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Memory Remains: Slayer – 35 anos de “Reign in Blood” e a perfeição em forma de velocidade

1986, o ano que o headbanger gostaria que se repetisse todos os anos. Foi o ano que o Metallica lançou seu álbum mais icônico, “Master of Puppets“; o Megadeth lançou outra pérola, que atende pelo nome de “Peace Sells… But Who’s Buying?“; o Slayer, por sua vez, nos trouxe a cereja do bolo, o magistral “Reign in Blood“, assunto do nosso Memory Remains desta quinta-feira de TBT.

Reign In Blood“ é um disco que mudaria a vida de todos: da banda, do Thrash Metal, da sua vida, caro leitor, da vida deste redator que vos escreve, enfim… O disco mais violento, rápido, agressivo da história do Heavy Metal. Muitos colocam “Reign In Blood” e “Master of Puppets“ no mesmo patamar, e de fato estão: com 7 meses de diferença entre um e outro, ambos são reconhecidos não só pelos fãs, mas também pela crítica como os melhores álbuns das respectivas bandas e referências das próprias.

Se “Master Of Puppets” é mais técnico, sem abrir mão da velocidade do Thrash Metal em certos momentos, em “Reign In Blood“, Tom Araya, Kerry King, Jeff Hanneman e Dave Lombardo são mais diretões, priorizando os riffs rápidos e solos ainda mais rápidos. Bem, chega de comparações, pois hoje o homenageado é o álbum do Slayer, cujas letras sofreriam uma importante mudança: sairiam os temas satânicos e entravam temas como morte, assassinatos, anti-religião e loucura.

A banda já tinha gravado dois álbuns muito bons, mas ainda faltava o pulo do gato. Quis o destino que fosse no mágico ano de 1986, quando diversas bandas lançaram suas melhores obras, como citado no início deste texto. O aniversariante do dia foi gravado entre junho e julho de 1986, no “Hit City West Studio“, em Los Angeles e lançado pelo selo Def Jam, de propriedade do produtor Rick Rubin, que se aventurava pela primeira vez no Metal, uma vez que seu selo era mais voltado para o Rap. Mas o disco foi concebido de forma tão avassaladora que a parceria que iniciava aqui, tornou-se duradoura.

Vamos colocar a bolacha para rolar, o disco abre com “Angel of Death“, que fala sobre Josef Mengele, o chamado “Anjo da Morte”, responsável por todo aquele triste e deprimente horror cometido contra a espécie humana: os experimentos que resultaram no Holocausto. A música não foi bem compreendida por alguns na época, que acusaram a banda de nazismo. A música é arrasadora, como as demais que dão sequência ao petardo. Difícil ficar parado ao escutar os primeiros acordes desta música. E foi com esta faixa que a banda encerrou sua apresentação mortal no Rock in Rio 2019.

Cabe aqui uma curiosidade: o Slayer não foi a primeira banda a abordar o “Anjo da Morte” em suas letras. No mesmo ano, a banda carioca Dorsal Atlântica já havia abordado em seu debut, “Antes do Fim”, o mesmo tema, na música “Josef Mengele”, e certamente os americanos não tinham ideia da música composta pela banda de Carlos Vândalo, portanto seria descabida uma teoria de conspiração sobre um plágio.

Voltando ao nosso homenageado, “Piece By Piece” mantém a pancadaria sonora dos caras, mesmo que o começo dela seja mais “devagar”. Ledo engano, caro leitor, em menos de 25 segundos, o “pau canta na casa de Noca” e o pescoço do ouvinte é seriamente desafiado a manter-se inerte aos riffs matadores da dupla Kerry King e Jeff Hanneman. “Necrophobic” mantém o nível alto, com os caras apostando em riffs rápidos e Tom Araya cantando mais rápido do que narrador de turfe.

Altar of Sacrifice” aposta no dueto de guitarras e a bateria rápida. Ela serve como ponte para “Jesus Saves“, que começa com os melhores riffs já escritos pela dupla King Hanneman, bem carregados. Se a música vai seguir nesse andamento? Ledo engano, logo logo, os caras descem a mão em seus respectivos instrumentos. É uma tarefa quase que impossível escolher a melhor música deste disco, visto que muitas são populares e tocadas até os dias atuais nos shows da banda (e de forma OBRIGATÓRIA), mas em minha opinião, “Jesus Saves” é a melhor do disco. O fato curioso é que quando tocadas ao vivo, ambas as músicas são tocadas na sequência, o que faz todo sentido, pois uma completa a outra.

Criminally Insane” começa com a bateria quebrada de Dave Lombardo… Mas eles pensam que enganam a quem? Logo logo a velocidade e o peso tomam conta da música, embora essa seja um pouco diferente, tendo uma mudança de andamento no meio dela, mais arrastada, mas depois voltando à velocidade. “Reborn” segue o ritmo das músicas anteriores: velocidade, peso, mais velocidade. Em “Epidemic”, uma virada de bateria na introdução é a ponte para que a dupla de guitarristas entre com seus riffs alucinantes. Aqui a velocidade é um pouco quebrada, mas nada que deixe a música ruim, pelo contrário.

