parceiro de longa data, a fera chamada Travis Smith.

Segundo a Wikipedia, a história de que Patricia morreu após entrar para tal seita não é real. Ela parece ter sido assassinada juntamente com o marido, Douglas Zyskowski, por um serial killer chamado Robert Bem Rhoads, em janeiro de 1990, enquanto pegava carona em destino a uma oficina religiosa na região de Utah e parece que o frontman do Nevemore não sabia da história ou preferiu romantizá-la para contar a história aqui em “Dreaming Neon Black“, nunca saberemos. E fazendo uma breve pesquisa no Google, é fácil de obter informações sobre uma mulher de nome Patricia Candice Walsh, assassinada em 19 de janeiro de 1990. É, caro leitor, se você que é fã de Nevermore está estupefato com essa informação, saiba que este redator está se sentindo igual ou até pior. Verdade ou não, e parece que é, eu ainda prefiro a história que inspirou o álbum, é mais romântica e visceral.

Vamos voltar a parte musical, a banda, reforçada com mais um guitarrista, Tim Calvert (1965-2018), entrou no “Village Productions“, em Tornillo, Texas, novamente com Neil Kermon na produção e o resultado foi um disco forte, denso, desesperador e a performance vocal de Warrel foi simplesmente de emocionar qualquer ouvinte.

Em uma conversa com os integrantes da banda brasileira que acompanhou os anos finais da carreira do frontman e que gravaram o excelente disco póstumo, “Shadow Work“, o guitarrista Thiago Oliveira me relatou que o próprio Warrel lhe confidenciou que considerava em “Dreaming Neon Black” a sua obra prima enquanto vocalista e também considerava o melhor disco que ele já havia gravado. Eu digo que enquanto intérprete, ele foi magnífico neste play, pois mesmo essa história não tendo acontecido com ninguém que conheço, eu consigo sentir toda a angústia, o desespero e o sentimento de que você não terá de volta aquela pessoa a quem você amava. Todas as vezes que eu escuto este disco, a sensação que eu tenho é que como se essa moça fosse a minha namorada.

Claro que como fã incondicional do NM, eu amo não só este, mas como todos os discos lançados pela banda, e a minha relação com ele é muito especial. Explico: até 1999 eu só conhecia a banda porque eu era leitor e colecionador da revista “Rock Brigade” (novamente a turma que passou dos 30 saberá do que este redator se refere) e uma vez veio um pôster dos caras em uma das edições. E me lembro bem que uma namorada que eu tinha na época me perguntou que banda era aquela, eu respondi que não sabia. Essa história se passou em 1997, e eu não fazia a mínima ideia do que eu estava perdendo. E pirei quando escutei “Poison Godmachine“. Daí para me tornar fã, foi um pulo.

Estávamos na virada do milênio, que trazia consigo o advento e a popularização da internet me permitiu baixar o disco, escutar e pirar sempre com esta obra maravilhosa. Claro que na primeira oportunidade, eu compraria a minha cópia. Então, colocamos a bolachinha para rodar e temos a intro, chamada “Ophidian“, que confesso pular sempre, pois a ansiedade em ver as guitarras gritando é muito maior.

Beyond Within” abre muito bem o disco. Ela não é tão depressiva quanto as músicas que virão adiante, mas é pesada, densa, certeira, ótima para abrir um disco e abrir shows. Jeff Loomis e Tim Calvert dividem bem os solos aqui. E a ponte para o refrão já diz como vai ser o disco: “Welcome to the fall“ (bem-vindos à queda, em tradução livre).

The Death of Passion” mantém o peso, mas aqui você já sente o desespero tanto na interpretação, quanto na letra e o refrão que gruda como chiclete: “I feel so hollow“ (me sinto tão vazio). Destaque para a cozinha, Van Williams e Jim Sheppard mostram um entrosamento quase que perfeito. Além das guitarras com riffs pra lá de cavernosos, lindos, sem palavras para descrevê-los. Como eu costumo falar, aqui nascia o Thrash Metal do novo milênio. É uma das minhas favoritas do disco. Apenas Loomis trabalhou no solo desta música.

