Entrevistas

A arte de humanizar o inimaginável: Lesoir transforma crises globais em música de urgência e esperança

A arte de humanizar o inimaginável: Lesoir transforma crises globais em música de urgência e esperança

28 de julho de 2026


Em um mundo atravessado por dinâmicas geopolíticas complexas, crises climáticas e um sentimento generalizado de desalento, a música frequentemente se vê dividida entre o puro escapismo e o panfletismo direto. A banda holandesa de art rock Lesoir, no entanto, traça um caminho alternativo e refinado para o seu sétimo álbum de estúdio, Tomorrow Is Now Today. Ao resgatar a urgência do presente, o grupo transforma grandes questões globais em relatos íntimos, focando não na abstração dos problemas, mas na vulnerabilidade das vidas humanas atingidas por eles.

Com lançamento via V2 Records e precedido pelo impacto de faixas como “Is It Nothing?” e “Back to You”, o novo trabalho reflete a maturação conceitual e sonora de um projeto nascido em Maastricht em 2009. Entre a complexidade do rock progressivo e a força de ganchos melódicos, o Lesoir reafirma seu papel no cenário europeu contemporâneo como uma força criativa capaz de traduzir o peso da realidade sem abrir mão da esperança.

“IS IT NOTHING?”: A URGÊNCIA DA MUDANÇA E A HIPÓTESE DE GAIA

Especialmente destacado neste momento de transição para o novo disco, o single “Is It Nothing?” surge como a síntese definitiva da estética e do propósito do Lesoir. Inspirada na Hipótese de Gaia — a teoria formulada pelo cientista James Lovelock que concebe a Terra como um único organismo vivo e autorregulador —, a composição questiona a disposição da humanidade em enxergar os sinais do planeta e agir antes que seja tarde demais.

Sonoramente, a faixa é uma jornada rica em texturas: combina vocais atmosféricos, paisagens sonoras cinematográficas e uma instrumentação dinâmica de prog rock que alterna momentos de extrema fragilidade com explosões de intensidade. O contraste traduz o peso ético da questão ambiental sem recorrer a respostas fáceis.

Segundo a vocalista e multi-instrumentista Maartje Meessen, a música carrega o DNA mais puro do grupo:

“Is It Nothing? é a faixa de art rock por excelência deste álbum. É Lesoir do início ao fim. Para a Lesoir, essa música reforça a convicção de que nós, como humanidade, faríamos bem em acolher ideias novas e, acima de tudo, boas.”

Complementando a faixa, o lyric video visualmente hipnótico mergulha em um universo orgânico e futurista — mesclando redes que lembram raízes, neurônios e veias com cidades integradas a florestas de cogumelos —, reforçando o choque contínuo entre natureza, tecnologia e ação humana.

O ROSTO HUMANO POR TRÁS DO CAOS GEOPOLÍTICO

A filosofia que guia “Is It Nothing?” é a mesma que sustenta o restante do álbum. Em “Back to You”, a inspiração veio da trajetória do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Em vez de erguer um monumento geopolítico, a banda decidiu desconstruir a figura pública para revelar o indivíduo diante do impossível.

“‘Back to You’ é, de fato, sobre a pessoa e a humanidade por trás de Volodymyr Zelensky. Ela se aprofunda nesse indivíduo imensamente interessante e envolvente, e na sua trajetória — mesmo antes de se tornar chefe de estado — e em como ele está assumindo o seu papel em uma situação verdadeiramente impossível. Ele não é apenas um símbolo de uma situação geopolítica, mas um ser humano enfrentando algo quase inimaginável.”

Essa escolha reflete a espinha dorsal de todo o disco Tomorrow Is Now Today: a escolha deliberada por humanizar o macro. Como explica a própria banda, questões massivas frequentemente parecem distantes demais para gerar empatia real se não forem filtradas pela experiência individual.

