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Warrel Dane: lendário vocalista completaria 61 anos hoje

“A voz do Heavy Metal moderno”, assim podemos resumir Warrel George Backer ou Warrel Dane, como ficou conhecido. Se estivesse entre nós, estaria completando 61 anos na data de hoje.

Nascido em Seattle, chuvosa cidade encrustada no noroeste dos Estados Unidos e que é mais lembrada pelo movimento Grunge, que causou um boom na cena no início dos anos 1990, Warrel manteve-se na vertente mais prolifera dessa cidade: sim, Seattle é responsável por lançar algumas das bandas mais importantes do Heavy Metal. Sanctuary e Nevermore, bandas que Warrel participou, além de Metal Church, Queensryche, para ficar nas mais famosas.

Ele era um sujeito acima de tudo, versátil: além de vocalista (dos bons) e letrista (insuperável), o cara era chef de cozinha – inclusive tinha um restaurante muito badalado, em Seattle, onde seu grande amigo Jim Sheppard era sócio; era formado também em Teologia, Sociologia e Filosofia e isso explica a inteligência e profundidade de suas letras ao longo de sua carreira. Foi cantor de ópera durante cinco anos antes de mergulhar no Heavy Metal. Carregando consigo influências principalmente de David Bowie, de quem era fã assumido, Warrel começou sua carreira no Metal no início dos anos 1980, em uma banda chamada Warhed, na qual tocava guitarra e cantava e por onde ficou até o ano de 1983, quando entrou para o Serpent’s Knight. Não há registros de Warrel no Warhed.

Já no Serpent’s Knight ele ficou entre os anos de 1983 e 1985 e apenas uma demo tape foi lançada. Anos mais tarde, duas compilações foram lançadas, uma no ano de 2003 e outra no ano de 2010 e em ambas temos registros de Warrel Dane. Em 1985, ele foi recrutado pelo Sanctuary, que foi formado dois anos antes. Ele substituiu o vocalista original, Randy Bowman.

A partir do Sanctuary, a coisa começou a ficar séria e ele ficou com a banda no seu melhor período, que perdurou até o ano de 1991, quando a gravadora exigiu que a banda mudasse sua sonoridade, para se adequar às tendencias da época, era o movimento Grunge surgindo. Metade da banda reprovou a ideia (obviamente, Warrel estava no grupo dos insatisfeitos) e a banda acabou literalmente no braço. Antes disso, eles gravaram dois excelentes álbuns: “Refuge Denied“, que contou com produção de ninguém menos que Dave Mustaine, e “Into the Mirror Black“, a obra prima da discografia do Sanctuary. Nestes trabalhos, Warrel era conhecido por seus agudos e sua longa cabeleira que batia em sua cintura.

Com o Sanctuary tendo seu final prematuro, ele juntou se a Jim Sheppard, com quem passou a tocar a partir de 1986 e a Jeff Loomis, então um jovem e promissor guitarrista, que havia entrado no Sanctuary em 1990 e pouco tempo antes havia passado por uma audição para entrar no Megadeth e teve sua entrada na banda por ser muito novo. Assim estava formada a espinha dorsal da banda que foi referência e fez a diferença nos anos 1990: o Nevermore. O Sanctuary voltaria às atividades em 2014, com o lançamento de “The Year the Sun Died“, o derradeiro dele com a banda.

Em 1991 os ex-integtantes do Sanctuary recrutaram o baterista Mark Arrington e posteriormente, o virtuoso Van Williams e assim Warrel trabalhou nas letras de sua nova banda. Os temas eram diversos e passavam por críticas à religião (“Godmoney“), o direito de cada cidadão de ir e vir (“Inside Four Walls“), críticas ao mercado farmacêutico (“Medicated Nation“), a desordem do mundo (“This Sacrament“) e até mesmo canções de amor, como por exemplo, “The Heart Collector“. Sempre com pensamento crítico, força o ouvinte a exercitar a reflexão com as mensagens que ele deixava em sua obra, atemporal. Em “Dreaming Neon Black“, ele emocionou a todos com sua performance sofrida ao narrar a história de uma jovem que morreu após entrar para uma religião e que fora sua namorada antes do ocorrido. Ele tinha pesadelos onde a moça aparecia sendo afogada e isso lhe inspirou.

Dono de uma técnica vocal invejável, Warrel Dane explorava toda a sua capacidade, fazendo uso inclusive de notas bem altas, algo em torno de 5 e 6 oitavas. Ele era naturalmente um barítono, mas foi desenvolvendo um estilo único que acabou sendo conhecido como profundo e dramático. Ele era muito querido na cena e gente com o gabarito da diva Doro Pesch por exemplo foi uma das pessoas que sentiram muito a sua partida.

