A conceituada banda norte-americana de prog rock/metal Between the Buried and Me volta a São Paulo no dia 17 de outubro, no Hangar 110, em show que marca o seu retorno ao Brasil após cinco anos, agora no ciclo de The Blue Nowhere, álbum lançado em 2025 e o primeiro da carreira pelo selo InsideOut Music e lançado no Brasil pela Shinigami Records. A realização do evento é fruto da parceria entre New Direction Productions, Powerline Music & Books e Matrix Entertainment.
Formado em 2000 na Carolina do Norte, o Between the Buried and Me construiu uma trajetória sólida que o colocou entre os nomes centrais do metal progressivo moderno, unindo peso extremo, técnica e uma escrita abrangente que foge aos estereótipos do gênero. Ao longo desse percurso, o grupo consolidou discos aclamados como Colors (2007), The Parallax II: Future Sequence (2012) e Coma Ecliptic (2015) — este último marcando presença no #12 da Billboard 200 e no #1 da Hard Music Billboard Chart.
O show em São Paulo acontece em uma fase marcante. The Blue Nowhere abriu o capítulo mais recente do catálogo do grupo, mantendo a linguagem progressiva, as composições extensas, as mudanças bruscas de andamento e a combinação particular de metal técnico, agressividade e melodias marcantes. O reencontro também carrega uma carga emotiva: a única passagem da banda pelo país havia sido em março de 2020, justamente no fechamento da turnê latina daquele ano, momentos antes do fechamento global de fronteiras.
Conversamos com o baixista e compositor Dan Briggs, que compartilhou detalhes sobre o processo de criação do novo álbum, a busca por explorar novos timbres, a forma como constrói as linhas de baixo dentro da complexa estrutura musical do BTBM e a empolgação de retornar ao Brasil para reencontrar os fãs e tomar um autêntico café brasileiro.
Headbangers News: The Blue Nowhere é um álbum extremamente intenso e diversificado — tem brutalidade, peso, momentos atmosféricos e muita técnica. Como vocês conseguiram construir uma identidade tão própria para este trabalho específico?
Dan Briggs: Cada álbum que fazemos funciona como uma continuação de onde estávamos antes, mas também é um momento novo para abrir a mente e permitir que tudo flua. A grande magia do processo de composição é conseguir capturar exatamente aquele momento no tempo. Nós já compomos juntos há mais de 20 anos, então esse álbum acabou sendo uma representação máxima de onde estamos hoje, pois todo o nosso histórico nos trouxe até aqui. Além disso, como todos os quatro integrantes escrevem música, cada um traz influências e reações diferentes quando alguém envia uma ideia. É essa dinâmica que resulta em composições longas e verdadeiramente aventureiras.
HBN: Por falar em faixas aventureiras, a música Absent Thereafter tem cerca de 11 minutos e oscila constantemente entre a agressividade e a melodia. Como é o processo de equilibrar esses elementos durante a composição de uma faixa como essa?
Dan Briggs: Em Absent Thereafter, nós tínhamos uma atmosfera geral bem definida, o que serviu como ponto de referência para tudo o que desenvolvemos. É uma música divertida, com uma pegada quase insana, acelerada, que usa metais e uma estrutura harmônica marcante. Honestamente, se quiséssemos, aquela música poderia ter durado 25 minutos, porque as ideias continuavam fluindo! Hoje em dia, para nós, o grande desafio e o mais divertido não é apenas criar passagens malucas ou mudar de tom abruptamente, mas sim escrever com contexto e coesão.
HBN: Como baixista, suas linhas conduzem grande parte da estrutura e da energia das músicas. Como é a sua abordagem para integrar o baixo com a bateria e as guitarras?
