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Symphony X em São Paulo: Uma celebração de três décadas entre o virtuosismo e a nostalgia

Symphony X em São Paulo: Uma celebração de três décadas entre o virtuosismo e a nostalgia

21 de março de 2026


Crédito das fotos: Anderson Hildebrando/Metal no Papel

O Tokio Marine Hall, em São Paulo, transformou-se em uma verdadeira catedral do metal progressivo na noite de ontem, 20 de março. O motivo não era para menos: os norte-americanos do Symphony X desembarcaram na capital paulista para celebrar 30 anos de uma carreira moldada pelo rigor técnico e por composições épicas. O que se viu foi uma performance impecável que, embora tenha ignorado os primeiros passos da banda, reafirmou a vitalidade de um dos line-ups mais competentes do gênero, formado por Russell Allen (vocal), Michael Romeo (guitarra), Michael Pinnella (teclado), Michael LePond (baixo) e Jason Rullo (bateria).

A noite teve início com o talento vindo da Colômbia. O guitarrista instrumental Andy Addams subiu ao palco acompanhado pela baixista Elizabeth Schembri e pelo baterista Chucho Romus para uma abertura que pode ser definida como “honesta” e tecnicamente irrepreensível. O trio focou no repertório autoral, com destaque para as faixas do álbum de estreia The Eyes Of The Moon Pt.1 (2020) e o recém-lançado single Vestido de Cristal (2025).

Apesar da competência, o show de Addams só engrenou totalmente com o público paulistano quando o guitarrista apostou em releituras de clássicos de Journey, Van Halen e Dream Theater. O ápice da conexão veio no encerramento, quando o músico mergulhou no universo geek com os temas de Saint Seiya (Cavaleiros do Zodíaco) e a abertura clássica de Dragon Ball. O momento de maior emoção, contudo, foi pessoal: o público entoou um caloroso “Parabéns a Você” para o guitarrista, que completava anos naquela data. Visivelmente comovido, Addams despediu-se com a certeza de que as portas dos palcos brasileiros estarão sempre abertas para ele.

Cerca de 20 minutos depois, o Symphony X tomou seus postos sob uma ovação ensurdecedora. O que se seguiu foi uma aula de música. Michael Romeo, o arquiteto sonoro do grupo, exibiu uma precisão cirúrgica em seus solos neoclássicos, enquanto Russell Allen provou por que é frequentemente chamado de “alienígena”: sua voz permanece potente, versátil e com um alcance que desafia as três décadas de estrada. A cozinha rítmica de LePond e Rullo, somada às texturas orquestrais de Pinnella, garantiu a densidade necessária para o setlist.

A jornada começou com o pé no acelerador, resgatando a era de ouro de The Divine Wings Of Tragedy (1997) com a trinca “Of Sins and Shadows”, “Sea of Lies” e “Out of the Ashes”. O público foi ao delírio com “The Accolade” e a épica “Smoke and Mirrors”, do disco Twilight In Olympus (1998). A banda ainda percorreu os caminhos conceituais de V: The New Mythology Suite (2000) com “Evolution (The Grand Design)” e “Communion and the Oracle”, além do peso moderno de “Nevermore”, do álbum Underworld (2015).

Apesar da execução magistral, um ponto causou debate entre os fãs mais puristas: a ausência total de material dos dois primeiros discos. Canções emblemáticas como “Premonition” e “Thorns of Sorrow”, do álbum de estreia, ou a faixa-título de The Damnation Game, fizeram falta em uma celebração de 30 anos. A sensação é de que a banda optou por cristalizar sua identidade a partir de 1997, deixando o início da jornada como um capítulo encerrado.

Essa sensação de “nova era” foi confirmada pelo próprio Russell Allen durante o show. O vocalista anunciou que o Symphony X está pronto para o próximo passo, revelando que um novo disco já foi totalmente composto pelo mestre Michael Romeo. No bis, a emocionante “Without You”, a agressiva “Dehumanized” e a explosiva “Set the World on Fire (The Lie of Lies)” selaram a noite.

O Symphony X entregou em São Paulo um show impecável, que equilibrou a nostalgia de seus maiores sucessos com a promessa de um futuro produtivo. Para quem esteve no Tokio Marine Hall, ficou claro que, embora o passado seja glorioso, o “maestro” Romeo e seus asseclas ainda têm muito a dizer. Bravo!

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