Postmortem” é mais calcada nos riffs e no andamento “menos rápido”. Aqui, Araya arrisca um agudo, tal qual como na faixa de abertura. Apesar de um andamento mais arrastado, no meio da música, eles não resistem e voltam à receita que deu certo nas demais músicas: a velocidade. Até que os bumbos juntamente com o surdo da bateria de Dave Lombardo anunciam que o disco está chegando ao final. E que final épico. Assim podemos definir a faixa “Rainning Blood“. Aquela música que todo headbanger que se preze poga sozinho em casa, ao escutar com o volume no talo. Aquela que todos sonham em entrar no mosh (este que vos escreve realizou esse sonho no dia 4  de outubro, há 2 anos atrás, e que moshpit era aquele, senhores. O mais brutal que eu já participei na vida). Rapidez, brutalidade, duetos de guitarra ditando as coisas por aqui, além do vocal espetacular de Tom Araya, talvez a sua melhor performance na carreira. O disco termina com o solo veloz, com a mesma velocidade que ele se iniciou.

E assim termina um álbum que nasceu clássico, o melhor da história do Thrash Metal. Ele é direto, pode ser considerado tosco se comparado com outras obras em que os músicos são mais virtuosos, mas aqui falamos em feeling, e nisso, os caras do Slayer são mestres. Os riffs matadores contidos aqui, entraram para a história como sendo um dos melhores de todos os tempos. São os 34 minutos mais destruidores e arrebatadores da vida do ouvinte. E se por ventura, você tiver sido herege ao ponto de nunca ter ouvido esse álbum, pare de ler esse texto agora, escute o play e depois volte aqui para constatar tudo o que estou afirmando sobre esse baita álbum.

Após o lançamento, o Slayer saiu em turnê juntamente com o Overkill no ano de 1987 pela Europa e depois foi banda de abertura do W.A.S.P., em alguns shows nos Estados Unidos. Durante essa tour, o baterista Dave Lombardo saiu da banda, pois alegava que não estava ganhando dinheiro nela e que havia acabado de se casar. Após muita insistência de Rick Rubin, que passou a lhe oferecer um salário, Lombardo retornou, Rubin foi buscar o batera em casa, o colocou dentro de seu Porsche e o deixou dentro de um estúdio, novamente reuinido com seus colegas de estúdio, para um ensaio. Enquanto esteve afastado, o baterista Tony Scaglione, do Whiplash assumiu a responsa das baquetas do Slayer.

Reign in Blood” foi amplamente elogiado por crítica e público, do underground ao mainstream. A revista “Kerrang!” o classificou na 27ª posição entre os 100 melhores álbuns de Heavy Metal; a “Metal Hammer” afirmou na época que o disco era o melhor do Heavy Metal dos últimos 20 anos; a “Spin” o colocou em 67º lugar na lista dos 100 melhores álbuns lançados entre 1985 e 2005; é um dos discos que figuram no livro “1001 Álbuns que tem de Ouvir Antes de Morrer“, do autor Robert Dimery; em 21017, a revista “Rolling Stone” foi eleito o 6º melhor álbum de Heavy Metal da história e ficou na primeira posição no site “Loudwire“, na categoria “Top 25 álbuns de Metal Extremo da História” e também do site “Whatculture“, na categoria “10 Maiores Álbuns de Thrash Metal de Todos os Tempos“.

Kerry King certa vez foi perguntado sobre a popularidade de “Reign in Blood” entre os headbangers e eis a resposta dele:

“Foi tudo uma questão de tempo; uma mudança no som. No thrash metal da altura, ainda não tinha havido uma boa produção num álbum daqueles. Foi uma série de coisas que se juntaram todas ao mesmo tempo. Penso que, musicalmente, estava à frente do seu tempo. Ninguém estava preparado para ouvir aquilo. Se Reign in Blood fosse lançado hoje, ninguém lhe dava importância. Mas naquela altura, as pessoas tinham fome por algo assim, tanto que ‘levantou voo’.”

Reign in Blood” não teve músicas tocadas nas rádios e apesar disso, obteve boas classificações nos charts pelo mundo: 47º no Reino Unido, 94º na “Billboard 200“, sendo a primeira aparição da banda na lista mais badalada da indústria musical e 264º no Japão. Foi ainda certificado com Disco de Ouro nos Estados Unidos. A faixa “Criminally Insane” conseguiu a posição de número 64 na categoria “UK Singles Chart“, no Reino Unido. Parece pouco, mas é um feito e tanto para um disco de Metal Extremo, lançado nos anos 1980, quando estilos como o Hard Rock e o Glalm Metal eram os que estavam em evidência e ocupavam posições de destaque em rádios e nas paradas musicais. Por isso também, “Reign in Blood” merece ser ainda mais exaltado.

Enfim, temos uma pérola! Um disco que se faz obrigatório na coleção de qualquer pessoa que diz gostar de Thrash Metal e um dos tantos que deveriam ser ensinados em sala de aula, assim não teríamos tantos fãs de música de gosto duvidoso, ainda mais por essas terras tupiniquins. É um play que envelhece muito bem, obrigado. E uma pena que a banda tenha tocado apenas as faixas de abertura e fechamento desta obra, além de “Postmortem“, em sua passagem derradeira pelo Rio de Janeiro, mas não faz mal, esse é um disco que merece e tem que ser celebrado todos os dias. E nós vamos fazendo a nossa parte para que este play seja perpetuado como um dos melhores do estilo que escolhemos para escutar e amar pelo resto dos nossos dias.

Reign in Blood – Slayer

Data de lançamento – 07/10/1986

Gravadora – American Recordings

Faixas:

01 – Angel Of Death
02 – Piece By Piece
03 – Necrophobic
04 – Altar of Sacrifice
05 – Jesus Saves
06 – Criminally Insane
07 – Reborn
08 – Postmortem
09 – Rainning Blood

Formação:

Tom Araya – Vocais/Baixo
Kerry King – Guitarra
Jeff Hanneman – Guitarra
Dave Lombardo – Bateria