Stephanie Cabral/Century Media Records

I am the Dog” é uma música fantástica, que trata dos sonhos de Dane com a sua namorada falecida. Ela já é mais puxada para o Metal tradicional, embora tenha muito peso, com passagens progressivas. Excelente música. Assim como na música anterior, apenas Loomis fez o solo. Warrel tinha uma relação digamos, intensa com seus sonhos. Certa vez, em uma de suas inúmeras passagens pelo Brasil, ele acordou depois de um pesadelo e olhou para o guitarrista Thiago Oliveira, que o hospedou, segurando o parceiro pelos braços e começou a gritar “mamãe! mamãe!”, tendo voltado a dormir. Ao acordar, não se lembrava do ocorrido.

Chegamos à faixa título e aqui temos uma das músicas mais complexas de toda a carreira do Nevermore. “Dreaming Neon Black” começa com o violão de Loomis e Warrel cantando que sente a falta da namorada, da sua respiração em seu pescoço. É uma espécie de continuação da faixa anterior, quando ele ainda trata dos pesadelos. Musicalmente ela é sombria, densa, com seus momentos de peso, sobretudo no refrão. Esta música conta com a participação de Christine Rhoades, abrilhantando ainda mais a canção. Ela já havia participado no debut da banda e anos depois, em 2012, cantaria em algumas faixas do disco solo de Jeff Loomis, “Plains of Oblivion“, lançado pouco tempo depois do fim do Nevermore, em 2012.

Deconstruction” é outra das minhas favoritas do disco. Com uma letra forte, criticando o cristianismo, e afirmando todo seu ateísmo a quem ainda não conhecia, Dane foi novamente brilhante nesta música, que começa arrastada e ganha força a partir da segunda estrofe, se tornando gigante. Uma pena que esta música não era muito executada ao vivo. Aqui, o solo acústico ficou por conta de Loomis, enquanto que o solo “plugado” ficou com Calvert, que por sinal, ficou lindo.

The Fault of Flesh” já traz um clima Thrash Metal. Uma boa canção. Só não é tão brilhante quanto as anteriores, enquanto que “The Lotus Eaters” é uma música que não tem muito a ver com o estilo do Nevermore, mas eu amo esta música. Talvez seja pelo tom desesperador de Dane aqui, onde ele questiona a Deus por não nos escutar, talvez por ser uma música densa, emocionante. Me arrepio todas as vezes que escuto essa faixa, isso que eu chamo de sentir a música.

Eis que chega a minha música favorita de todos os tempos do Nevermore: “Poison Godmachine“. Ela tem tudo que eu gosto: peso, palhetadas, riffs maravilhosos, a letra ácida de Warrel, na qual eu particularmente concordo com cada frase que ele escreve aqui, principalmente quando ele diz que “Deus é uma palavra usado para causar medo“. Esta música é especial pela história que contei acima de como conheci a banda, é especial por eu considerá-la a melhor da banda e depois da morte de Warrel, descobri que essa era também a sua música preferida. E lembro que cantamos juntos um pedaço desta música ali enquanto tirávamos fotos e trocávamos ideia… Caros leitores, impossível conter a emoção ao relembrar essa cena. Fenomenal.

Passada a emoção com a faixa 9, entramos na parte final do disco, e é ai que a banda peca. O disco perde um pouco do seu brilho com as faixas “All Play Dead” e “Cenotaph“. A primeira nem de longe é uma música que possamos destacar como sendo das melhores da carreira e a segunda, embora não seja ruim, não carrega o mesmo punch das músicas anteriores. Mas elas tem uma razão para estarem no disco, afinal, lembremos, trata-se de um disco conceitual.

Porém, logo depois de o nível cair um pouquinho só, as coisas voltam à normalidade: “No More Will” começa com um lindo dedilhado de violão por Jeff Loomis, que buscou inspiração na música flamenca, para logo se tornar um Metal bem honesto, pesado, denso e com lindas melodias. Outro ponto máximo da carreira da banda.