“O ponto de partida foi a humanização de todos os temas do álbum — reconfigurar questões sociais, científicas e globais em algo humano —, em exemplos concretos do que vemos ao nosso redor e do que nós mesmos fazemos. Algo como a mudança climática ou um conflito geopolítico pode parecer abstrato e esmagador, quase grande demais para se compreender. Mas se você consegue conectar isso a uma pessoa, uma escolha, um momento, de repente se torna algo que você pode realmente sentir e com o qual se identificar.”

Para alcançar essa camada extra de sensibilidade, Maartje Meessen mudou seu processo de escrita, adotando uma perspectiva externa em vez de se focar em confidências pessoais:

“Para o álbum Tomorrow Is Now Today, Maartje deu um passo fora de si mesma e escreveu a maioria das letras sob a perspectiva de outra pessoa, em vez de escrever sobre sua própria situação. Não importa quão grande ou abstrata seja a questão subjacente, ela sempre tentou encontrar uma pessoa, uma voz, uma ideia ou uma situação concreta para contar através dela. E por baixo de tudo isso corre esse mesmo senso de urgência que o título carrega: estas não são coisas para se refletir um dia, são coisas acontecendo agora mesmo, com pessoas reais.”

ASSINATURA SONORA: O DOMÍNIO DAS DINÂMICAS E O PROCESSO DE ESTÚDIO

Se no álbum anterior, Push Back The Horizon (2024), o Lesoir explorou uma sonoridade mais direta e melódica, Tomorrow Is Now Today expande esses horizontes integrando arranjos progressivos arrojados, compassos não convencionais e um contraste ainda mais acentuado entre o sutil e o grandioso.

A construção de “Back to You” — que começa vulnerável apenas com violão e violino até culminar em um clímax explosivo — é exemplar desse método de composição, que a banda enxerga como sua verdadeira marca registrada:

“Essa construção de algo íntimo e vulnerável para um final explosivo é uma parte muito consciente de como o Lesoir compõe música. É a construção compositiva no uso dos instrumentos, combinada com as camadas nos vocais, que realmente cria essa dinâmica. Dinâmicas são o que caracterizam a banda, e antecessoras de ‘Back to You’ apresentam uma estrutura semelhante — construindo ou desacelerando através dessa mesma interação de instrumentação e camadas vocais, do minimalista ao explosivo.”

O processo criativo do grupo segue uma parceria consolidada entre Ingo Dassen (responsável pelas composições musicais) e Maartje Meessen (que desenvolve letras e melodias). Para este registro, o processo de home-studio incluiu arranjos preliminares de cordas que mais tarde foram expandidos pelo colaborador Bryan Raets para um quarteto de cordas real.

A gravação final ocorreu no tradicional Airfield Studio, em Cornwall (Reino Unido), onde o grupo trabalha em dois estúdios separados — um dedicado à instrumentação da banda e outro focado nos vocais. Embora as estruturas cheguem lapidadas, a banda valoriza a espontaneidade do ambiente de gravação:

“As estruturas e partes estão amplamente definidas, mas sempre há espaço para que os membros individuais da banda adicionem suas próprias interpretações durante o processo de gravação. Percussão adicional foi adicionada na hora, no estúdio, por Ramon Reijnders — esse tipo de adição de última hora dos membros da banda durante a fase de gravação é também o que impulsiona uma construção como essa para algo que realmente explode.”

Além do quarteto de cordas e da percussão ao vivo, o grupo une a essa produção o histórico de colaborações técnicas de peso que marcaram seus últimos trabalhos, como a produção de John Cornfield (Muse, Kashmir), arranjos vocais por Paul Reeve e masterização com Steve Kitch (The Pineapple Thief).

O PAPEL DA ARTE E O COMPROMISSO ÉTICO

Em uma era dominada pelo imediatismo e pelo cinismo, o Lesoir assume que fazer art rock envolve uma postura diante do mundo. Para os músicos, a complexidade estrutural do gênero é o veículo ideal para abrigar temas de igual profundidade humana.

“Em quase todas as formas de arte, temas sociais e políticos formam a base ou a inspiração. A música não é exceção, e as letras são, na verdade, a forma de expressão mais direta que existe: você pode literalmente dizer exatamente o que pensa ou sente. A arte fornece uma plataforma, e o Lesoir sente que faz sentido usar essa plataforma para esse tipo de tema.”

