Para alguns, o melhor disco do Sepultura. Para outros mais radicais, foi o início da decadência da banda. Independente da opinião que cada pessoa tenha a respeito de “Arise“, o quarto álbum da banda, cuja história se confunde com a história do Heavy Metal nacional, é inegável a importância do aniversariante do dia, que completa 35 anos nesta data e claro, não deixaria de ser assunto do nosso Memory Remains desta quarta-feira.
Uma verdade precisa ser abordada aqui, este de fato é o último álbum genuinamente Thrash Metal gravado pelo Sepultura, pois depois disso, a banda sempre buscou inovar em sua sonoridade. Nos dias atuais então, nem se fala, pois com Andreas Kisser e Paulo Xisto como os únicos remanescentes, o grupo corre mais do seu passado do que os cachorros fogem de um bom banho.
Pois bem, em 1990, a banda vinha de uma turnê bem sucedida (e com algumas tretas, sobretudo, com a galera do Sodom) de seu disco anterior, o também excelente “Beneath the Remains“, que apesar de ser bem rápido, era mais cru e tinha uma sonoridade mais voltada ao Thrash Metal alemão. E com todo o apoio da Roadrunner, esperava-se que a banda ultrapassasse novamente seus limites, o que não era uma tarefa difícil para aqueles quatro caras.
Assim, a banda se reuniu novamente com o produtor Scott Burns e trocava o “No Ar” estúdio no Rio de Janeiro pelo icônico “Morrisound”, na Flórida. Max Cavalera conta em sua autobiografia, “My Bloody Roots”, que as duas primeiras músicas a serem compostas para a bolacha foram “Murder” e “Dead Embryonic Cells“.
Se no processo de gravação tudo correu bem, o mesmo não se pode falar da mixagem. Monte Conner, então executivo da Roadrunner, afirma no mesmo livro de Max que não gostou do resultado final dos takes, pois achou muito cru. Ele decidiu então contratar um então desconhecido Andy Wallace, para refazer todo o trabalho de mixagem. Conner fez isso à revelia da banda e o caldo quase entornou, pois os caras se sentiram traídos, uma vez que estavam em turnê pela América do Sul e não tiveram qualquer acesso às conversas entre Conner e Andy Wallace.
Todavia, quando se depararam com o resultado da mixagem, ficaram aliviados, pois Andy conseguiu melhorar ainda mais o trampo feito nas gravações. E um ano depois, a banda admitiu que o executivo havia tomado a decisão certa, tanto que Andy se tornaria o produtor do disco posterior, “Chaos A.D.”.
Se em 1996, o mundo inteiro ficou estupefato com o fato de a banda ter feito algo inédito,que era misturar as batidas tribais brasileiras com o peso do Thrash e do Groove Metal, tudo tem um começo aqui na música “Altered State“. As primeiras sementes que a banda começava a cultivar de um som mais original. Nos anos 90 já era difícil produzir algo 100% original, mas estes caras queriam somente quebrar barreiras.
Ainda sobre “Orgasmatron“, uma polêmica: a pronúncia de Max aqui não é das melhores e isso virou alvo de críticas do próprio Lemmy Kilmster. Mas a versão virou um hino e era sempre a música que encerrava os shows enquanto Max esteve na banda e hoje é praticamente ignorada.
Acerca deste cover, Max disse que bebeu meia garrafa de Rum antes de entrar no estúdio para gravar e que fez isso porque na sua cabeça tinha de ser como Lemmy fazia. E disse que no dia seguinte à gravação, teve uma ressaca violenta e que nas fotos de divulgação que foram feitas neste dia, ele aparece com os olhos fechados, tamanha era a sua dor de cabeça.
Antes do lançamento oficial, o selo brasileiro Eldorado lançou uma versão especial do álbum, que chegou às lojas na mesma data em qua a banda se apresentou no Rock in Rio: 23 de janeiro. Como a banda já tocava algumas músicas inéditas, a ideia era valorizar a inclusão da banda no maior festival de música do mundo, cuja participação foi confirmada enquanto eles estavam na Flórida gravando. Recentemente, Gloria Cavalera, que perdeu recentemente sua filha Christina, lembrou da passagem da família pelo Rio de Janeiro durante aquele verão de 1991.
Dando play na bolacha, temos na versão oficial, 9 faixas em 42 minutos. Há diferentes versões que contam com três bônus: o cover para “Orgasmatron“, do Motörhead, além de uma introdução e mais a música “C.I.U.”. O álbum é rápido, com riffs certeiros e é perfeito do início ao fim. Não dá para destacar somente uma música, mas como ficar inerte escutando “Arise“, “Dead Embryonic Cells“, “Desperate Cry“, “Murder“, “Subtraction“, “Altered State“, “Under Siege“, “Meaningless Movements” e a impiedosa “Infected Voice“?
A recepção ao álbum foi a melhor possível. Publicações brasileiras e estrangeiras foram unânimes em apontar o álbum como uma pérola de um país que a música pesada nem de longe era popular. Os fãs também abraçaram o álbum, e como dito no início deste texto, muitos consideram “Arise” o melhor e ao mesmo tempo o ápice da banda. A renomada revista Kerrang escolheu nosso aniversariante como o 7° melhor álbum do ano de 1991.
