O sino fúnebre está dobrando e os corvos deixaram a torre: o aguardado quarto álbum de estúdio dos lordes dos riffs do Reino Unido finalmente chegou. Lançado em 11 de setembro de 2026 pela Nuclear Blast Records e no Brasil pela parceria Nuclear Blast/Shinigami Records, Necropolitan é um retrato monumental do poder avassalador da natureza sobre os sonhos e o domínio da humanidade. É também uma grande celebração das tradições ocultas e da cena heavy da cidade natal da banda: Londres.
Sob a batuta do produtor Tom Dalgety (Opeth, Ghost) — que assumiu desde a gravação até a mixagem —, o Green Lung se isolou no lendário Rockfield Studios em janeiro de 2026, seguindo os passos enlameados de suas maiores inspirações, de Black Sabbath e Queen a Judas Priest. Sonoramente, o grupo buscou capturar a força megalítica de suas apresentações ao vivo de forma mais crua e direta. Reduzindo os arranjos densos e em camadas dos trabalhos anteriores, gravaram a maior parte do disco ao vivo para registrar a densidade sabbáthica, os órgão Hammonds frenéticos e os Mellotrons assustadores com máxima fidelidade.
Se após um ano do show Back to the Beginning do Black Sabbath e da partida de Ozzy Osbourne existia qualquer dúvida sobre o futuro do heavy metal britânico tradicional, Necropolitan sepulta todas elas. O Green Lung assume a tocha dos padrinhos do gênero, combinando gancheiras marcantes com uma crueza sem concessões e levando sua narrativa sombria a novos patamares.
Conversamos com o vocalista Tom Templar e o guitarrista Scott Black sobre a evolução sonora do novo trabalho, a transição do folclore rural para o ocultismo urbano, o single de trabalho ‘Evil in this House’ e a responsabilidade de manter acesa a chama do metal britânico.

Headbangers News: Parabéns por Necropolitan, é um álbum incrível! Gostaria de começar falando sobre o misticismo no Green Lung. Sei que isso é fundamental para vocês. Como esse elemento se conecta com a identidade da banda?
Tom Templar: Com certeza! Sempre uso a frase “folclore, riffs e lendas da Britânia”, porque acho que resume tudo: o Scott traz os riffs e eu trago o folclore e os mitos. Desde a nossa primeira demo, Green Man Rising, abordávamos esse elemento do Homem Verde, uma figura eterna da natureza. Sempre fui muito inspirado por esse universo cultural britânico específico, que abrange desde o folclore e o ocultismo até o místico. O heavy metal que eu amo — bandas como Rainbow, Black Sabbath e Uriah Heep — dialogava com o místico e trazia fantasia e narrativa épica para a música.
Não buscamos uma fantasia estilo Game of Thrones; nos interessamos pelo místico no cotidiano. Em This Heathen Land, o foco era o interior da Inglaterra e o folclore rural. Já em Necropolitan, quis trazer isso para Londres, para o ambiente urbano, mostrando que há muito misticismo na cidade se você olhar de perto. Em Necropolitan, o foco muda para o ocultismo de artistas, pensadores, poetas e músicos das eras vitoriana, eduardiana e dos anos 60 e 70. Para mim, a música é quase como uma religião e uma prática espiritual que me mantém bem mentalmente.
Headbangers News: A sonoridade de vocês está sempre evoluindo. Em This Heathen Land a proposta parecia bem diferente da que ouvimos agora em Necropolitan. Essa evolução foi um caminho natural ou uma escolha deliberada?
Scott Black: Um pouco de cada. Queremos que cada álbum seja distinto. Nós escrevemos em surtos curtos de inspiração quando ela surge, e decidimos intencionalmente o tipo de disco que faremos, sem que pareça forçado. Em This Heathen Land, fizemos um álbum muito focado em recursos de estúdio, com muitas camadas e arranjos orquestrados. Com Necropolitan, queríamos algo mais vivo e vital: despir os arranjos e pensar “somos cinco caras em uma sala, como soa essa banda ao vivo?”. Quando você toma a decisão consciente de fazer um registro mais direto e ao vivo, o próprio arsenal sonoro acaba moldando a composição. Nunca queremos fazer o mesmo disco duas vezes.
Headbangers News: É interessante notar como a figura da bruxaria se adapta tanto ao campo quanto à cidade. Vocês prestaram uma homenagem a Maxine Sanders no álbum anterior, e a bruxaria continua presente em Necropolitan. Como funciona essa abordagem do ocultismo no espaço urbano?
Tom Templar: O que adoro na bruxaria na Inglaterra é que ela acontece em todo tipo de cenário. As pessoas pensam em bruxas nas colinas ou fogueiras nos pântanos, mas você tem a mesma chance de encontrar uma bruxa no apartamento ao lado do seu corredor. O coven mais famoso do Reino Unido foi o Coven Alexandrino, baseado em Notting Hill. Eles eram super modernos para a época: se apresentavam no palco com a banda Black Widow e consultavam diretores de cinema como Roman Polanski sobre elementos de bruxaria. Na faixa Blackmagic Radio, tentei reafirmar essa ligação entre o ocultismo e a cultura pop de massa.
Scott Black: De certa forma, vejo a música Be My Babylon como uma espécie de pré-sequência para Maxine. Aleister Crowley e a Thelema foram precursores ideológicos da bruxaria gardneriana e, consequentemente, da alexandrina. Dá para ver uma linhagem direta entre Be My Babylon, a Thelema e a própria Maxine Sanders.