Ainda assim, a banda faz questão de não ser panfletária, preservando a ambiguidade poética para que o ouvinte encontre seus próprios significados nas canções.

“Com muitas de nossas letras, não fica imediatamente claro qual questão está sendo abordada — e isso deixa bastante espaço para a própria interpretação do ouvinte. O que esperamos que transpareça é um sentimento de esperança, força e humanidade — essas são qualidades que queremos deixar com as pessoas, em vez de cinismo ou desespero.”

ALCANCE GLOBAL, RESILIÊNCIA E O CONCEITO DE COLETIVO

Com o respaldo da V2 Records e uma rede de distribuição verdadeiramente global, o Lesoir superou as fronteiras do mercado holandês — que a própria banda descreve como geograficamente limitado — e passou a colher um engajamento crescente nas Américas e na Ásia.

“O foco no mercado internacional na verdade está lá desde o início do Lesoir. A Holanda, por mais progressista que seja, é um país pequeno — você fica sem shows para tocar aqui com bastante rapidez. O que mudou agora é que estamos em uma posição mais forte: temos um contrato de distribuição verdadeiramente global. Estamos recebendo cada vez mais atenção da mídia de fora da Europa, e as compras de álbuns da Ásia e da América começaram a aumentar também.”

Essa projeção internacional é fruto de uma longa história de resiliência. Em 2020, quando a pandemia de COVID-19 interrompeu abruptamente a turnê do elogiado álbum Mosaic (lançado após uma bem-sucedida excursão europeia com o Riverside), a banda encontrou uma saída criativa no lançamento do vinil artesanal Babel — uma peça conceitual de 20 minutos com curta de animação produzido pela Crystal Spotlight (Porcupine Tree, Steven Wilson) cujas 250 cópias se esgotaram em poucas semanas.

Para sustentar essa estrada longa sem perder a paixão ou desgastar os relacionamentos internos, o Lesoir tomou uma decisão pragmática recentemente: transformou sua estrutura em um coletivo de sete integrantes.

“O Lesoir começou com várias formações diferentes de músicos que continuaram dividindo o palco uns com os outros ao longo dos anos. Membros da banda vão e vêm, mas ninguém nunca realmente se despede do Lesoir. Quanto à formação de sete membros: isso na verdade vem do desejo de tocar o máximo possível. Com cinco pessoas, é genuinamente difícil conseguir que todos estejam livres para cada show, quando você considera empregos e famílias; com sete, isso se torna muito mais fácil. Além de tudo isso, os membros da banda são genuinamente amigos. Você passa dias seguidos juntos em um ônibus de turnê, dividindo quartos de hotel — e isso simplesmente não é algo que o Lesoir faz com qualquer pessoa que não seja gente que realmente goste uma da outra.”

PRÓXIMOS PASSOS: NOS PALCOS COM ANNEKE VAN GIERSBERGEN

A força do grupo ao vivo terá um novo capítulo de destaque na turnê europeia de novembro, quando o Lesoir acompanhará a lendária cantora holandesa Anneke van Giersbergen (ex-The Gathering, Gentle Storm) em uma maratona de 14 shows por 6 países a bordo de um nightliner.

“Estamos realmente empolgados em dividir o palco com a Anneke novamente! Anneke não é apenas uma música fenomenal, mas também uma pessoa maravilhosa, e é isso que realmente ficou conosco de nossos encontros anteriores. Esperamos conquistar alguns novos fãs, reconectar com os leais e obter bastante atenção para nosso novo álbum, Tomorrow Is Now Today!”

Combinando o rigor de composições ambiciosas, a entrega emocional de suas performances e uma postura ética clara diante das dores do mundo, o Lesoir demonstra que o art rock contemporâneo não precisa ser distante ou pretensioso. Em Tomorrow Is Now Today, a banda prova que a música continua sendo um dos instrumentos mais poderosos para resgatar a empatia e nos lembrar de nossa humanidade compartilhada.