Resenhas

Violence Unimagined

Cannibal Corpse

9.0

O Cannibal Corpse não costuma ficar muito tempo sem lançar álbuns. Os três primeiros registros da banda foram lançados em três anos seguidos. Entretanto, Violence Unimagined é o ponto fora da curva, pois o hiato desta vez foi o maior entre todos os discos da carreira do quinteto: foram quase quatro anos. Enfim, a espera acabou.

Não dá para reclamar dessa demora, ainda que tenha gerado uma grande ansiedade, pois a banda enfrentou problemas com o agora ex-guitarrista Pat O’Brien, além da maldita e interminável pandemia do novo Coronavirus, que, como sabemos, paralisou todos os setores da nossa sociedade, impedindo as bandas de tocarem ao vivo. Então, restou ao quinteto radicado em Tampa, Florida, nos brindar com uma nova obra.

O mais recente lançamento não se trata de uma obra qualquer: é o 15° álbum da carreira dos caras. Um número histórico, de um quinteto com poucas mudanças em seu lineup, a maioria delas, no posto de guitarrista, que sofreu nova, nem tão nova assim, mudança, pois o parceiro de longa data, Erik Rutan, outrora produtor, assumiu de vez a vaga deixada por Pat O’Brien, depois de todo aquele papelão que ele provocou na sua casa e nos vizinhos. Rutan acumula agora as atividades com sua banda original, o Hate Eternal e aqui teremos a oportunidade de analisar seu trabalho nas músicas inéditas do Cannibal Corpse, lançado mais uma vez pela Metal Blade Records, a parceira de sempre da banda. Aqui no Brasil, o play sairá pela Xaninho Discos.

“Violence Unimagined” faz jus ao título que lhe foi dado, não só pelas composições, extremamente agressivas, mas também pelos títulos das músicas: não é novidade o Cannibal Corpse escolher títulos que costumamos escutar no IML ou em filmes de terror Trash. Quem conhece a banda, ou fica estarrecido ou morre de rir de temas com títulos tipo “Eu G*zo Sangue” (“I Cum Blood”), “Fo**da com uma Faca” (“Fucked With a Knife”), “Galeria de Suicidas” (“Gallery of Suicide”) ou “Orgasmo sob Tortura” (“Orgasm Through Torture”). Eu pertenço ao grupo dos que riem destes temas, porque são tão surreais que não me causam outro sentimento a não ser gargalhar. Mas aqui os temas estão mais sombrios como “Fúria Assassina”, “Serrado Lentamente” ou “Cerque, Mate, Devore”, só para o leitor ter uma ideia de que a violência aqui é de fato inimaginável. Para quem curte filme de terror em forma de Death Metal, é um prato cheio.

Assim sendo, o quinteto retornou ao estúdio “Mana Recording”, em St. Petersburg, na Flórida, o mesmo local onde o antecessor, “Red Before Black”, foi gravado. Desta feita, o local foi utilizado também para a mixagem. Vamos analisar faixa a faixa deste que, se não é dos mais esperados, certamente é um dos mais aguardados discos deste 2021 de pandenia.

A bolacha abre com uma pedrada na orelha, que atende pelo nome de “Murderous Rampage”, segundo single, uma música que vai intercalando partes rápidas e cadenciadas, sempre com a banda optando pelas composições complexas e também com muita rispidez e violência características do Cannibal Corpse. E parece que essa pandemia fez muito bem aos caras, pois eles voltaram ainda mais furiosos. “Necrogenic Resurrection” é a prova disso, outra faixa monstruosa e que traz a tona toda a ira guardada dentro da banda durante este último ano em que todos nós tivemos de paralisar as nossas atividades. Uma música brutal e linda, com uns riffs que chegam a lembrar um pouco o Napalm Death.

O caos está apenas começando e a faixa de número três também já era conhecida do público, trata-se de “Inhuman Harvest”, que foi single. Com riffs agressivos, porém bem mais arrastados, essa faixa acaba sendo ainda mais brutal. É uma faixa para você banguear no meio da sala com o volume no talo ou então, quando os shows voltarem a acontecer, você se posicionar ali no gargarejo, de preferência do lado dos PA’s e ali ficar sem pensar no amanhã, exercitando seu pescoço. O solo, muito bem elaborado, é o que se destaca.