Tom Templar: Exato! O que me fascinou em Necropolitan foi perceber como os artistas da era eduardiana em Londres — com Crowley, Austin Osman Spare, W.B. Yeats — criavam sociedades para experimentar drogas psicodélicas, amor livre e arte de vanguarda. Coisas que associamos aos anos 1967/68 e à Swinging London já estavam sendo germinadas no início do século XX. O público acha que a revolução hippie falhou, mas ela moldou os costumes sociais atuais. Na época vitoriana e eduardiana, aquelas ideias estavam na margem extrema da sociedade.
Headbangers News: E como funciona o processo de criação de vocês ao conectar o folclore e a história britânica com as composições? A música vem primeiro ou a história inspira o riff?
Tom Templar: Na maioria das vezes começa com o Scott.
Scott Black: Sim, mas há momentos em que o processo se inverte. Às vezes o Tom chega com letras e melodias e estruturamos a música ao redor. Um ótimo exemplo em Necropolitan é a faixa-título: o Tom queria escrever uma música sobre a ferrovia vitoriana real que levava os mortos do centro de Londres até os cemitérios suburbanos (The Necropolis Railway). Eu tinha exatamente o ritmo de trem/locomotiva na guitarra, e as duas partes se casaram perfeitamente. Às vezes é uma colaboração direta, uma espécie de “tênis musical”: o Tom lança uma ideia de letra, eu rebato com uma ideia musical e o resultado surge desse fluxo.
Tom Templar: É uma zona liminar muito interessante. Tenho zero habilidade musical técnica e o Scott tem a visão musical e literária. Essa separação impede que pisemos no pé um do outro e deixa espaço para a magia e para o imprevisto acontecerem.
Scott Black: É a ideia do artista como um canal para algo maior. Seja através do inconsciente coletivo junguiano ou de qualquer outra força, a criatividade flui através de você e não pertence puramente a você.
Tom Templar: É verdade, e é algo empolgante, especialmente nesta era de IA. Existe uma linha tênue entre dominar seu ofício de compositor e deixar espaço para o estranho e o mágico acontecerem sem explicação. Em faixas como To the Gallows Born, a jornada musical tomou caminhos inesperados e a letra simplesmente fluiu de mim. Sou grato por esse processo continuar sendo um mistério.
Headbangers News: O primeiro single, ‘Evil in this House’, traz a premissa divertida de responder “como soaria uma investigação paranormal feita por uma banda de stoner metal”. Como foi traduzir esse conceito e humor para o videoclipe nos dias de hoje?
Tom Templar: É muito difícil, principalmente porque hoje em dia você luta contra a realidade dos orçamentos de clipes no heavy metal em 2026! Mas adorei fazer esse clipe. Foi super divertido trazer nosso próprio humor e personagens para a tela, em vez de ficarmos distantes nos escondendo apenas atrás de imagens sombrias. Criamos nosso próprio curta-metragem de terror trash e comédia.
Além disso, o artista Richard Wells (que faz nossas capas) e o animador Joe Brett criaram animações para nossos shows ao vivo. Como o universo do Green Lung é muito baseado em gravuras em madeira (woodcut), ter esse visual animado no palco nos permite imergir o público de forma autêntica na nossa estética. Mas, no fim das contas, adoraríamos continuar fazendo cada vez mais vídeos no estilo filmes de terror!
Headbangers News: Falando em estética de terror, a sonoridade de vocês frequentemente remete às trilhas de giallos e horror dos anos 70. Suspiria e o trabalho do Goblin influenciam vocês diretamente?
Tom Templar: Com certeza! A cada álbum que fazemos, sempre há um momento em que dizemos: “precisamos colocar um sintetizador no estilo Goblin nesta faixa!”.
Scott Black: E finalmente fizemos isso com força em Blackmagic Radio! É um clássico sintetizador Goblin.
Headbangers News: E quanto ao uso dos Mellotrons assustadores? Como vocês decidem onde encaixá-los na composição?
Scott Black: Temos nosso próprio universo do que é ou não aceitável sonoramente para a banda. O Mellotron é incrível porque abre texturas ricas sem quebrar a ambientação do nosso universo. Se usássemos uma seção de metais real no Green Lung, soaria estranho. Mas quando usamos o som de metais gravado no Mellotron, pela própria natureza retrô do instrumento, soa perfeitamente integrado. Fomos culturalmente condicionados a associar esse som ao cinema de horror antigo e ao rock progressivo dos anos 70. É uma forma elegante de expandir nosso som mantendo a identidade.
Headbangers News: Para encerrar: fala-se muito na imprensa sobre o Green Lung estar assumindo a tocha de gigantes do metal britânico, como o Black Sabbath. Como vocês lidam com a responsabilidade de manter viva a chama do heavy metal tradicional para uma nova geração?
Scott Black: É definitivamente uma expectativa pesada. Mas a chama que queima nessa tocha não é composta pelos músicos em si, e sim pela cultura ao redor da música. Se o Green Lung não existisse, essas pessoas não desapareceriam; elas ainda estariam ouvindo bandas e aproveitando essa cena. Não é algo que flui de nós para a cena, é a cultura e a cena que fluem até nós. Nós somos aquecidos pela chama, não somos a chama.
Tom Templar: (risos) Então somos os vampiros?
Scott Black: Nós somos as mariposas atraídas pelo fogo! (risos)
Tom Templar: Para mim, o Green Lung é a banda de metal que eu gostaria de ouvir e não encontrava por aí. Fico imensamente grato por ver que o público abraçou essa proposta e que temos cada vez mais território para explorar a cada álbum.
Scott Black: No fim das contas, os fãs são a chama e nós somos… um marshmallow? (risos)
Tom Templar: Isso! Somos um delicioso marshmallow derretendo perto do fogo! (risos)