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Memory Remains: Titãs – 30 anos de “Tudo ao Mesmo Tempo Agora”, a despedida de Arnaldo Antunes e letras escatológicas em um álbum pesado

O ano de 1991 foi bastante emblemático na história: testemunhamos eventos como a Guerra do Golfo, a segunda edição do Rock in Rio, o presidente Fernando Collor de Mello assinando a criação do Mercosul, as repúblicas soviéticas declarando independência, o que causaria o final da União Soviética, e por consequência, a guerra fria. No esporte, o mundo via o tricampeonato de Ayrton Senna e a despedida melancólica do hoje Bolsomínion Nelson Piquet.

Na música, tivemos um período muito frutífero: o Metallica lançava seu “Black Album“, o mais bem sucedido disco comercialmente; o boom do movimento grunge veio com os lançamentos de “Ten” (Pearl Jam) e “Nevermind” (Nirvana), que aliás, faz aniversário amanhã e vai ser falado também neste espaço, além do falecimento da maior voz do Rock de todos os tempos: Freddie Mercury. No meio disso tudo, os Titãs lançavam, em 22 de setembro, o sexto disco da carreira: Tudo ao mesmo Tempo Agora, tema do nosso Memory Remains de hoje.

O aniversariante do dia foi o último a contar com a participação de Arnaldo Antunes. Ele ainda permaneceria na banda, inclusive, colaborando com algumas letras do álbum posterior, o maravilhoso “Titanomaquia“, mas sairia antes mesmo das gravações. Comenta-se que sua saída se deu em virtude da decisão da banda em deixar de dar os créditos individualmente, para creditar toda a banda, fato que desagradava ao cantor. A verdade é que ele nunca foi tão adepto do Rock and Roll e aqui os caras iniciavam a fase mais pesada. Hoje ele é um artista consagrado da MPB. Apesar de tudo, ele ainda contribuiria com algumas letras no álbum posterior.

Outro fato curioso do play é o fim da parceria com o produtor Liminha. O então baixista Nando Reis conta em seu canal oficial no YouTube que a intenção inicial era trabalhar com Liminha, mas este estava nos Estados Unidos e como não conseguia embarcar para o Brasil, a própria banda resolveu tomar a iniciativa e produzir sozinha o play. O fato inclusive, gerou uma ruptura entre banda e produtor, superada anos depois.

Era também um disco onde  a banda voltava a fazer um som mais pesado e com letras fortes, em alguns momentos, até escatológicas. O ápice do peso, seria de fato, no já citado “Titanomaquia“, lançado em 1993 e que encerrou de uma vez por todas o ciclo de música pesada da banda. Hoje em dia dá até vergonha escutar as músicas que foram feitas de 1996 para cá. Quem conhece apenas essa fase da banda jamais poderá crer que os caras foram capazes de lançar ótimos discos, em um passado que já começa a ficar distante. Tão distante quanto as sondas Voyager I e II, que viajam pelo espaço interestrelar, abandonando nosso sistema solar.

O título tem a ver com o fato de ter sido o primeiro disco da carreira da banda em que todos assinaram ciketivamente a autoria de todas as letras e músicas. Antes cada um apresentava uma composição e levava a autoria, e como dito acima, esse fator teria desagradado Arnaldo Antunes. Na época do lançamento, as críticas não foram muito positivas, mas houve artistas da MPB que defenderam a obra, como Caetano Veloso, por exemplo. Já Maria Bethânia regravou a faixa “Agora”.

No aniversariante do dia, a banda optou em tentar resgatar o som pesado dos álbuns “Cabeça Dinossauro”  (1986) e “Jesus Não tem Dentes No País dos Banguelas” (1988), o resultado foi bom. A banda trocou o estúdio “Nas Nuvens”, no Rio de Janeiro, por uma granja, em São Paulo, onde eles passaram três meses e montaram um estúdio móvel e o resultado foi satisfatório. Abaixo, o leitor pode assistir ao documentário produzido pela própria banda enquanto gravava o vindouro álbum.

A banda vinha de um disco diferente até no título “Õ Blesq Bom“, que tem até bons momentos, mas é um álbum demasiadamente experimental, havendo inclusive, quem diga que a banda foi a criadora do estilo chamado Mangue-Beat, que estouraria anos depois, na cena de Recife. Embora uma das melhores músicas da carreira da banda esteja ali: “O Pulso“. E os caras resolveram trazer um pouco do peso que havia ficado lá em “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas“.

Vamos pôr a bolacha para rolar, temos 15 faixas e vamos dissertar sobre cada uma delas: “Clitóris” é a faixa que abre o disco e é uma das que mostram um Titãs com letras escatológicas. A sonoridade é bem moderna, com muitos teclados e sintetizadores, um tanto quanto diferente do que a banda apresentou no disco anterior. “O Fácil e o Certo” tem guitarras bem Rock and Roll e uma certa dose de rebeldia dos caras era resgatada aqui.

Filantrópico” é a faixa número três e traz guitarras sujas do punk em uma canção bem rápida e um esboço do que a dupla Marcelo Fromer e Tony Bellotto fariam com muita competência no álbum posterior. “Cabeça” é uma música em que a bateria do excelente Charles Gavin dita o ritmo, com uma pegada forte e boas viradas, enquanto as guitarras usam (e abusam) dos efeitos.

