Resenhas

Unleeched

Claustrofobia

9.5

Em tempos de guerra no leste europeu, o Claustrofobia nos brinda com Unleeched, uma verdadeira artilharia dessa banda que disputa cabeça e cabeça com o Korzus pelo título de melhor banda de Thrash Metal brasileiro da atualidade.

Quase seis anos depois, finalmente o Claustrofobia faz seu novo álbum ver a luz do dia. Estamos diante do álbum de número sete da discografia do agora power-trio da cidade de Leme, interior de São Paulo e agora radicado em Las Vegas, Nevada, e certamente é um dos lançamentos mais esperados do ano.

O Power-Trio já pode ser chamado de veterano na cena. Formada em 1994, a banda foi melhorando disco após disco, tendo em “Peste” (2011) o seu ponto alto. “Download Hatred“, o álbum que está entre “Peste” e este que acaba de ser lançado, tem seus bons momentos, mas “Unleeched” é infinitamente superior que seu antecessor.

Ao longo destes longos seis anos, enquanto o novo play não saia, a banda soltou um EP, o excelente “Swamp Loco” (2018), além de singles como “Vira Lata” (2019) e “Riff Cult” (2021), mas infelizmente, nenhuma dessas faixas foram aproveitadas neste novo play. Além disso, a banda viveu grandes momentos nos palcos, como por exemplo, sendo escolhida como a banda de abertura do show do Slayer em São Paulo, em 2019, quando esta realizou a sua turnê de despedida, além de ser uma das atrações do palco Sunset da última edição do Rock in Rio, também em 2019, quando tocou com o mesmo Slayer, Anthrax, e ainda dividiu o palco em uma jam memorável com o Torture Squad e Chuck Billy, lendário vocalista do Testament. Os caras estavam (e ainda estão) na crista da onda e isso deu o ânimo que eles precisavam para tentar uma carreira no exterior.

Assim sendo, eles foram trilhando o caminho que foi aberto pelo Sepultura dos Cavaleras há mais de 30 anos atrás, os irmãos Marcos e Caio D’Ângelo, tendo a companhia do baixista Rafael Yamada, que faz sua estréia em um disco de carreira do Claustrofobia, a banda foi em busca do mercado mundial, visto que no Brasil o Heavy Metal é por vezes preterido em razão de outras músicas de gosto pra lá de duvidoso, onde o que se importa é rebolar a bunda (o próprio Claustrofobia já cantava em “Bastardos do Brasil“, do álbum “Peste“, os versos inteligentes que dizem:  “O futuro não se resume no rabo de uma mulher.”

Em agosto de 2020 o trio se reuniu no “Northwood Sound Studios“, em Los Angeles, Califórnia, na companhia do produtor Adair Daufenbach, tendo a banda atuado na produção. Adair também assina a mixagem e masterização do play, que será lançado pela Metal Massacre Records em CD e nas plataformas digitais. Vamos botar a pequena bolacha para rolar e conferir de que maneira estes brazucas assombram o mundo.

Stronger Than Fight” começa arrasadora, violenta, trazendo um peso absurdo para uma banda que estréia em um full-lenght com uma guitarra só. Quem viu o Claustro ao vivo de 2019 para cá pode entender o que eu afirmo aqui, a banda está muito mais brutal. E essa faixa de abertura mistura bem a velocidade do Thrash Metal com o Groove, fazendo a banda flertar de maneira intensa com o Sludge/ Djent . Melhor início não poderia haver.

The Encrypted“, a faixa de número dois dá sequência ao massacre sonoro, sendo essa uma música mais arrastada, com muito peso e entradas de riffs mais rápidos aqui e acolá. Marcos D’Ângelo está realmente inspirado, com ótimas ideias e, guardadas as proporções, lembra o velho Max Cavalera, na capacidade de criar excelentes riffs. E quem diria, o Claustrofobia iria criar uma música com refrão grudento.

Neuro Massacre” é a mais curta do play, com menos de três minutos e é pancadaria total em sua maior parte, que com certeza vai gerar um moshpit insano. No final, os caras tiram o pé da velocidade e colocam um ritmo mais cadenciado, privilegiando o Groove. Coisa linda de se escutar. “Psychosapiens” é arrastadona, muito pesada e faz a banda soar Metalcore, principalmente no solo, que pode ter sido inspirado pelas terras californianas onde eles registraram esse perardo. Uma das minhas preferidas de todo o play, bem legal ver o Claustrofobia sair um pouco de sua zona de conforto e se dar bem na empreitada.

Corrupted Self” foi o primeiro single lançado pela banda, em janeiro e é uma das músicas mais versáteis de toda a carreira da banda, onde eles alternam partes mais arrastadas com outras velozes, namorando com o Death Metal. Aqui temos a participação de Marc Rizzo gravando o solo, ele que por anos foi o guitarrista que ajudou a alavancar tanto o Soulfly quanto o Cavalera’s Conspiracy.  Não seria uma má ideia se a banda o convidasse para ser o segundo guitarrista. Baita sonzeira que já era de conhecimento geral, pois foi lançada previamente como single.

Já estamos na metade do play e chega a faixa título, onde a brutalidade segue em voga e a música se destaca pela máquina de riffs que se transformou Marcos D’Ângelo. Em “Snake Head” temos uma mistura do Thrash Metal mais brutal com partes mais modernas, típicas do Metalcore praticado nos Estados Unidos, só que com o selo de qualidade do Claustrofobia e made in Brazil.

Crawling Back to Yourself” é bem raivosa, tanto na parte mais cadenciada, quanto na parte mais rápida, que é bem breve, mas o Death Metal aparece e dá o ar de sua graça. A grande surpresa se dá na última faixa, “2020 (March to Glory)” onde os caras se arriscam na World Music. Mas isso não é de causar espanto, pois eles já incorporaram elementos como bateria de escola de samba, por exemplo. A música em questão, embora não comprometa, meio que destoa das anteriores.

São 33 minutos,  tempo de um álbum de Punk, onde percebemos muita fúria e a constatação  do quanto fez bem a ida da banda para os Estados Unidos. Dificilmente será superado por algum outro lançamento a nível Brasil (e deve figurar entre os melhores do mundo) como o melhor de 2022, ainda que seja muito cedo para cravar tal afirmação. Mas o Claustrofobia tem “sangue no olho” e eles seguem sendo fiéis a sua sonoridade brutal, ficando cada vez mais pesados. É o Brasil fazendo bonito mais uma vez mundo afora e mostrando um disco quase perfeito.

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