Resenhas

No Paradise

Malkotron

Avaliação

8.5

O músico norte-americano Malkotron lançou em 14 de julho o álbum ‘No Paradise’, seu trabalho mais recente dentro do rock progressivo. O disco parte de referências das décadas de 1970, 1980 e 1990 para combinar atmosferas sombrias, solos de guitarra, teclados, sintetizadores e elementos da música folk acústica. O projeto é conduzido de forma independente pelo artista, que vive em Houston, no Texas. Malkotron escreve, toca e produz todas as partes de suas gravações. Desde 2013, ele vem construindo seu catálogo enquanto concilia a carreira musical com o trabalho e a vida familiar.

Gravado com emoção sincera, os vocais de Malkotron adicionam um toque pessoal a cada faixa, tornando este álbum imperdível para os entusiastas da música. ‘No Paradise’ é um projeto musical que entrega um trabalho que não serve como música de fundo, é necessário embarcar nessa viagem e prestar atenção em cada faixa.

A abertura com um intro “Woeful Dusk”, de 4 minutos, já mostra suas origens enigmáticas e a raiz progressiva, abrindo espaço para “Sleep is Free”, um rock pesado em sentimento profundo, mas suave na sonoridade, muito semelhante ao estilo Pink Floyd. Logo na primeira faixa, o artista transmite sua lamúria e dor emocional, onde ele perfura o ouvinte com riffs intensos. A produção dá espaço para composições elaboradas e letras detalhadas, características que aparecem com frequência entre os aspectos mais comentados por ouvintes e críticos de seu trabalho.

Em “Lost and Found” temos o violão acústico inspirado no folk e uma pegada cheia de atitude com um instrumental mais trabalhado e emocionado, que ganha peso conforme a música avança. Os vocais descolados e fortes trazem uma autenticidade difícil de ignorar, ganhando intensidade com sintetizadores do prog 70 que convidam o ouvinte para fazer parte.

O disco tem variações de sentimento e intensidade. Na faixa “Dusty Beams of Light “, o clima muda completamente para algo mais lisérgico e introspectivo, uma faixa lenta e hipnotizante que parece flutuar em um mar de reverberação, com pianos e outros instrumentos mais relaxantes, como se estivéssemos em uma floresta mística. Os vocais mais voltados ao folk entregam uma faixa que também é ótima para rádios, sendo a mais comercial do disco.

“One Bad Day” resgata uma pegada mais folclórica, experimental e muito mais introspectiva em mais de 11 minutos. Há um tom robusto e denso que remete ao ethereal rock ao mesmo tempo que flerta com o tom de Mike Oldfield e Kitaro. Aqui o músico prova sua autenticidade, em não pisar no freio quando o assunto é inovar e criar músicas ousadas. O ritmo dessa faixa é maravilhoso e nos faz dançar conforme a nota, conduzida pelos vocais sonhadores – é uma ótima faixa para trilha sonora de filmes sci-fi.

“Slender Threads” nos transporta para as florestas desertas e frias, com uma atmosfera angustiante e reflexiva, com linhas de violão, pianos e vocais melancólicos, em uma faixa onde o instrumental é de arrepiar. É uma faixa em que quase podemos ver o sol poente em tons laranja enquanto a melodia se estende no horizonte.

Na seguinte, “Maybe God Forgot “, Malkotron explora um som mais soturno, onde o tom pop se destaca com uma linha minimalista e poderosa. O artista dá um passo criativo e experimental aqui, criando um equilíbrio fascinante, tem tons de pop mais comercial, mas que deixa nítido suas raízes, sem se preocupar com fórmulas para o sucesso. O tom nesta é suave e bem sentimental, mas os vocais aconchegantes perfuram o coração.

“Cogs Grinding Bones”  surge como uma faixa muito oldschool, cheia de sintetizadores em uma atmosfera tensa, quase uma introdução mística para convidar o ouvinte para uma viagem espacial e misteriosa, em uma melodia dançante de uma forma intensa. Ela chega para dar contraste à faixa anterior e traz um instrumental mais psicodélico e toda a angústia que se espera de uma faixa desse estilo, criando um ambiente cinzento e introspectivo – inspirados nas trilhas de John Carpenter.

Encerrando essa viagem sonora perfeita, temos “Another Day”. Aqui, Malkotron retorna ao cinza. Aqui sentimos a energia do inverno, com um instrumental mais angustiante, com tons etéreos, pianos, vocais sussurados e um solo de guitarra bem composto, emocionante, ganhando grandiosidade. Os vocais conduzem a faixa com intensidade em um tom orquestrado. Acho que é a faixa de que mais gostei.

O músico encerra o álbum com um toque soturno e conclusivo. O disco parece ter nascido de um longo período de ruído, sobrecarga sensorial e recuperação, e busca transitar do ruído interior para a quietude — usando a música como forma de criar espaço, clareza e calma, exposto em seu trabalho magnífico. Malkotron  entrega uma obra que mistura peso, melancolia e experimentação, tudo com um toque psicodélico e cinematográfico que só ele sabe fazer. Definitivamente, você precisa ouvir esse álbum – mais de uma vez.