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Memory Remains: Raimundos – 26 anos de “Lavô Tá Novo”, produção gringa, estreia pela major e trazendo um som mais pesado

O Memory Remains desta quarta-feira pós-feriado de finados vai tratar de “Lavô Tá Novo“, o segundo álbum dos Raimundos, que deu ainda mais espaço ao quarteto candango que trazia aquela curiosa mistura de som pesado com ritmos nordestinos e que colocou definitivamente a banda como uma das maiores do Rock Brasileiro dos anos 1990.

Tal como a cena Rock e Metal mundial, o Rock brasileiro sofreu um declínio das bandas que fizeram sucesso na década anterior: a maioria absoluta dessas bandas se separaram ou fizeram trabalhos fracos. O exemplo que fugiu un pouco do padrão foi o Titãs, que até “Titanomaquia” (1993) produzia discos irrepreensíveis, mas depois seguiu a regra e isso abriu as portas para uma verdadeira legião de boas bandas de todos os cantos do Brasil que pediam espaço.

Porém, os próprios membros do Titãs foram responsáveis pela renovação do estilo. Junto com o produtor e crítico musical Carlos Eduardo Miranda, fundaram o selo Banguela, com apoio logístico da Warner. E o Raimundos foi a banda que se destacou dentre todos as bandas que foram lançadas pelo selo. O álbum de estreia, autointitulado estourou nas rádios e na MTV, com músicas que embalaram uma geração como “Puteiro em João Pessoa“, “Palhas de Coqueiro“, “Bê s Bá“, “Nêga Jurema“, “Rapante” e principalmente, Selim, essa última, odiada por Rodolfo e que foi incluída de maneira genial e intuitiva no disco pelo produtor Miranda. Havia uma cláusula no contrato que previa um segundo disco, já pela major. E o Raimundos se aproveitou desse fator.

A Warner, por sua vez, estava interessada em vender, obviamente, e fez valer a cláusula que previa a assinatura do contrato e levou os candangos para seu casting. O Raimundos havia feito uma mistura genial e inusitada: o hardcore com forró, chamado por muitos de forrócore. Talvez o Raimundos não fosse a banda mais talentosa dentre todas que gravaram álbuns pela Banguela. O Little Quail era uma banda com uma pegada mais visceral e em Brasília todos davam como certa que era o trio liderado por Gabriel Thomaz que estouraria. Lembra muito o caso das bandas de San Francisco, na década de 1980, quando todos eram unânimes ao apontar o Armored Saint como a banda que estouraria… E deu o Metallica. Aqui no Brasil, guardadas as proporções, foi desse jeito.

Assim sendo, o produtor Mark Dearnley foi chamado e a banda se juntou no estúdio Mosh para produzir o vindouro álbum. A escolha de Dearnley foi fundamental para que a banda ganhasse em peso; o cara tinha experiência e já havia produzido bandas como Black Sabbath, AC/DC e Def Leppard. A mixagem e masterização aconteceram em Nova Iorque, nos estúdios “Pacifique” e “Precision Mastering“, respectivamente. A capa é um capítulo a parte: na frente, está estampada a foto do seu Josias, que era vigia noturno do Be Bop, estúdio que a banda gravou seu disco de estreia. Ele vendeu a sua imagem por R$300, o que na época equivalia a uns três salários mínimos. Nada mal, não é? Na parte de trás, uma bunda muito bonita aparece, o que nos dias de hoje geraria muita controvérsia. Até hoje não se sabe sobre o paradeiro da dona do glúteo, provavelmente uma quarentona ou cinquentona nesse nesse 2021, se estiver viva.

As letras seguiam com os mesmos temas do álbum anterior: sexo, maconha, costumes nordestinos, só que agora a parte sexual estava mais aflorada, vamos assim dizer. “Tora Tora” é o maior exemplo disso. “Esporrei na Manivela“, uma canção de domínio público foi transformada em um Hardcore e a banda fez uma versão para “O Pão da Minha Prima“, canção do forrozeiro Zenilton, que participou novamente do disco. Alguns nomes estranhos foram sugeridos para o play como “Beleza” e “Dedo Amarelo“, mas acabaram optando por “Lavô Tá Novo“, uma clara referência ao duplo sentido comumente utilizado pelo artistas do forró.

Botando a bolacha para rolar… Temos o Raimundos soando pesado e sombrio como jamais havia soado, em “Tora Tora“. Rodolfo pega a segunda guitarra para fazer base enquanto Digão faz o solo, embora essas duas coisas juntas jamais tenha dado um resultado além do satisfatório, pois o forte do guitarrista nunca foi o solo e sim os riffs. A abertura não poderia ser melhor.

