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Memory Remains: Sepultura – 28 anos de “Chaos A.D.”, a definitiva obra do Heavy Metal nacional

Em 2 de setembro de 1993 o Sepultura lançava “Chaos A.D.”, o quinto álbum da carreira da maior banda brasileira de heavy metal e que se tornou um marco. Esse álbum mais que especial é tema do nosso Memory Remains de hoje.

Os caras já estavam há algum tempo fora do Brasil, morando em Phoenix, Arizona. Dois anos antes haviam lançado “Arise“, que acabou por ser o último álbum de Thrash Metal propriamente dito, pois a partir de então a banda entraria no caminho sem volta do Groove Metal. Além disso, em 1991, os caras ainda quase desconhecidos no próprio país, se apresentaram na segunda edição do Rock in Rio, em uma apresentação memorável, deixando a batata quente para Lobão, que se apresentaria depois do quarteto. Quase 30 anos depois, podemos concluir, que as latadas que este levou, eram uma surra antecipada por ter apoiado a candidatura de Jair Bolsonaro à presidência.

Chaos A D.” marca uma nova etapa na sonoridade da banda e que foi uma tacada de mestre, pois eles deixaram de ser apenas mais uma banda igual às demais. A musicalidade brasileira foi incorporada, ainda que de maneira pontual, o que fez com que os caras se tornassem diferenciados. Isso seria mais explícito no disco posterior, “Roots“. Não haveria “Roots” se não houvesse “Chaos A.D.“.

A velocidade foi praticamente reduzida a zero, só aparecendo na brutal “Biotech is Godzilla“. O Groove, aliado aos riffs simples, porém, impactantes, graças à afinação baixa, além das batidas tribais de Igor Cavalera, naquele momento despontando como um dos grandes bateristas da cena, deixaram o som do Sepultura mais pesado e robusto.

São 13 faixas, sendo dois covers bem improváveis, mas que ficaram ótimas: “The Hunt“, do New Model Army e “Polícia“, dos Titãs, que de tornou obrigatória nos shows, na época de Max Cavalera na banda. Além disso, temos participações de Evan Senfield, do Biohazard, como co-autor da faixa “Slave New World” e Jello Biafra, que fez a letra de Biotech is Godzilla.

As letras trazem problemas sociais, uma preocupação da banda e que mostrava que os caras estavam alinhados com o Rock dos seus primórdios. “Manifest“, com sua influência de Discharge, conta a história do massacre do Carandiru, ocorrida no ano de 1992, quando a polícia militar de São Paulo num gesto de descontrole, invadiu e matou centenas de detentos que faziam uma manifestação. “Kaiowas“é outra faixa que mostra a banda se aproximando do Brasil, esta é acústica e é uma homenagem aos índios da tribo Kaiowas, um esboço do que eles iriam fazer em “Roots“. Claro que vai haver um alienado que vai torcer o nariz para a menção aos índios brasileiros, os verdadeiros donos dessas terras e que são desrespeitados pelo atual dublê de presidente, um facínora que se traveste de um falso messias para enganar os que ainda compram seu discurso fascista e o pior, um verdadeiro genocida, que carrega nas costas o peso de quase 600 mil mortos na pandenia do Coronavirus.

Refuse/Resist”  é um hino e foi usada nos protestos da população no ano de 2013 e a letra fala sobre recusar e resistir as atrocidades que nos são imputadas. O curioso é que na introdução, as batidas cardíacas de Zyon, o primogênito de Max Cavalera, foram ali colocados. Hoje, o rapaz toca com o pai, sendo baterista do Soulfly.

Territory” é outra pérola e nos mostra letra composta por Andreas Kisser, que trata de um assunto que é atual desde as invasões dos Bárbaros até a disputa da região da Caxemira ou a retomada tô Afeganistão pelos Talebãs: as guerras por território. Eles gravaram o videoclipe desta música em Israel e a introdução dela, merece destaque, tendo um Igor Cavalera inspiradíssimo. É a melhor intro de bateria de toda a história, deixando “Painkiller” muito para trás.

O título do álbum seria “Propaganda“, nome da faixa número seis do play, mas acabou sendo trocada por “Chaos A D.“, que significa Caos Anno Domini, e representava o que vivíamos na época e parece que ainda vivemos. Outro tema atual debatido pela banda na ocasião era a questão ambiental e a ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, na faixa “Biotech is Godzilla“, no que pode ser chamada de canção de Punk do Sepultura.

Gravado no Rockfield Studios, no  País de Gales, com produção de Andy Wallace, “Chaos A.D.” marca também, segundo Max Cavalera conta em sua biografia, “My Bloody Roots“, que pela primeira vez o baixista Paulo Xisto, à época, conhecido como Paulo Júnior, a gravar suas partes de baixo no estúdio. Até então, Max e Andreas se revezavam nas gravações das quatro cordas, à exceção do trecho final de “Stronger Than Hate“, isso no álbum “Beneath the Remains“, em 1989.

Falando do baixista, ele não apresentou nada de interessante nas suas partes, mas a banda claramente deu mais espaço para que ele incluísse suas partes. Na maior parte do tempo, o baixo quase nem aparece, pois Max cobria bem essa parte, com sua guitarra de quatro cordas apenas. E quando o baixo aparece, sozinho, não nos dá a entender que estamos diante de um novo Billy Sheehan, Geddy Lee ou mesmo um Alex Webster. Em 2021, Paulo Xisto ainda não demonstra ter o mínimo de intimidade com seu instrumento, embora, ao vivo, ele tenha uma presença de palco tão grande que o fã desavisado acha que está diante de um ás do contrabaixo. A experiência de gravar suas partes a partir de então fez com que Paulo perdesse o medo do estúdio, segundo Max afirma no mesmo livro.

