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Memory Remains: Titãs – 36 anos de “Cabeça Dinossauro”, as prisões de Tony Belloto e Arnaldo Antunes e um dos maiores discos do Rock brasileiro

Em 25 de junho de 1986, os Titãs lançavam “Cabeça Dinossauro“, o terceiro disco e provavelmente o mais icônico da carreira do então septeto, que iniciava uma fase gloriosa, perdurando até o ano de 1993 com o não menos maravilhoso “Titanomaquia” e que é tema do nosso Memory Remains deste primeiro sábado de inverno. Venha conosco.

Eles estavam na berlinda: era o terceiro e último álbum sob contrato com a Warner, sendo que as expectativas de renovação eram bem pequenas, uma vez que os dois primeiros álbuns não venderam como esperado e eles sabiam que precisavam ir para “ou vai ou racha”. Em caso de fracasso, o contrato não seria renovado e a banda seria só mais uma dentre tantas que tentaram emplacar.

Colocando uma dose extra de dramaticidade: Tony Belloto e Arnaldo Antunes foram presos no final de 1985 por porte de heroína, com o último sendo condenado a três anos de prisão. Nando Reis conta em seu canal no YouTube que este episódio fez com que praticamente todos abandonassem a banda. Programas televisivos cancelaram participações, os shows tornaram-se raros e quando aconteciam, poucos eram os que se dispunham a testemunhar. Eram tempos complicados.

Antes destes acontecimentos, Branco Mello havia confidenciado ao jornal “O Estado de São Paulo” que o novo álbum seria mais cru, mais visceral, com um Rock mais seco e direto. Tony Belloto certa vez falou sobre como essa sonoridade já era presente nos shows. Aspas para o guitarrista:

“O tempo mostrou que essa vertente estava no nosso DNA, por isso o ‘Cabeça’ é uma grande marca, com toda a coisa do questionamento, com a crítica que a gente vê nas letras, com o punk, mas também o reggae, o funk. Acho que nesse disco a gente achou o caminho”.

Charles Gavin, na época o baterista, também enumerou alguns fatores que colaboraram para que o aniversariante do dia tivesse se tornado tão emblemático: vamos acompanhar as palavras do cara.

“Havia o momento do Brasil que estava se desenhando muito problemático, uma ditadura militar ainda se desmanchando, a morte de Tancredo. O clima era de desilusão, um cenário de distopia. E havia também nosso momento como banda. Tínhamos vindo de “Televisão”, nosso segundo disco, incompreendido pela gravadora (Warner), que não foi bem trabalhado. Isso nos provocou certo dissabor, ceticismo com a música, a carreira. Chegamos ao disco com raiva do mercado, da gravadora, de todo mundo.”

Cabeça Dinossauro” marca o início da parceria entre a banda e o produtor Liminha, ex-baixista dos Mutantes e produtor com certo renome naquela altura. Este era diretor da Warner e isso facilitou o contato entre banda e produtor. Eles trabalharam juntos nos dois álbuns posteriores, “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” (1987) e “Õ Blésq Blom” (1989). Ele seria também o produtor de “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” (1991), mas como estava nos Estados Unidos e não conseguia retornar, a parceria acabou e isso estremeceu a amizade cultivada durante os anos.

Eles pegaram a ponte aérea e desembarcaram no Rio de Janeiro, no estúdio “Nas Nuvens“, para as gravações, que perfuraram entre os meses de março e abril de 1986. Antes disso, eles gravaram uma demo em um estúdio no bairro do Pompéia, em São Paulo. A música “AAUU” foi a primeira a ser gravada e ela já era conhecida do público, pois eles costumavam executá-la nas apresentações.

Para a capa, eles buscaram inspiração em ninguém menos que Leonardo Da Vinci. A pintura chamada “A Expressão de um Homem Urrando” foi utilizada como imagem frontal e na contracapa, a pintura “Cabeça Grotesca“. Em 2006, Sérgio Britto revelou que as primeiras trinta mil cópias foram prensadas em um papel fosco, cuja qualidade era maior e encarecia o produto final. Ele reitera também todo o apoio incondicional dado por André Midani, então presidente da Warner, que segundo Sérgio, “atendia a quase tudo que nós pedíamos”. Era também a primeira capa de disco das chamadas bandas do “Rock Brasil” a não contar com a foto da banda estampada. Bem, vamos colocar a bolacha para rolar porque aqui só tem clássico.

