Mortal Prophets chega com seu novo álbum, ‘Hide Inside The Moon’, trazendo o que sabe fazer de melhor: uma mistura visceral de blues rock, psicodélico, dream-pop e atmosferas eletrônicas sombrias, com toques de misticismo que refletem sua trajetória underground e independente. O disco de 16 faixas mergulha na poesia romântica, no misticismo e no surrealismo beat, privilegiando a sugestão em vez da confissão, aproveitando experiências pessoais para criar uma coleção profundamente ressonante de músicas. E este álbum é mais um passo firme na jornada sonora de John Beckmann, idealizador do projeto, que adiciona um toque pessoal a cada faixa, tornando este álbum imperdível para os entusiastas da música.
A abertura com “Mad Girl’s Love Song”, com participação de Sylvia Plath, já mostra suas origens enigmáticas. Um dream pop sombrio com sentimento profundo, muito semelhante a sons que vão de Cocteau Twins a Lana del Rey. Logo na primeira faixa o artista transmite sua lamúria e dor emocional, onde ele perfura o ouvinte. Vale lembrar que a formação de Beckmann em artes visuais e design molda a sensibilidade cinematográfica da música: as canções se desenrolam como cenas encenadas, com imagens de desertos, cidades neon e espaços oníricos liminares, conferindo aos discos um apelo narrativo distinto.
Em “Eyes In The Sky” temos guitarra de ndie rock, sintetizadores e uma pegada cheia de atitude com um instrumental mais animado e dançante. Os vocais descolados e inspirados nos anos 90 trazem uma autenticidade difícil de ignorar. O disco tem variações de sentimento, na versão de “Blue Velvet”, clássico do Bobby Vinton, o clima muda completamente para algo mais lisérgico e introspectivo, uma faixa lenta e hipnotizante que parece flutuar em um mar de reverberação. Em seguida, “My Future Past” mantém o clima introspectivo mas com reverberação nas vozes, linhas de violão, flautas, gaita e outros instrumentos pouco convencionais, criando um clima mágico e claro, bem inspirado em The Beatles.
“Desert Of No End (Cy Twombly)” traz ritmos mais ousados, instrumentos regionais e uma pegada totalmente diferente de todo o álbum. “Hide Inside The Moon” resgata uma pegada old school do post punk sombrio e atmosférico, com vocais em coral, dignos de trilhas sonoras de filmes de horror – uma faixa muito cinematográfica. “Devil Doll” resgata rock com um violão robusto e denso e riffs de guitarra despojados que faz qualquer um bater o pé no chão ao ritmo da batida, um hit roqueiro de primeira linha que lembra o souther rock. Já “I Forgot I Love You” nos transporta para o deserto, com uma atmosfera angustiante e reflexiva, com linhas de violão do folk, com backing vocals de arrepiar. É uma faixa que quase podemos ver o sol poente em tons laranja enquanto a melodia se estende no horizonte.
Na seguinte, “I Am A Hermit”, com Kenneth Anger, Mortal Prophets explora som mais soturno, onde os riffs característicos do rock dos anos 90 se destaca com uma linha minimalista e poderosa. O artista dá um passo criativo e experimental aqui, criando um equilíbrio fascinante, totalmente inspirados nos hits da época. ” Good Karma” inicia com sussurros e sintetizadores sonhadores. A colaboração nessa obra é fundamental para o DNA do projeto: Beckmann trabalha com uma constelação rotativa de vocalistas, instrumentistas e produtores, permitindo que cada lançamento soe como um novo capítulo, em vez de uma repetição de uma fórmula fixa.
“Not By Light Nor By Flame” é denso e melancólico, trazendo o dark, com sibntetizadores e toda angústia que se espera de uma faixa desse estilo, junto dos vocais etéreos, criando uma ambiente cinzento e introspectivo – perfeita para fãs de post punk. Em seguida, “Through Colors” tenta dar contraste à faixa anterior, mas mantém o clima assombroso e misterioso, prendendo o ouvinte e o convidado para desvendar todo esse mistério que o artista proporciona.
“ I’m Her Honey” surge como uma faixa ritualística, cheia de percussões e uma atmosfera tensa, quase uma introdução mística para “Fight Beneath The Stairs”. Esta última é uma prece sombria, marcada por um som ressonador que parece invocar algo ancestral com vocais maravilhosos que carregam este disco de um jeito depressivo mas satisfatório. “Gertrude Stein, com Mina Loy, retorna ao cinzento, lembrando as faixas iniciais do álbum e preparando o terreno para o fechamento. Aqui sentimos a energia do inverno, com um instrumental mais acústico e que lembra tons etéreos de Dead Can Dance, emocionante. Acho que é a faixa que mais gostei, com batidas e instrumentos ousados.
Encerrando essa viagem sonora perfeita, temos “Twilight’s Last Embrace”. Aqui, The Mortal Prophets nos leva de volta ao ethereal rock, elegante e nostálgica, que encerra o álbum com um toque soturno e conclusivo. The Mortal Prophets entrega uma obra que mistura ousadia, melancolia e experimentação, tudo com um toque místico que só eles sabem fazer. Definitivamente, você precisa ouvir esse álbum – mais de uma vez.