Resenhas

Our Darkest Home

Beholder's Cult

8.5

Quase quatro anos se alongam entre “Cult Of Solitude” — a primogênita página discográfica dos brasilienses do Beholder's Cult e “Our Darkest Home”, o seu primeiro capitulo sonoro completo. Quatro longos anos de espera que serviram como um período para amadurecer ideias e conceitos, para dar formas e corpos sólidos aos pensamentos musicais da banda. Uma longa espera, comum talvez, se considerarmos todos as inúmeras revezes que habitam o dito cenário Underground. Como se não bastasse, ainda tivemos a pandemia quase eterna e persistente chamada Covid-19, os incontáveis infortúnios e transtornos causados por ela; vidas ceifadas, incertezas, planos, projetos e sonhos que foram adiados ou que não tiveram tempo de tornarem-se concretos. Enfim, voltemos à música, nosso único conforto nesses dias longos de pouca luz, calor e ralas esperanças.

As influências que antes vinham à superfície do trabalho desenvolvido pelo quarteto foram melhor equilibradas e diluídas, os ecos de Tiamat, Lake Of Tears, Katatonia e da tríade britânica ainda existem, mas estão cada vez mais longínquos e sem tantas pronúncias. Com menos elementos externos em sua paisagem musical, coube à banda criar sua própria tela, valendo-se de sua própria paleta de cores e inspiração. Ao fim da pintura percebemos que as pinceladas ainda exibem resquícios de outras escolas e décadas, mas a assinatura está cada vez mais definida e texturizada.

A moldura que envolve a já citada pintura é criação de Zakuro Aoyama — minimalista, mas profunda, sóbria e interpretativa. A própria banda zelou pela produção. Quanto aos detalhes — aparas e acertos, eles ficaram a cargo de Rafael Giraldi e Victor Hormidas. Aliás, cabe dizer que tanto a mixagem quanto a  masterização são surpreendentes; as composições ficaram ainda mais orgânicas, volumosas e fluidas; um trabalho realmente distintivo, que soube como assinalar cada uma das qualidades dos respectivos músicos e seus instrumentos. Basta ouvir as belíssimas trilhas de teclado de Pedro Paes; as linhas suntuosas de baixo criadas por Luciano Dias e também os riffs e melodias tão metodicamente redigidos pelo guitarrista e também vocalista Felipe Stock. Saindo do ateliê, vamos enfim à obra.

“Samsara” é a faixa incumbida de criar toda a ambientação do disco, que apesar de não ser de todo conceitual, baseia-se na ideia da vida como sendo uma longa e árdua jornada sob um sol impiedoso — jornada essa que inicia-se na noite e na mesma finda-se, tal qual a vida, essa jornada é permeada por momentos, por significâncias e transições: nascer e morrer; o trajeto entre ambos. Adornada por sons ambientais, a faixa é um pseudo instrumental que vai dilatando-se em sutis linhas de guitarra, belos discorreres de teclados, bateria mezzo tribal e vozes femininas belíssimas. “Shadows”, a composição seguinte, é a melancolia em trajes elegantes; bateria e baixo bem sublinhados, Felipe Stock seguro tanto em seus vocais quanto em seus dotes guitarrísticos e os teclados a tecer a alma que habita sob a pele e carne do tema. “Starry Queen” e “Crestfallen” são temas que nos rendem frente à sua beleza e seus tantos contrastes. A primeira citada é abrilhantada pelos vocais impecáveis de Marcela Dourado (que cedeu seus predicados também a já citada, “Samsara”, e mais a frente volta a brilhar na magnífica, “Ivory Tower”), quanto a segunda, a mesma conta com os vocais de Zé Misanthrope e também com um belo solo de guitarra de Lucas Guimarães. “Conceiving Silence” é o Beholder’s Cult em seu habitat — transitando com desenvoltura entre o Doom, o Gothic Rock/Metal e o Post-Punk.

O interlúdio “Whispers Of Dusk” nos prepara para configuração final do disco, composta por “Weight Of The Sun” e as épicas: “Ivory Tower” e “Empty Inside”. A primeira é totalmente carregada por aquele sentimento Doom noventista; atmosférica, densa e agridoce — podendo desde já ser tomada por um hino da banda, tanto que fez parte da coletânea “Brazilian Doom Metal” (Pagan Tales Records). Quanto às duas seguintes, bem, estas são duas suítes onde o quarteto explora todas as suas qualidades e inspirações. Aos entalhes de beleza, citanto “Ivory Tower”, temos seu impecável arranjo vocal e também o magistral solo de guitarra — devidamente creditado a Victor Hormidas. “Empty Inside” é pontuada por uma dose extra de ousadia, Doom, Post-Punk e até mesmo Shoegaze e Depressive Rock habitam sem atritos na mesma estrutura sonora.

Considerações finais: “Our Darkest Home” é mais um passo do Beholder’s Cult rumo à sua própria identidade — uma essência em construção. Um disco equilibrado, potente, honesto e portador de uma balsâmico raro nestes dias, alma. Possui alguns poucos defeitos, mas todos eles se tornam irrelevantes perante a carga emocional  e argumentativa que o trabalho entrega em seus 09 temas. Uma audição prazerosa, evocativa e imersiva — um disco de dicotomias: luzes e sombras, calmarias e tempestades, nostalgia e regozijo. O prefácio das noites, seu amadurecer e seus epílogos pedem por uma audição como essa.

Faixas:

  1. Samsara (02:59)
  2. Shadows (05:45)
  3. Starry Queen (05.49)
  4. Crestfallen (05:05)
  5. Conceiving Silence (05:29)
  6. Whispers of Dusk (02:05)
  7. Weight of the Sun (05:17)
  8. Ivory Tower (08:03)
  9. Empty Inside (08:22)

 

Formação: 

Felipe Stock (vocal/guitarra)
Luciano Dias (Baixo)
Pedro Paes (Teclado)
Rafael Giraldi (Bateria)

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