O riff cabuloso no baixo da Canisso anuncia o maior hit da banda, “Eu Quero Ver o Oco“. Era o Raimundos se mostrando ainda mais pesado e aqui o mérito é todo do produtor Mark Dearnley que conseguiu extrair o máximo da banda. O título da música nasceu quando o baixista entrou irritado no estúdio onde a banda ensaiava, gritando Eu Quero Ver O Oco. Daí Rodolfo criou um história onde narra a história de um desafortunado com os automóveis. Genial.

Opa, Peraí Caceta” é uma música mais “alegre”, vamos assim dizer. Aqui a banda usa os naipes de metal. Em “O Pão da Minha Prima“, uma versão pesadaça e ainda mais sombria do forró eternizado por Zenilton. Tocou muito nas rádios e na MTV. Ficou genial. “Pitando no Kombão” é um baita Hardcore que começa na velocidade da luz e depois fica menos rápida. Uma das melhores do play.

Bestinha” é outra que podemos colocar entre as melhores, como quase todas nessa play. Ela tem uma levada mais Hard, pesada e ao mesmo tempo melódica. E com uma frase de Rodolfo que jamais saiu da minha cabeça desde a primeira vez que eu ouvi: “quem me faz falta é quem não vai na bola.” E ele tinha razão. A metade final do play abre com “Esporrei na Manivela“, uma cantiga popular de domínio público onde eles transformaram em um Hardcore fantástico.

Tá Querendo Desquitar (Ela tá Dando)” é a mistura brasileira com o som pesado. As batidas do baião e a letra com duplo sentido, comum no forró. E Zenilton participa novamente. A letra é um escracho e certeza de risos. “Sereia da Pedreira” é outro Hardcore bem rápido com uma letra que mais se assemelha a atual “sofrência”. Óbvio que aqui os caras estavam era zoando o pessoal do pagode que só sabe escrever letra da mulher que tá longe do cara. Ficou espetacular.

Aí aquela quebrada no alto nível do álbum com “I Saw You Saying (That You Say That You Saw)”. Escrita por Gabriel Thomaz, à época no Little Quail, ela tem um clima mais sessentista e destoa muito do restante do álbum. Embora tenha feito muito sucesso, é bem chatinha. Em “Cabeça de Bode“, os caras apostaram em um rapcore, cujo resultado não foi nada menos do que ótimo. O rapper X contribuiu com a letra e cantou a segunda estrofe.

O que é bom dura pouco e o final do álbum vem com a épica “Herbocinética“, um Hardcore vibrante cuja letra fala sobre… Fumar maconha. Em pouco mais de meia hora temos sem sombra de dúvidas, o melhor disco lançado naquele longínquo ano de 1995 e que mostrava a nova safra do Rock nacional.

O Raimundos caiu na estrada, colhendo os frutos das críticas favoráveis e de ter caído no gosto do público. Como prêmio, a banda se apresentou no “Hollywood Rock” e no “Phillips Monsters of Rock“, quem tem mais de 35 anos vai lembrar dos saudosos festivais de Rock e Metal que tinham à nossa disposição.

Apesar de ter marcado aquela geração e de pessoalmente ser um disco que ajudou na minha formação, hoje, a maioria das letras não fazem sentido, por toda a consciência que nossa sociedade vem tomando ao longo dos anos. A sexualização feminina, a romantização do uso de drogas, como a maconha, o machismo, são coisas que não cabem mais na nossa realidade. Naquele tempo éramos inconscientes disso e víamos com naturalidade. Mas a obra em si, musicalmente falando é sensacional e merece ser preservada.

Depois disso, Rodolfo virou crente e bolsomínion alienado, Digão, se tornou um reaça, igualmente bolsomínion. Parece que só Canisso mantém uma linha de pensamento que difere dos dois. A banda parece seguir na ativa, mas não com o brilho de outrora, mais se parece com a banda que tenta fazer um cover de sí própria. Mas “Lavô Tá Novo” é uma pérola do Rock nacional e merece ser lembrado por tudo que ele representa. Muita gente começou a curtir Rock através desse play e isso é de grande valor.

Lavô Tá Novo – Raimundos
Data de lançamento – 03/11/1995
Gravadora – Warner

Faixas:
01 – Tora Tora
02 – Eu Quero Ver o Oco
03 – Opa, Peraí Caceta
04 – O Pão da Minha Prima
05 – Pitando no Kombão
06 – Bestinha
07 – Esporrei na Manivela
08 – Motivo Pra Desquitar (Ela tá Dando)
09 – Sereia da Pedreira
10 – I Saw You Say (That You Say That You Saw)
11 – Cabeça de Bode
12 – Herbocinética

Formação:
Rodolfo – vocal/ guitarra
Digão – guitarra
Canisso – baixo
Fred – bateria

Participações especiais:
Zenilton – voz
Gabriel Thomaz – violão
X – vocal em Cabeça de Bode
Gibi – scratch em Cabeça de Bode
Guilherme Bonolo – backing vocal