Resenhas

Senjutsu

Iron Maiden

7.5

Após a surpresa e muita expectativa temos um novo álbum da Donzela Sagrada do Metal e as surpresas continuam, para o bem e para o mal, com muitas experimentações, até mesmo na produção e com isso temos um álbum singular em vários aspectos.

É inevitável. A cada anúncio de um novo álbum fico ansioso, sempre esperando um melhor que o anterior, como foi na década de 80. Até 7th Son of a 7th Son, claro. A sequência desde The Number of the Beast foi irretocável, gerando clássicos e estabelecendo os alicerces do Heavy Metal tradicional. Meu primeiro contato foi com a transmissão do primeiro Rock in Rio, mas me tornei um grande fã em 1990, podendo ouvir álbuns inteiros ao invés de apenas algumas músicas em fitas cassete.
Ao se estabelecer como a grande, talvez maior, banda do gênero, começaram as experiências, uma tentativa de um som cru com No Prayer for the Dying, Bruce experimentando estilos diferentes em Fear of the Dark e claro, a grande experiência com Blaze Bayley em X-Factor e Virtual XI, que para mim envelheceram muito bem, por sinal.
Após a volta de Adrian Smith e Bruce Dickinson tivemos o espetacular Brave New World, voltando aos primórdios em alguns pontos e estabelecendo novos rumos musicais que a banda assumiria dali em diante
Desde então os álbuns são bem irregulares com uma outra faixa de destaque, sem muito brilho como uma obra completa, com exceção de Book of Souls, no qual também fazem experiências e me agrada muito como um todo.
Algo que nunca pudemos reclamar é da produção da banda, sempre magistral e impecável, limpa, definida, espetacularmente mixada e masterizada em todos os álbuns.
Então chegamos ao surpreendente Senjutsu. Surpreendente em alguns aspectos: estava em segredo desde 2019, o tema japonês, assim como a arte (simples) da capa sem conexão com o clip do primeiro single e após a audição, a qualidade da produção. Sim, a qualidade é surpreendente, mas de forma negativa, com os instrumentos embolados e com Bruce soando ininteligível em algumas passagens. Lembrei até mesmo de British Lion, banda paralela de Steve Harris, com produção preguiçosa, o que não condiz com sua fama de perfeccionista, comprovada por toda sua obra passada.
A faixa de abertura, que dá nome ao álbum, destoa completamente do que estamos acostumados, apesar do trabalho do Nicko em nos remeter á uma atmosfera japonesa e seus tambores, é muito cadenciada e num ritmo que não empolga. O refrão é bom e pode até grudar um pouco, mas ela ficaria facilmente do meio para o final em outros tempos.
Em seguida, continuando a temática belicosa, temos Stratego, segundo single e com uma levada mais cavalgada, lembrando alguns clássicos, que até poderia ser a faixa de abertura por ser mais rápida e direta, com solos mais definidos e empolgantes.
Chegamos ao primeiro single e primeiro clip, diferente de tudo que já vimos da banda, sendo em animação, inclusive com os ex-Pixar Andrew Gordon e Mark Andrews no comando e com um trabalho espetacular. A música passeia pelo country e hard rock, até mesmo lembrando Bon Jovi, Mr. Big e Gotthard em alguns trechos, sendo uma experimentação bem-sucedida e talvez minha preferida do álbum, com solos reconhecíveis e dentro do que espera do trio de guitarristas, além do refrão grudento e delicioso de cantar aos berros juntos com Bruce. O título Writing on the Wall e o clip nos remetem aos poderosos, seus abusos e como devem ser cobrados por isso, assim como na história bíblica de Belsazar, que abusou de seus poderes e foi divinamente cobrado por isso quase que imediatamente. Oremos!
Lost in a Lost World começa lenta, com violão na base, usando alguns efeitos de voz de resultado questionável e num ritmo lento, por mais tempo do que eu gostaria, quando entra o peso esperamos ela melhora e lembra algumas passagens de X Factor e Brave New World, mas o título da música define bem o meu sentimento sobre a inspiração dos músicos, pois é pouco original, sem brilho e também não empolga, parecendo uma colcha de retalhos de trabalhos anteriores com efeitos diferentes na voz e nos solos. No final em Bruce “recita” os últimos versos ela melhora, tanto o vocal mais limpo e as guitarras acompanhando ajudam a faixa a não se perder. A letra, como Harris costuma fazer, questiona o sentido da vida, o valor de possuir coisas e o desprezo pelo legado deixado pelos ancestrais, até onde tudo vale a pena?
Quando vi Days of Future Past, como um bom nerd, já me empolguei! Será que citariam os X-Men? Se baseariam nos mutantes para contar uma história? Não! Isso é um problema? Também não! Uma das que gostei pela velocidade, letra e instrumental com a assinatura de Adrian Smith nas bases, facilmente reconhecível e que lembra alguns trabalhos da carreira solo de Bruce Dickinson. Como tema do disco a guerra é citada, mas agora de uma forma mais mística, envolvendo pecado e redenção e a confusão gerada por isso.
The Time Machine também começa em um ritmo lento, nada inspirado, e quando as guitarras entram com o peso ela fica previsível e repetitiva até os 3 minutos e 30 segundos e daí para frente melhora, cavalga e dá um gostinho do que esperamos de Maiden, mas também requentando lembranças de outros trabalhos da banda, os solos, pelo menos são deliciosos e inspirados, assim como o refrão ficará na lembrança como uma boa parte da música, que em primeira pessoa conta o que o dono de uma máquina do tempo já viu e viveu.
Mais uma vez falando de lutas, guerras e suas consequências, Darkest Hour é lenta na medida certa, sem ser arrastada, muito pelo contrário, também mostrando um dos melhores resultados do álbum e da parceria Smith/Dickinson, com um solo magistral, belo instrumental e, ufa, vocais inteligíveis, claros.
Em Death of the Celts Harris inicia tocando um baixolão, como sempre usando o “quadrado de Harris”, sua tradicional escala de notas e acordes, remetendo à The Clansman, ou seja, introdução para uma música que conta uma história épica de luta, bastante longa e experimental, baixo na medida certa, sem sobrepor as guitarras, que fazem um ótimo trabalho, algumas vezes com o baixo seguindo a melodia, letra inspirada, melodia não previsível, mas ainda assim com algumas repetições desnecessárias, mas com ótimos solos.
The Parchment é claramente mais uma experimentação pelo progressivo, com uma introdução sombria de mais de um minuto. O restante também poderia ser resumido, apesar dos bons solos e linha vocal bem definida, sombria na medida e falando de vingança, autocontrole e consequências da guerra. A parte final muda, fica mais rápida e empolgante com solos bem definidos de cada guitarrista, cada um com sua assinatura melódica e Harris viajando com o baixo e acompanhando as guitarras.
Fechando o álbum com Hell on Earth também podemos perceber a experimentação, mas de uma forma mais próxima da essência da banda, uma ótima música com a inspiração (pós 2000) já conhecida de Steve Harris, com boas levadas, ótima letra sobre os conflitos, suas injustiças e como transformam nosso mundo num inferno, ceifando os mais vulneráveis e alimentando os poderosos, que festejam sobre sangue e concluído sobre como o ódio permeia o ser humano.

Formação:
Steve Harris – Baixo
Dave Murray – Guitarra
Adrian Smith – Guitarra
Bruce Dickinson – Vocal
Nicko McBrain – Bateria
Janick Gers – Guitarra

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