O álbum é perfeito do início ao fim e temos ótimos momentos em outras músicas como a grooveada e fenomenal “Nomad“, a raivosa e pesada “Clenched Fist” ou a experimental “Amen“, que conta com participação de um coral gregoriano. Sem dúvida é o melhor álbum do ano de 1993 e está entre os melhores da década de 1990, juntamente com os álbuns do Pantera, as duas maiores bandas daquela década e que tinham tudo para brilhar no mainstream por um tempo mais longo.

O aniversariante do dia alcançou a posição de número 32 na “Billboard 200“, além de ter colocado os brasileiros na crista da onda naquele momento, quando as bandas de Heavy Metal passavam por uma profunda crise de criatividade e com as bandas de Rock alternativo emergindo, coube ao Sepultura e ao maravilhoso “Chaos A D.“, que trazia uma inovadora mistura de Groove Metal com batidas brasileiras tribais, se responsabilizar em manter de pé a bandeira desse estilo que nós amamos.

A importância deste álbum é tamanha que diversas bandas se arriscaram a prestar homenagem, gravando ou apenas executando ao vivo algumas versões: foi o caso do Krisiun para “Refuse/Resist“; os franceses do Gojira já tocaram “Territory” ao vivo e o Exhumation gravou a mesma música para o tributo “Sepultural Feast“;  o Gooseflesh gravou “Slave New World” para o mesmo tributo, enquanto que o Ratos de Porão fez uma versão matadora para “Biotech is Godzilla“, no EP “Guerra Civil Canibal“, além de sempre incluí-la nas apresentações ao vivo. São as bandas reconhecendo a relevância que o disco tem na cena

Do ponto de vista pessoal, esse álbum é mais que especial, pois foi o primeiro disco de Metal que eu ouvi na vida e isso se deu de maneira quase que acidental. Explico, era o ano de 1995 e eu era fã do Pearl Jam e ainda pouco familiarizado com a vertente mais pesada do Rock, o Metal. Havia uma garota por quem eu alimentava uma paixão adolescente. Ela me emprestou uma fita cassete de 90 minutos, na qual, o lado A era o álbum “VS.” e no lado B, o homenageado do dia. Quem tem mais de 40 anos como este que vos escreve, vai se lembrar bem da nossa manha de carregar sempre uma caneta para girar a fita, diferentemente da facilidade atual onde a gente escolhe a faixa, a playlist, naqueles tempos a gente virava a fita para chegar onde gostaríamos de tocar. E eu nunca escutava o lado do Sepultura. Até que cera vez, não sei por que cargas d’água, eu resolvi escutar o lado B: foi um caminho sem volta. No primeiro momento eu estranhei o som e o gutural de Max Cavalera, mas depois eu acostumei e escuto até hoje,  concluindo assim que a decisão de tocar o lado B daquela fita foi a melhor decisão da minha vida e ainda lembro daquele sábado a noite, quando muitos dos adolescentes da minha idade deveriam certamente estar em um baile funk de corredor, eu estava em casa tendo uma experiência que mudou completamente a forma como eu via o mundo.

Não consegui conquistar o coração daquela linda garota, mas os quatro “jungle boys” conquistaram definitivamente o meu coração e assim começava a minha jornada até tornar me um incondicional headbanger. E o que mais me orgulha é saber que aquele Sepultura era fenomenal, ligado à esquerda e as causas sociais. “Chaos A.D.” foi o segundo disco que eu comprei, sendo o primeiro de Metal. Ajudou a moldar o meu caráter. Depois eu assisti ao vídeo “Third World Chaos“, o que me fez virar devoto, fui buscando os discos antigos, os quais conservo. E que morro de ciúmes deles, ninguém além de mim mete a mão neles.

Hoje não temos mais os irmãos Cavalera fazendo parte do lineup da banda e poucas são as músicas deste play que ainda são lembradas quando a formação atual toca ao vivo, mas nada tira o brilho e o clima vanguardista que o Sepultura começava a trilhar. Eu tenho o orgulho de dizer que fui uma das últimas pessoas a testemunhar uma apresentação com aquela clássica formação, em 1996. As coisas não estavam nada bem entre o quarteto, mas os caras eram tão profissionais que fizeram um show perfeito e ninguém poderia desconfiar que a banda iria se separar pouco tempo depois, São quase 30 anos de um disco que envelhece muito bem, obrigado. Para os saudosistas, este álbum estará sempre no topo do ranking das favoritas.

Chaos A D. – Sepultura
Data de lançamento – 02/09/1993
Gravadora – Roadrunner

Faixas:
01 – Refuse/Resist
02 – Territory
03 – Slave New World
04 – Amen
05 – Kaiowas
06 – Propaganda
07 – Biotech is Godzilla
08 – Nomad
09 – We Who Are, not as Others
10 – Manifest
11 – The Hunt
12 – Clenched Fist
13 – Polícia

Formação:
Max Cavalera – vocal/guitarra
Igor Cavalera – bateria
Andreas Kisser – guitarra
Paulo Júnior – baixo