A faixa título abre o play com uma mistura bem louca de ritmos tribais e riffs hipnotizantes. A música nasceu depois que Paulo Miklos mostrou uma fita cassete com uma música da tribo indígena do Xingu. Liminha tocou a percussão e as batidas foram complementadas com batuques nas paredes, chão e colunas do estúdio, resultando nessa sonoridade fantástica encontrada aqui. “AAUU” mostra pela primeira vez um Titãs mais Rock and Roll, trazendo um certo peso e um descomprometimento com as bases certinhas das músicas dos álbuns anteriores. A faixa estourou depois de ser veiculada no Fantástico e fez parte das trilhas sonoras da novela “Hipertensão“, da TV Globo e do filme “Meu Nome Não é Johnny“. O que dizer dessa música? Sensacional, as viradas de Charles Gavin e um bom solo são os destaques.

Escolher uma “melhor música” desse play é beirar a heresia, mas do ponto de vista lítico, na minha opinião, essa tem uma dona: “Igreja“. Ela é rápida, flerta com o Punk e a letra, linda, um soco na cara desses pastores Bolsominions atuais que são presos por corrupção. O soco vale também para aqueles que defendem esse tipo de gente que usa a fé alheia em troca de enriquecer ilicitamente. É o grito da banda para a laicidade em todos os aspectos. A curiosidade é que Arnaldo Antunes era contra essa música entrar no play e nas apresentações, ele saia do palco quando esta era executada. Mudou de ideia depois que Caetano Veloso cantou junto com a banda, na TV. Aqui, Paulo Miklos assume o baixo para que Nando Reis pudesse cantar. somente anos depois, Nando passaria a cantar e tocar seu instrumento. Que sonzaço.

Polícia” é sem dúvidas o maior hit da banda e é também a música mais conhecida mundialmente, isso graças ao Sepultura, que fez uma versão e entrou como bônus track para o Brasil no álbum “Chaos A.D.” (1993). A música é tem acordes bem simples e que deram super certo. A letra é de autoria de Tony Belloto, inspirado no episódio de sua prisão. Os membros da banda não viam potencial na música e acabaram por se enganar. Sergio Britto acabou por cantar, pois ele só cantaria em mais duas canções em todo o play: “AAUU” e “Homem Primata“. Podemos dizer que essa pertence a nata do Rock nacional.

Estado Violência” é a faixa número cinco e aqui temos uma pegada mais grooveada, tendo como destaques o baixo de Nando Reis e os teclados de Sérgio Britto. A curiosidade é que Charles Gavin compôs essa música quando ele ainda era integrante do Ira!, mas não foi aproveitada por lá e veio parar neste disco. Excelente canção. “A Face do Destruidor” é quase um Hardcore e tem duração de 38 segundos. Os vocais foram gravados em um take só, com Branco Mello cantando aquelas frases quase que desconexas de uma vez.

As próximas três músicas são o que podemos chamar de trinca de ouro do álbum: “Porrada” é bem Rock and Roll e se eles mudassem a letra, a parte que diz “medalhinhas para o presidente”, com certeza viraria outra coisa, pois os versos do refrão “porrada nos caras que não fazem nada” casa direitinho com o atual duble se presidente da República, que insiste em proteger os seus da justiça. “Tô Cansado” por muito tempo foi a minha favorita do play e conta com riffs mais rústicos, e simples, porém, eficientes. E o que dizer da clássica “Bichos Escrotos“? Lembro que eu eu era criança, mas já tinha discernimento o suficiente para entender que havíamos saído de uma ditadura militar e era lindo escutar nas rádios Paulo Miklos cantando os versos “oncinha pintada, zebrinha listrada, ursinho peludo… Vão se foder”. A música era uma das mais antigas da banda e era tocada ao vivo, porém, para este álbum, ela ganhou uma roupagem mais Rock, ficando mais visceral e o final com Nando Reis brilhando no baixo. Coisa mais rica.

