Resenhas

Àspero

Dramón

9.0

Destes discos cujo teor ultrapassa as fronteiras da compreensão, que não se limita às sensações tangíveis, ele vai à derme e a rompe, podendo assim transitar livre pelo organismo a procura de veias, artérias, neurônios — descobrindo galerias, ocultando-se entre os tijolos e as camadas do ser; alma e carne, carne e vibração, vibração e descoberta. Nem tudo é belo, nem tudo é medo, nem tudo tem a pretensão de ser perfeito. O que é a perfeição senão mais uma forma de vício? O feio, o inacabado, o rústico, estes atraem, os relevos, as arestas, o áspero, estes tem mais tesouros e mistérios. Nem tudo que nos enamora brilha, nem tudo que desperta o fascínio tem cores. “Àspero” é justamente como descrito, pura e simplesmente, transição. Se cada palavra pode ser um abismo ou uma ilha, no disco em questão, cada tema é um mundo, um ambiente, uma pintura sendo confeccionada — obsidianas silhuetas em movimento numa paisagem que lentamente também se move, se distorce e se fragmenta.

“Àspero” é a primeira manifestação de arte sonora devidamente preenchida do Dramón, projeto do músico carioca Renan Vasconcelos (ex membro da banda de Post-Rock, Avec Silenzi). O músico vive atualmente em São Paulo e a discografia de seu projeto inclui, além do já citado “Àspero”, 04 eps: “Ansiedade Morte” (2018), “Equilíbrio Utopia” (2019), “Oscilar” (2020) e “Bétula // Membrana” que foi lançado em janeiro deste ano, entre os eps está o single “Afã”.

Não espere por fórmulas exatas, leituras pontuadas e musicalidade reta, pois, aqui temos música laboratorial — uma divagação entre o Post-Rock e experimentações eletrônicas. Há diversos recortes e colagens, ruídos, ambientações e ampolas de uma melancolia que ora nos conforta e noutras desconcerta e preocupa. Renan não criou arte seguindo um conceito pré-formulado, tão pouco se sensibilizou para adotar uma linha estética, ele inventou seu próprio modus faciendi e assim, livrou-se das expectativas comuns quanto ao resultado de seu tear artístico. Ouça e sinta — ouça, sinta e interprete como quiser, afinal, a beleza muitas vezes habita no desafio, na ousadia de fazer pensar e não no entendimento pleno da obra.

Um bravo mundo novo nascendo das cinzas de um complexo mundo natimorto. As batidas e construções da faixa título criam um ambiente repleto de tensões, o fluxo aumenta com as guitarras que rompem os primeiros segundos de “Descompasso”; um sistema novo a surgir ou a decadência do obsoleto? De todo modo, acordes surgem em meio aos ruídos e climatizações, mas junto a eles não há resposta alguma, apenas sensações nuas. “Inflexível” é uma viagem pelos mares cósmicos, um voo livre por entre as esferas celestes; tudo é sereno e enigmático, mas sempre obedecendo uma crescente tensão. “Ecos Do Vazio” e “Insônia” seguem com suas texturas e enigmas, os ouvidos se embriagam de sonoridades e cabe a percepção absorver e tentar compreender os ambientes que vão surgindo dentro das mesmas. Um disco sem arestas e sem uniformidades, mas repleto de relevos. Um texto sonoro recheado de parênteses abertos que esperam pelo poder de assimilação do ouvinte para serem fechados. “Àspero” é uma injeção de criatividade, ousadia, acidez e delírios urbanos sendo administrada diretamente na veia. Bom para aquelas horas de solidão, á meia luz, anestesiado e distante da loucura em estéreo do mundo.

Faixas:

  1. Àspero
  2. Vencer O Sol
  3. Descompasso
  4. Inflexível
  5. Ecos Do Vazio
  6. Insônia (com Malni)
  7. Atenção, Atenção!
  8. Pelas Paredes Da Memória

Formação:

Todas as músicas por Renan Vasconcelos, exceto “Insônia” por Malni.

Malni – guitarra, baixo e synths em “Insônia” e baixo em “Áspero”

Felipe Duriez – Voz em Ecos do Vazio

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