Dan Briggs: Em músicas como Absent Thereafter, a ideia era acompanhar a energia, mas também dar ao baixo a sua própria dimensão rítmica ao lado da bateria. Para mim, isso vem de forma natural depois de tantos anos compondo juntos. Geralmente, eu espero que o Blake [Richardson, bateria] estruture suas partes para depois eu entrar e focar nos arranjos, riffs e dinâmicas de notas. Em outras faixas, como na abertura Things We Tell Ourselves in the Dark, eu escrevi grande parte da ideia inicial no próprio baixo, o que trouxe essa pegada mais rítmica e marcante.

HBN: Mesmo após duas décadas de estrada, vocês continuam experimentando com novos equipamentos e timbres. Como foi a busca por novas sonoridades em The Blue Nowhere?
Dan Briggs: Isso definitivamente fez parte do processo! Em faixas como God Terror, o Tommy [Giles Rogers, vocal/teclados] enviou uma ideia inicial que tinha uma pegada muito forte de rock industrial dos anos 90. Quando chegamos à ponte, sentimos que seria muito legal sintetizar ainda mais as guitarras, aplicando efeitos para filtrar o som e criar uma onda de timbres mais agressivos e perturbadores. Tivemos a sorte de trabalhar novamente com o Jamie King na engenharia e o Jens Bogren na mixagem. Essa combinação trabalha conosco desde Coma Ecliptic (2015) e eles sabem perfeitamente como dar a cada música o seu próprio espaço sonoro.
HBN: Quando as datas da turnê pela América do Sul foram confirmadas, qual foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça?
Dan Briggs: “Muitos voos!” [Risos]. Nós recém tínhamos voltado do Japão e da Austrália, onde também voávamos todos os dias. Mas, falando sério, nós só estivemos na América do Sul uma única vez, em março de 2020. Nós tocamos em São Paulo, mas não conseguimos ir para Buenos Aires porque as fronteiras começaram a fechar por conta da pandemia, e voltamos para os Estados Unidos no limite de tudo parar. Tivemos um momento incrível em São Paulo, mesmo com toda a tensão do mundo desabando na época, o público não deixou de se divertir. Estamos muito empolgados para voltar agora e viver essa experiência de forma mais leve e normal.
HBN: Como tem sido a recepção das músicas novas nos shows e como vocês preparam o repertório para uma apresentação tão aguardada?
Dan Briggs: Tem sido ótimo! É sempre interessante porque há pessoas no público que conhecem os singles, outras que já mergulharam no disco inteiro, e ver as pessoas reagindo ao vivo a essas músicas é muito gratificante. Para o setlist, nós tentamos unir composições de mais de 20 anos de história de um jeito fluido, como se estivéssemos sequenciando um álbum. Queremos conectar faixas de 2005 ou 2007 com coisas de 2012 e os lançamentos recentes sem que pareça desconexo. Como não tocamos no Brasil desde 2020, também queremos apresentar coisas do Colors II que vocês ainda não viram ao vivo.
HBN: Como você enxerga a evolução do seu papel como baixista no palco e nas composições ao longo dos anos?
Dan Briggs: Minha trajetória na música começou com a guitarra aos 9 anos e depois passei para o baixo e o piano. Por isso, costumo compor pensando em arranjos e contra-melodias. No início da banda, com álbuns como Alaska e Colors, tudo mudava muito rápido e eu precisava estar extremamente preso à métrica e às notas escritas. Com o passar dos anos, ganhei mais espaço para criar grooves, trabalhar timbres de synth bass e brincar com frequências e harmonias mais livres. Ao vivo, essa liberdade nos ajuda a manter a energia sempre renovada.
HBN: Para finalizar, que mensagem você gostaria de deixar para os fãs brasileiros que estão na contagem regressiva para o show?
Dan Briggs: Estamos extremamente ansiosos! Escutem o novo disco, familiarizem-se com as músicas, mas saibam que vamos passear por várias fases da nossa história. Vamos olhar o setlist que fizemos na última vez em São Paulo para evitar muitas repetições e fazer uma noite inesquecível. Além disso, estamos doidos para tomar um bom café brasileiro — somos todos viciados em café! Nos vemos em breve!