Ainda temos mais quatro músicas restantes, mas os caras deram um tempo no Rock para focar em outros estilos, como o Reggae, por exemplo. E esse estilo surge na engraçada “Família” e também em “Dívidas“, porém, separadas por “Homem Primata“, que tem uma letra que ainda faz todo o sentido, 36 anos depois e cuja composição também é lá dos primórdios, quando a banda atendia pelo horripilante nome de Titãs do Iê Iê Iê.  “O Quê?”  é o ato final e a música é inteiramente experimental, meio new-wave/ eletrônica, com mais de seis minutos. Um discaço!

Treze músicas em menos de 39 minutos e a sensação é de que um rolo compressor passou por sobre nossas cabeças. Era o início da redenção da banda e da fase áurea, que duraria por mais sete anos, no já citado “Titanomaquia“, onde eles experimentaram uma sonoridade ainda mais pesada. “Cabeça Dinossauro” rendeu o primeiro Disco de Ouro da banda. Na época, Tony Belloto apostou (e perdeu) uma garrafa de Whisky com Branco Mello, que o disco não venderia nem cem mil cópias, o que basta para que um artista ser certificado com Disco se Ouro no Brasil.

O aniversariante do dia também foi eleito o 19° melhor disco da história da música brasileira. No ano de 2012, os ouvintes da Rádio Eldorado, pertencente ao grupo que controla o jornal “O Estado de São Paulo“, colocaram o disco como o 7° melhor disco brasileiro da história. Os caras do Sepultura nunca esconderam a admiração pelo álbum. Em 1987, eles abriram um show para os Titãs em Belo Horizonte, onde reiteraram a devoção ao álbum e disseram que esperavam ter o mesmo sucesso dos paulistanos. Andreas Kisser inclusive, disse que o álbum “Beneath the Remains” (1989) foi gravado no mesmo estúdio que “Cabeça Dinossauro” para que eles conseguissem captar a mesma energia que os Titãs conseguiram neste disco que por nós é celebrado na presente data.

Em 2012, para comemorar os 30 anos da banda, eles fizeram uma turnê tocando o álbum na íntegra e além disso, o álbum foi relançado com faixas bônus que incluem versões demo, além de uma música inédita: “Vai Pra Rua“, composição de Arnaldo Antunes e Paulo Miklos. A faixa entraria no lançamento original, mas foi substituída por “Porrada“. No ano passado, comemorando os 35 anos, ele foi relançado, mas sem as faixas bônus, respeitando as faixas lançadas em 1986.

Hoje dos Titãs originais, restam apenas Sérgio Britto e Tony Belloto e a banda nem de longe se parece com aquela que assombrou o Brasil na segunda metade dos anos 1980. Fica aqui toda a nossa reverência para esse disco, que envelheceu bem, sendo sem sombra de dúvidas, um dos cinco melhores álbuns de Rock/ Metal da cena brasileira de todos os tempos. É dia de comemorar, ouvindo o play, de preferência no volume máximo. Eles merecem.

Cabeça Dinossauro – Titãs 

Data de lançamento – 25/06/1986

Gravadora – Warner

 

Faixas:

01 – Cabeça Dinossauro

02 – AAUU

03 – Igreja

04 – Polícia

05 – Estado Violência

06 – A Face do Destruidor

07 – Porrada

08 – Tô Cansado

09 – Bichos Escrotos

10 – Família

11 – Homem Primata

12 – Dividaa

13 – O Quê?

 

Formação:

Arnaldo Antunes – vocal em “O Quê?” e “Porrada

Branco Mello – vocal em “Cabeça Dinossauro“, “Dívidas“, “ Cansado” e “A Face do Destruidor

Sergio Britto – teclados, vocal em “Polícia “, “Homem Primata“, “AAUU

Tony Belloto – guitarra

Nando Reis – vocal em “Igreja“, “Família” e baixo

Marcelo Fromer – guitarra

Paulo Miklos – vocal em “Bichos Escrotos“, ‘Estado Violência” e baixo em “Igreja

Charles Gavin – bateria

 

Participações especiais:

Liminha – guitarra em “O Quê?” e “Família” e percussão em “Cabeça Dinossauro

Repolho – castanhola em “Homem Primata