” e tem um clima pop do disco “Õ Blesq Bom”, onde eu destaco novamente a bateria de Charles Gavin. O cara estava realmente em uma fase gloriosa. A letra é engraçada e louca: Arnaldo Antunes pergunta ao ouvinte se ele já tentou varrer a areia da praia.” Doideira pura, o que não era novidade, afinal, a banda costumava trazer esquisitices em suas letras. E dava certo. “Eu Vezes Eu” é uma faixa típica para tocar em rádios. Comercial, sem peso, boa para quem curte algo bem leve e inofensivo, destacando-se a boa voz de Sergio Britto, que aliás, continua boa até hoje.

Temos duas das melhores faixas deste disco chegando: “Isso Para Mim é Perfume” com uma sonoridade punk, nos faz lembrar alguns momentos de “Cabeça Dinossauro“. A letra, segue bem tosca, mas nada que assuste para quem escuta Cannibal Corpse e Six Feet Under, por exemplo. Dentre as frases impublicáveis, uma ao final do refrão, a gente consegue deixar aqui e Nando Reis canta algo bastante “fofinho” para sua amada. Aspas para a frase:

“Amor, eu quero te ver cagar”.

Bem romântico, não é mesmo? Atenção, aqui, o modo ironia está ligado no Hard. Mas a bolacha segue, ainda tem mais, E a letra mais assustadora vem na faixa a seguir.

Saia de Mim” é outra que está no ponto alto deste disco, uma música com certo peso, boas frases de guitarras e uma letra doentia. Eu lembro quando a música foi lançada e a letra fora divulgada em um jornal daqui da cidade do Rio de Janeiro, a matéria tratava da banda como se fosse uma aberração, mas esta é uma das melhores músicas de toda a carreira da banda, com uma ótima performance de Arnaldo Antunes.

Flat-Cemitério-Apartamento” é outra com uma letra chocante, mas é um bom Rock And Roll. O meu destaque aqui é para o baixo de Nando Reis, dando peso à música. “Agora” é uma faixa que flerta com o Hard Rock. Ela é certinha, não tem firula, nem encheção de linguiça. Uma boa faixa.

A melhor faixa do disco chega e ela se chama “Não é Por Não Falar“, com seus riffs de guitarra sensacionais, a distorção deu um clima legal. E a letra, bem legal, uma das poucas que fazem algum tipo de sentido. “Obrigado” é outra faixa com influências punk, com uma boa timbragem das guitarras e a letra que é apenas uma frase repetida à exaustão. Mas ela parece muito com a faixa “Tô Cansado“, do clássico “Cabeça Dinossauro“. Sonzão!

Se Você está Aqui” é uma faixa com mais swing, mas não deixa de ser boa. Assume o vocal aqui, Nando Reis, que também faz um bom trabalho no seu contrabaixo. “Eu Não Sei Fazer Música” devolve a sonoridade punk, com a qual os Titãs tanto flertaram neste disco, em uma música interessante, mesmo que o solo seja fraco.

Uma Coisa de Cada Vez” encerra o disco, num ritmo que mais parece um Ska e a forma que Arnaldo Antunes canta é muito engraçada. Ali ele se despedia da banda em estúdio para nunca mais voltar, exceto em algumas raras aparições em que alguns dos antigos membros topa fazer uma participação especial ao vivo.

Quinze músicas em 39 minutos mais parece uma banda Punk, mas foi este o estilo que os Titãs resolveram abraçar em “Tudo ao Mesmo Tempo Agora“, que é uma ponte para o disco mais pesado que a banda viria lançar somente dois anos mais tarde. É um bom disco do Rock brasileiro e por isso merece a nossa homenagem hoje, ainda que depois a banda tenha optado de vez em abandonar o Rock pesado, não podemos esquecer da banda que já inspirou a maior banda de Heavy Metal do Brasil, o Sepultura.

Assim se encerra a nossa homenagem a esse discão. São trinta anos e ele é mais um dos que pertencem ao rol dos álbuns que envelhecem bem, obrigado. Os caras seguem na ativa, se não mais fazendo aquela sonzeira de outrora, ao menos não compactuam com as sandices que o atual dublê de Presidente da República comete por aí, dia após dia e somente isso já é razão para exaltar os caras. A exaltação fica mais intensa pelo fato de discos tão importantes como esse terem sido escritos por esse outrora septeto.

Tudo ao Mesmo Tempo Agora – Titãs
Data de lançamento – 23/09/1991
Gravadora – Warner

Faixas:
01 – Clitóris
02 – O Fácil e o Certo
03 – Filantrópico
04 – Cabeça
05 –
06 – Eu Vezes Eu
07 – Isso Para Mim é Perfume
08 – Saia de Mim
09 – Flat – Cemotério – Apartamento
10 – Agora
11 – Não é Por Não Falar
12 – Obrigado
13 – Se Você Está Aqui
14 – Eu Não Sei Fazer Música
15 – Uma Coisa de Cada Vez

Formação:
Arnaldo Antunes – vocal
Branco Mello – vocal
Paulo Miklos – vocal
Nando Reis – baixo/ vocal
Sérgio Britto – teclado/ vocal
Marcelo Fromer – guitarra
Tony Bellotto – guitarra
Charles Gavin – bateria