Além de David Bowie, Warrel era apreciador de Judas Priest, Black Sabbath, Jefferson Airplane, Simon & Garfunkel, The Beatles e The Doors, enquanto que suas referências vocais eram Rob Halford, Ronnie James Dio, Bruce Dickinson. Ou seja, ele bebeu em ótimas fontes e isso justifica ele ter a relevância que teve nos anos em que esteve ativo. Em 2008, durante uma pausa prolongada do Nevermore, ele lançou seu primeiro disco solo, “Praises to the War Machine“, onde ele mostrou toda a sua versatilidade musical.

Em 2011, quando Jeff Loomis e Van Williams anunciaram suas saídas do Nevermore, a banda encerrou suas atividades e por três anos Warrel se dedicou ao seu restaurante em Seattle, até que ele recebeu convite para tocar as músicas compostas por ele ao longo de sua carreira. O que era para ser apenas uma pequena tour com o objetivo de celebrar uma lenda, acabou dando liga e Warrel fez com os guitarristas Thiago Oliveira e Johnny Moraes, o baixista Fabio Carito e o baterista Marcus Dotta, e todos fizeram uma extensa turnê pela Europa, depois uma nova turnê para celebrar os 15 anos de “Dead Heart In a Dead World“, até que em 2016, eles se juntaram para fazer um disco, que no primeiro momento seria versões Heavy Metal para músicas Pop, Gothic e outras.

Durante o processo de pré-produção, ideias foram surgindo e os planos mudaram. Músicas autorais foram compostas e faltava apenas um aval da Century Media, gravadora com a qual Warrel teve contrato por quase toda sua vida musical e com quem gozava de imenso respeito por parte dos executivos. Com o aval do selo, o que era para ser um disco tributo acabou virando um álbum de músicas autorais. Das músicas previamente selecionadas para entrar no álbum, somente “The Hanging Garden“, do The Cure, acabou entrando no projeto final.

Durante esse período, Warrel se dividia entre seu restaurante, os compromissos com o Sanctuary e o Brasil, pais que ele acabou escolhendo como segunda nação e que o acolheu muito bem. Infelizmente, o tempo não o deixou concluir as gravações de “Shadow Work“: no fatídico dia 13 de dezembro de 2017, ele veio a óbito, vítima de infarto. Ele era diabético e não cuidava bem de sua saúde e vez por outra perdia a consciência. Pouco antes de sua morte, ele deu uma entrevista para um programa de TV e é muito triste ver como nosso vocalista estava frágil. Você pode assistir a entrevista abaixo:

Curiosamente, a data de sua morte é a mesma do seu grande amigo Chuck Schuldiner, que partiu 16 anos antes. Ambos estreitaram seus laços em meados dos anos 1990, quando Nevermore e o Death fizeram uma turnê em conjunto. A amizade foi tão intensa que por muito pouco ambos não trabalharam juntos em um projeto: Chuck o convidou para cantar no Control Denied, porém, os compromissos com o Nevermore, que se tornava grande naquele momento, impediram essa parceria que seria espetacular.

Warrel se foi, mas seus últimos parceiros seguiram gravando e mixando o álbum, que foi lançado postumamente. Os vocais gravados são os da pré-produção . O talento dele era tão enorme que nem parece que o vocal que é encontrado em “Shadow Work” não foi gravado para valer. O resultado é surpreendente e como dizem os músicos, foi a base de sangue, suor e lágrimas. Mais músicas seriam incluídas no álbum, mas Warrel tinha o costume de escrever suas letras já dentro do estúdio, em cima da hora. Foi assim por exemplo, com “The River Dragon Has Come“, do álbum “Dead Heart in a Dead World“. Mas o destino não deixou desta vez.

O legado deste vocalista intenso está ai para que possamos explorar e manter vivo. Seja no Sanctuary, no Nevermore ou na sua carreira solo, a voz e as letras dessa fera são fenomenais. Ele não viveu para presenciar essa pandemia terrível e com sua morte, foi decretado também o final do Nevermore, uma vez que Jeff Loomis declarou acertardamente que não existe como continuar com a banda sem seu vocalista. E antes de partir, ele fez as pazes com seus ex-parceiros, Jeff Loomis e Van Williams, havendo inclusive fortes rumores de que a banda retornaria. Jim Sheppard foi fiel até depois de sua morte. Foi dele a dura tarefa de cuidar dos trâmites burocráticos para liberar e fazer o traslado do corpo para um funeral emocionante, em janeiro de 2018.

Hoje é dia de lembrar com alegria deste que deu uma enorme contribuição para o Heavy Metal moderno. Ele deixou uma legião de fãs órfãos e as saudades são imensas além de eternas. Warrel Dane é uma lenda. E lendas não morrem. Nosso trabalho aqui é manter essas lendas vivas eternamente.