Forever ” é a canção em que Dane se despede da namorada e eu sempre uso um trecho desta música quando quero prestar qualquer tipo de homenagem a este grande homem que foi .

“You are forever in my heart, you never died

You are forever i still wonder where you are.”

Deixe a bolachinha rodar por por alguns minutos e entra a faixa escondida (bem, nem tão escondida assim, já que ela é anunciada na contracapa do disco) “Optmist or Pessimist“, que na época em que baixei o disco, eu não conhecia, mas quem conhece, sabe que ela é a faixa que abre o EP “In Memory” (1995). Uma canção Thrash Metal, com a cara do Nevermore, ou seja, moderna. Trata-se da mesma versão usada no lançamento original, sem retoques, sem regravação. Excelente canção.

Aí as gravadoras que distribuíram o disco no Brasil (Rock Brigade Records e Laser Company) cometeram um erro inaceitável: eles anunciaram como bônus a música “In Memory“, como sendo a faixa #15, porém, a mesma simplesmente não está no CD. Na época eu fiquei bastante frustrado, pois queria conhecer esta música. Precisei comprar anos depois, o EP homônimo para poder conferir.

Uma outra curiosidade que os rapazes da banda solo de Warrel me contaram também é sobre um anel que eles encontraram entre os pertences dele, quando juntavam tudo para enviar à sua irmã. E este anel, nas palavras deles, era como se fosse um anel de noivado, provavelmente ele teria usado com esta moça. Nunca saberemos. Fato é que ele carregava consigo esse anel onde quer que ele fosse.

Hoje não temos mais esse gênio chamado Warrel Dane entre nós. Ele perdeu a batalha para o Diabetes, essa doença asquerosa, que mata aos poucos. E Jeff Loomis teve a sábia decisão de enterrar qualquer possibilidade de um retorno do Nevermore sem seu vocalista. Loomis era de vital importância para a banda, bem como Van Williams e Jim Sheppard, mas, Warrel Dane era o coração. Suas letras inteligentes, seu carisma, sua interpretação, sua presença de palco fizeram dele um dos únicos vocalistas de sua geração. O Nevermore sem Warrel Dane é um barco sem leme, uma rua sem saída, é algo impensável.

Um disco absurdamente maravilhoso, pesado, denso, com uma história pesada, mas emocionante. Está no meu Top 3 da banda. E que hoje, mesmo 20 anos depois de seu lançamento, permanece atual. Envelhece bem e merece muito ser comemorado. Longa vida ao “Dreaming Neon Black“, que fechou muito bem o trabalho do Metal nos idos dos 1900.

Vamos celebrar a existência desse disco, que completa 23 anos de maneira tão sensacional quanto ele era  naquele 25 de janeiro de 1999, quando a banda abalou as estruturas da cena, ajudando a calar a boca daqueles que insistiam que o Heavy Metal estava morto. O quinteto de Seattle mostrava que não e ainda emergia para se tornar uma das mais importantes do cenário naquela altura. Se Warrel estivesse entre nós, estaria falando sobre a importância de nos vacinar e de nos proteger. A pandemia segue aí, vamos nos cuidar. e enquanto nos cuidamos, eu vos digo em alto e bom som: eu ouço gente morta! Com muito orgulho.

Dreaming Neon Black – Nevermore

Data de lançamento: 25/01/1999

Gravadora: Century Media

Faixas:

01 – Ophidian (intro)

02 – Beyond Within

03 – The Death of Passion

04 – I am the Dog

05 – Dreaming Neon Black

06 – Deconstruction

07 – The Fault of Flesh

08 – The Lotus Eaters

09 – Poison Godmachine

10 – All Play Dead

11 – Cenotaph

12 – No More Will

13 – Forever

14 – Optimist or Pessimist (faixa bônus escondida)

Formação:

Warrel Dane – Vocal

Jeff Loomis – Guitarra

Tim Calvert – Guitarra

Jim Sheppard – Baixo

Van Williams – Bateria

Participação especial:

Christine Rhoads – Vocal adicional em “Dreaming Neon Black“