“Arise” foi o primeiro álbum do Sepultura a figurar na “Billboard 200“, quando alcançou a 119ª posição. O play também esteve nas paradas da Finlândia (14° lugar), Suiça (24°), Alemanha (25°), Reino Unido (40°), Suécia (46°) e nos Países Baixos (68°). Foi certificado com Disco de Prata no Reino Unido, e é um dos álbuns citados no famoso livro “Os 1001 Álbuns que Você Precisa Ouvir Antes de Morrer”, do autor Robert Dimery, além de citado no livro “Top 500 Heavy Metal Albums of All Time“, do autor Martin Poppof.
Foi neste disco que houve a famosa treta entre o Sepultura e o Slayer, alimentada pela imprensa e pelos fãs, que acusavam os brasileiros de copiarem o som da banda de Kerry King e Cia, fato este que foi mais alimentado pela imprensa e pelos fãs do que pelas bandas envolvidas. Mas que nesta época, o som do Sepultura carregava, sim, uma forte influência do Slayer, isso é fato, mas quem se importa? Quando a fonte é boa, pode-se beber daquela água sem qualquer problema. E preciso afirmar aqui que não se trata de cópia e sim, de influências.
Como dissemos mais acima, pouco antes do lançamento, o Sepultura tocou na noite do Metal no Rock in Rio 2, no estádio do Maracanã, em noite que a organização cometeu o equívoco de colocar Lobão para tocar depois de a banda arrebentar no palco e deu no que deu… O cantor brasileiro mal tocou duas músicas e foi expulso com garrafadas por headbangers ávidos (e um tanto quanto mal educados) por música pesada. Pouco antes dessa memorável apresentação, uma prensagem às pressas do então vindouro álbum foi providenciada, afim de promover a banda, então desconhecida do público que frequenta o Rock in Rio.
A turnê começou dias depois do término das gravações. O Sepultura fez alguns shows com o Obituary e o Sadus. Depois do rolê pela América do Sul, a banda foi para a Europa, quando tocou com Sacred Reich e o Heathen, voltando à America do Norte onde tocou com o Napalm Death e o Sick of It All. Um novo retorno à Europa, quando tocou com o Motörhead e o Morbid Angel. A tour terminou somente em 1992, quando eles tocaram com Ozzy Osbourne, que na época se despedia das turnês, despedida essa que foi breve. Posteriormente , a banda também tocou com o Helmet e o Ministry.
Alguns fatos interessantes (e outros lamentáveis) aconteceram na turnê deste disco, como o primeiro encontro do Sepultura com o Motörhead e o fato de Lemmy não ter autorizado que a banda tocasse “Orgasmatron” ao vivo. E pelo jeito, os caras ignoraram a recusa de Lemmy; o momento em que a banda conheceu o astro do futebol Pelé, nos EUA; a famosa história de Max Cavalera, no momento brasileiro sem noção pelo mundo, bêbado, vomitou em cima do vocalista do Pearl Jam, Eddie Vedder, enquanto pedia autógrafo para a sua irmã; O triste assassinato de um espectador durante apresentação que o quarteto realizou do lado de fora do estádio do Pacaembu, em São Paulo, no qual a imprensa não especializada simplesmente distorceu os fatos, associando a imagem violenta à banda e aos fãs, coisa que nós sabemos que NÃO É VERDADE!
A banda lançou vídeos para as músicas “Arise” e para “Dead Embryonic Cells“. A primeira acabou sendo banida da MTV estadunidense, pois as imagens apocalípticas e religiosas foram entendidas como ofensivas pela emissora. Mas a segunda, fez com que a banda recuperasse o prestígio no canal, e o vídeo foi veiculado com bastante frequência.
Max Cavalera lembra com orgulho do álbum, que hoje ele faz questão de tocar com seu irmão Igor, na banda que os dois montaram, o Cavalera Conspiracy. Aspas para o frontman:
“O Arise é um disco especial que abriu muitas portas, tanto na sonoridade da banda quanto em experiências em turnês. Por causa da ótima recepção do álbum, fomos para muitos países. Além do que, ele é muito bem tocado e mostra a evolução musical da banda. Estávamos em uma época bem criativa.”
Atualmente, o que restou da formação que gravou “Arise” está fazendo a turnê de despedida. Alguns fãs acreditam em um retorno com o clássico lineup no futuro. Se vai acontecer, não temos como prever. Mas temos e vamos celebrar os 35 anos deste álbum, que é um clássico, uma pedrada e que mostra que o Brasil sempre foi muito mais do que samba, futebol e bumbum de fora. Aqui se faz Heavy Metal de primeiríssima qualidade.

Arise – Sepultura
Data de lançamento – 25/03/1991
Gravadora: Roadrunner
Faixas:
01 – Arise
02 – Dead Embryonic Cells
03 – Desperate Cry
04 – Murder
05 – Subtraction
06 – Altered State
07 – Under Siege
08 – Meaningless Movements
09 – Infected Voice
Bônus Tracks:
10 – Orgasmatron
11 – Intro
12 – C.I.U. (Criminals in Uniform)
Formação:
- Max Cavalera – vocal/ guitarra base
- Igor Cavalera – bateria/ percussão
- Andreas Kisser – guitarra/ violão
- Paulo Júnior – Baixo
Nota do Redator: embora creditado, é de conhecimento geral que Paulo Júnior, atual Paulo Xisto só passou a gravar suas partes de baixo a partir do álbum posterior, “Chaos A.D.” (1993). Max Cavalera fez questão de explicitar esse fato em sua autobiografia, “My Bloody Roots”, dizendo que ele e Andreas Kisser se revezavam nas gravações do baixo. Ao que consta, Paulo teria gravado ao longo dos anos, apenas um trecho ao final da faixa “Stronger Than Hate“, do álbum “Beneath the Remains“.