“Condemnation Contagion” mantém a pegada mais arrastadona da faixa anterior, onde os riffs cavalgados ditam os rumos das coisas por aqui. No meio, a coisa ameaça ficar mais veloz, mas acaba sendo um breve flerte. As guitarras optam em seguir um caminho mais arrastado e não menos brutal. Com direito até a um solo melódico. Sim, caro leitor, você não leu errado. O solo tem ceta melodia, enquanto o riff brutal o acompanha. “Surround, Kill, Devour” é uma faixa que faz o Cannibal Corpse se aventurar por uma faixa não tão rápida, mas bastante divertida. E com um refrão que gruda na cabeça, como fazem as bandas de Hard Rock.

“Ritual Annihilation” é agressividade crua, onde eles começam à velocidade da luz e devagarinho vão tirando o pé do acelerador, para encerrar com total velocidade. Follow the Blood começa arrastada, ganha um pouco de velocidade no meio e assim os caras vão intercalando essas duas partes e um belo solo no meio. E estava demorando aparecer Alex Webster, o mestre das cinco cordas. Ele dá o ar da graça incluindo uma escala diferenciada no meio de tanta violência sonora.

“Bound and Burned” aposta na mesma fórmula da faixa anterior: um som com uma pegada mais arrastada no início e que vai acelerando e diminuindo o andamento, com um solo simplesmente hipnotizante. “Slowly Sawn” é tão arrastada que faz o Cannibal Corpse soar quase que como Doom Metal. Podemos dizer que é um Doom extremamente técnico, com ótimas linhas de guitarras, que têm tudo a ver com o tema da música, a impressão que se tem é que há alguém de fato sendo serrado lentamente. Excelente.

“Overtorture” é um espasmo do Cannibal Corpse rápido e extremo ao qual estamos acostumados. A faixa mais veloz do play é também a mais curta. Aqui o ouvinte que é fã do bate-estaca da banda vai de fato gostar. É outra faixa que destaco entre as melhores desta bolacha, se é que essa tarefa é possível. Quem se destaca aqui é o baterista Paul Mazurkiewicz, com seus blastbeats. “Cerements of the Flayed” é a faixa derradeira. Extremamente trabalhada, com riffs altamente complexos, mostra que a banda foi completamente exitosa em sua nova empreitada. Aqui no solo, a velocidade entra com força total e com certeza vai gerar um moshpit pra lá de bom (e violento), ainda que por breves segundos.

Em 42 minutos o que podemos perceber é um Cannibal Corpse mais maduro, que praticamente abandonou as composições rápidas como em outros tempos, para apostar em temas mais arrastados, privilegiando os riffs pesados. Obviamente que não vai agradar à todos, certamente haverá o fã Old-School que vai torcer o nariz. Fato é que a banda fez um trabalho fantástico e entregou o que de melhor ela poderia. Erik Rutan fez um ótimo trabalho na guitarra, mas eu confesso sentir falta das ideias de Pat O’Brien, ao qual nos acostumamos e que em minha modesta opinião, foi o grande responsável pela mudança que a banda passou a demonstrar, sobretudo nos anos 2000, quando se tornou ainda mais técnica. Mas a vibe da banda agora é outra e os caras estão de volta, mais lentos e muito mais letais, brutais e certeiros. Se “Violence Unimagined” será um clássico, só o futuro dirá, mas com certeza nasceu um dos melhores discos do ano, ainda que seja cedo para tal afirmação.

Faixas:

01 – Murderous Rampage
02 – Necrogenic Resurrection
03 – Inhumane Harvest
04 – Comdemnation Contagion
05 – Surround Kill, Devour
06 – Ritual Annihilation
07 – Follow the Blood
08 – Bound and Burned
09 – Slowly Sawn
10 – Overtorture
11 – Cerements of the Flayed

Formação:

George “Corpsegrinder” Fischer – vocal
Alex Webster – baixo
Rob Barrett – guitarra
Erik Rutan – guitarra
Paul Mazurkiewicz – bateria

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