Rosetta West voltou e voltou para mais uma aula de classe e presença. Se “Gravity Sessions” foi aquele disco minimalista que você ouvia tomando um café preto numa manhã cinza, “God of the Dead” é a tempestade elétrica que derruba sua xícara na mesa e ainda ri da sua cara. Estamos falando de 15 faixas que, ao invés de entregar um álbum “seguro”, mergulham num caos sonoro controlado, cheio de riffs, grooves e uma estética que flerta com o psicodélico sem medo do exagero.
Logo de cara, “Boneyard Blues” mostra que a banda não tem tempo para sutilezas. É blues, sim, mas é um blues fumando charuto e vestido de couro. A linha de baixo é uma paulada seca, a guitarra cospe timbres sujos e a bateria bate como quem quer acordar o vizinho. Em “Underground”, o clima é quase um stoner alternativo: denso, arrastado e cheio de texturas que grudam no ouvido. A sequência “I Don’t Care” entra com um groove insolente, daquele tipo que te faz balançar a cabeça sem perceber.
A pegada sombria retorna em “Chain Smoke”, carregada de tensão e riffs que soam como fumaça no ar — lenta, venenosa e inevitável. “Town of Tomorrow” puxa para um progressivo torto, quase psicótico, onde cada riff parece uma porta que se abre para um corredor ainda mais estranho. “Susanna Jones, Pt1” vem como um respiro, mas não se engane: é só o silêncio antes do trovão, porque “Tao Teh King” é pura intensidade instrumental, com a banda soando como se estivesse improvisando no olho do furacão.
“My Life” e “Baby Come Home” trazem a vibe 70s, a primeira é o Rock estradeiro sujo e fora da lei e a segunda é o blues melodioso e inebriante, um som acústico puro e lindo! Charmoso e que não se encontra em bandas que jogam pelo seguro. “Summertime” dá continuidade ao momento de alívio, pede um copo de uísque e uma madrugada longa – essa faixa é o puro suco da sensualidade bruta.
“Dead of Night” vem com tudo, mudando o clima, densa e sombria, a faixa parece ter saído de um disco do Blind Faith, um interlúdio leve que nos prepara para uma volta tímida do ritmo. Em “Thorns of Beaty” o grupo traz um piano simples e marcante que toca profundo, quase soando algo do Bad Company, a faixa aqui segue sem muitas variações intencionais, linear e repetitiva, mas ainda, sim, cativante. “Inferno” muda tudo novamente, um interlúdio urgente, atmosférico e misterioso que parece que vai explodir a qualquer momento. E explode, a segunda parte de “Susanna Jones” (Pt2) amarra e marca a volta do country blues raiz – voz, violão e muita emoção – a faixa é pura nostalgia e habilidade, e quando os slides aparecem tudo fica mais raiz!
“Midnight” apaga as luzes e nos deixa com gosto de repetir o disco todo novamente, é como um último gole antes do fim. E um belíssimo. Famoso gole – essa faixa é com total certeza a faixa mais icônica do disco – isso aqui parece ter saído direto de 1970! E você vai concordar!
No fim das contas, “God of the Dead” não é para quem gosta de música “arrumadinha”. É para quem curte discos que sujam as mãos, que te desafiam, que não pedem licença para existir. Se você gosta de Gov’t Mule na ressaca, King Crimson na fase mais doida e um toque de ZZtop chapado, este disco é sua nova onda sonora.