The House Flies emerge com seu novo álbum ‘Lions and Ore’, trazendo uma sonoridade crua e autêntica do post punk, que vai agradar especialmente os fãs do estilo mais tradicional até os mais moderno do gênero. The House Fliesc encontra um caminho para trabalhar a melancolia sem depender exclusivamente de guitarras pesadas e atmosferas sombrias, e combina suas diversas influências dos anos 90 em um som dinâmico e explosivo e entrega uma performance densa e melancólica em todas as 7 faixas do disco. Com uma combinação engenhosa de passagens que atravessam pós-punk, gothic rock, shoegaze e grunge, cada faixa deste álbum mergulha o ouvinte em um mundo exuberante e sombrio, repleto de inquietação. O álbum prova a capacidade do The House Fliesc de equilibrar emoção e energia, criando um registro coeso e dinâmico.
Gravado no porão de Riggen, o trabalho mantém uma sonoridade próxima e intimista, mesmo quando os arranjos crescem e ocupam mais espaço. Há também uma identidade visual e temática ligada a campos, casas, paisagens rurais, calor e lugares abandonados, imagens que dão ao repertório uma unidade própria. E a banda já prova isso na primeira música, “Goodnight, Goodnight, Lover Dear”, uma abertura de maneira discreta, com vocais suaves e guitarras que parecem surgir de um ambiente distante. Aos poucos, a composição ganha corpo, deixando as influências de gothic rock e grunge aparecerem em riffs mais encorpados. O contraste entre os versos atmosféricos e as partes mais pesadas estabelece a dinâmica que acompanha boa parte do álbum. É uma introdução que exige paciência, mas consegue despertar curiosidade sobre os caminhos que virão. Um começo nostálgico para os amantes do gênero dos anos 90 – com vocais semelhantes aos de Billy Corgan.
O disco já mostra variações de ambiente na segunda faixa “Lost Literature”. Aqui, o The House Flies apresenta seu lado mais melódico e acessível. Uma linha de baixo conduz a música, enquanto a bateria trabalha com uma pulsação mais acelerada, próxima do pós-punk clássico. Os sintetizadores acrescentam uma camada de dream pop e darkwave, criando um contraste interessante com as guitarras distorcidas e as harmonias vocais. O resultado tem um balanço envolvente, com uma melodia que permanece na cabeça mesmo depois do término da faixa. É um dos momentos mais imediatos do disco, nostálgicos e perfeitos para a pista de dança – é a faixa que mais gostei.
Seguindo com “Derelict Crawl”, a música aposta na repetição como principal recurso de construção. O refrão em torno de “We don’t belong” ganha um caráter quase hipnótico, enquanto as guitarras começam contidas e terminam em uma explosão de distorção. A base rítmica mantém uma condução firme, dando sustentação ao crescimento da composição. A faixa representa bem a combinação de shoegaze e grunge que caracteriza o lado mais pesado do grupo, embora a insistência no mesmo motivo possa exigir mais paciência de alguns ouvintes.
“Snakes and Toads” mantém a intensidade mas o ritmo desacelera e a atmosfera fica ainda mais carregada. Guitarras com bastante reverberação, linhas de baixo detalhadas e uma bateria que trabalha com andamento mais arrastado criam uma composição de caráter quase psicodélico. As imagens de animais e elementos devocionais presentes na temática combinam com a sonoridade, que alterna passagens tranquilas e momentos de maior pressão instrumental. É uma das faixas em que a nova formação demonstra melhor aproveitamento das duas guitarras.
Há muita técnica no som da banda, sendo notável em “Count Us Down”. A quinta composição leva o álbum para um território mais eletrônico. Camadas de sintetizadores, texturas ambientais e elementos de dream pop convivem com guitarras distorcidas e uma base rítmica discreta. Em vez de buscar um refrão explosivo, a música se desenvolve pela repetição e pela criação de um ambiente sonoro que parece suspenso no tempo – Aqui já o momento de se apaixonar pela banda e colocar esse disco nos favortos da playlist.
Depois da viagem atmosférica anterior, o grupo retorna a uma estrutura mais direta com “Shelter Me”, apoiada em elementos de pós-punk e gothic rock. O baixo ganha presença e conduz boa parte da composição, enquanto as guitarras criam uma camada melancólica ao redor dos vocais. A música trabalha com uma sensação de recolhimento, mas existe uma mensagem de recomeço por trás dessa aparente vulnerabilidade.
Encerrando essa obra maravilhosa, “The Glass, The Orchard” com pouco mais de nove minutos, o encerramento é também a composição mais extensa do álbum. A introdução contemplativa abre espaço para guitarras que vão ganhando volume, acompanhadas por uma bateria paciente e vocais que preservam o caráter melódico mesmo quando o instrumental se torna mais pesado. Imagens ligadas à natureza e à memória dão à faixa uma sensação de despedida, enquanto as mudanças de intensidade conduzem a música até um final grandioso. É uma conclusão adequada para um disco que encontra boa parte de sua personalidade justamente na alternância entre silêncio, repetição e distorção.
O grande mérito de Lions and Ore está na maneira como o The House Flies entende que nem toda composição precisa chegar rapidamente ao seu momento mais intenso. A banda deixa as músicas crescerem, permite que determinadas passagens se repitam e trabalha com arranjos que valorizam tanto a ausência de peso quanto sua chegada. Pode facilmente figurar a lista de melhores discos do ano de 2026.