Cracks In The Real, um artista anônimo (real, não feito por AI) chega com seu novo álbum, ‘Alef: A Velvet Shard of Broken Nights End ‘, trazendo o que sabe fazer de melhor: uma mistura visceral de atmosferas sombrias, com toques de misticismo que refletem sua trajetória underground e independente. O disco de 10 faixas mergulha no surrealismo, privilegiando a sugestão em vez da confissão, unindo noise rock, ritmos glitch, bateria progressiva e atmosferas dark ambient com trechos dos textos místicos de São João da Cruz. Um disco obrigatóri9o para entusiastas da música.
A abertura com “Cortege” já mostra suas origens enigmáticas. Um shoegaze experimental sombrio com sentimento profundo, muito semelhante a sons que vão de Dead Can Dance a Godspeed You! Black Emperor. Logo na primeira faixa o artista transmite sua lamúria e dor emocional, onde ele perfura o ouvinte sem dizer uma palavra. O resultado é um labirinto sonoro meticulosamente construído que traça paralelos com as sinfonias românticas do século XIX, mantendo-se rigorosamente experimental., e segundo nota à imprensa, o artista usa o anonimato deliberadamente — para centralizar a obra em si, em vez da personalidade.
Em “Dagaz”, outra faixa de mais de 10 minutos de duração, temos sintetizadores e uma pegada cheia de atitude com um instrumental denso e cinematográfico. Este artista traz uma autenticidade difícil de ignorar. O disco tem variações de sentimento proporcionados apenas pelo instrumental e os sussurros fantasmagóricos discretos – é preciso prestar muita atenção. Nesta canção o clima muda completamente para algo mais industrial com sintetizadores que trazem um ritmo mais pesado.
“Nox Obscura” muda o clima e entrega uma vibe mais lisérgico e introspectivo, uma faixa densa, pesada e hipnotizante que parece flutuar em um mar de reverberação. Nessa, há vocais narrando um trecho da obra de São João da Cruz. Aqui o tom industrial e post rock é mais nítido e combina muito com a arte da capa do disco. Em seguida, “Tsimtzum” mantém o clima introspectivo mas com efeitos mais complexos, algo meio sci-fi, meio Poltergeist, linhas de piano e outros instrumentos pouco convencionais, criando um clima mágico e claro, bem curioso.
“The Mourning Star” traz ritmos mais ousados, pianos mais depressivos e resgata uma pegada old school do post rock sombrio e atmosférico, com uma quebra que entra em um instrumental mais pesado, dignos de trilhas sonoras de filmes de horror – uma faixa muito cinematográfica. “Napalm Skies” resgata batidas mais robustas e densas com riffs discretos e efeitos acompanhados de sussurros assustadores, nos transportando para uma floresta escura deserto, com uma atmosfera angustiante e reflexiva – de arrepiar.
Na seguinte, “This Far (No Further)”, Cracks In The Real explora som mais soturno, onde as batidas se destacam com uma linha minimalista e poderosa. O artista dá um passo criativo e experimental aqui, criando um equilíbrio fascinante, onde sua obra se baseia na interseção entre ruído, misticismo e decadência digital.
“Water Breaking Symmetry” inicia com violinos que arrepiam a espinha e sintetizadores sonhadores, crescendo para um clima de desespero, mais robusto. A ousadia e melancolia nessa obra são fundamentais para o DNA do projeto: O artista trabalha com a alma, instrumentais e produção calculada, permitindo que cada musica soe como um novo capítulo, em vez de uma repetição de uma fórmula fixa.
Simplesmente “Sol”, é a faixa densa e melancólica, trazendo o contraste da luz quente e que não se apaga com o clima dark e frio, com sintetizadores e toda angústia que se espera de uma faixa desse estilo, junto dos tons etéreos, criando uma ambiente cinzento e introspectivo – absolute cinema. A faixa tenta dar contraste à faixa anterior, mas mantém o clima assombroso e misterioso, prendendo o ouvinte e o convidado para desvendar todo esse mistério que o artista proporciona. Não tem como não parar para prestar atenção em cada nota.
Encerrando essa viagem sonora perfeita, temos “Pater Noster”, a faixa mais longa do disco. Ela surge como uma faixa ritualística, cheia de percussões e uma atmosfera tensa, quase uma introdução mística para o disco. Esta última é uma prece sombria, marcada por um som ressonador que parece invocar algo ancestral com sintetizadores que carregam este disco de um jeito depressivo mas satisfatório, em parceria com violinos depressivos. Acho que é a faixa que mais gostei, com batidas e instrumentos ousados.
‘Alef: A Velvet Shard of Broken Nights End’ nos leva a prestar muita atenção na audição, pois não é um disco convencional e previsível. Somos obrigados a ouvir e instigados a identificar cada nota para entender o que o artista quer nos dizer com esse álbum soturno e pouco conclusivo. O projeto trata o álbum inteiro como uma declaração artística unificada, onde cada elemento sonoro serve à visão narrativa mais ampla. Cracks In The Real entrega uma obra que mistura ousadia, melancolia e experimentação, tudo com um toque místico que só ele sabe fazer. Definitivamente, você precisa ouvir esse álbum – mais de uma vez.