Em segunda noite esgotada em São Paulo, quarteto japonês apresentou um repertório que colocou NOW I SEE THE LIGHT em diálogo direto com diferentes momentos de sua carreira.
O fato de o toe ter precisado de duas noites no Cine Joia já dizia bastante sobre a relação que a banda construiu com o público brasileiro. Produzida pela Balaclava Records, a passagem por São Paulo tinha inicialmente apenas a apresentação de 17 de setembro, mas os ingressos se esgotaram e uma segunda data foi acrescentada para o dia seguinte, que também terminou com casa cheia. Na noite de 18 de setembro, o quarteto japonês encerrou sua passagem paulistana diante de uma plateia que demonstrava conhecer não apenas as músicas mais populares do grupo, mas diferentes momentos de uma discografia construída ao longo de mais de duas décadas.
A apresentação faz parte da turnê comemorativa dos 25 anos do toe e acontece em um momento particularmente interessante de sua trajetória. Ao mesmo tempo em que revisita um repertório iniciado ainda no começo dos anos 2000, a banda segue trabalhando o material de NOW I SEE THE LIGHT, lançado em 2024, seu primeiro álbum completo em nove anos. Essa combinação entre celebração histórica e continuidade criativa ajuda a explicar a própria construção do show, que não tratou os discos antigos como peças de museu nem colocou o material recente em um bloco apartado.
Formado em Tóquio em 2000, o toe mantém desde o início a mesma formação, com Kashikura Takashi na bateria, Yamazaki Hirokazu e Mino Takaaki nas guitarras e Yamane Satoshi no baixo. Essa estabilidade é parte importante da identidade do grupo, sobretudo porque sua música depende de uma interação extremamente precisa entre os quatro músicos. Embora seja frequentemente associado ao math rock e ao post-rock, o toe desenvolveu ao longo dos anos uma linguagem muito particular, na qual estruturas quebradas, guitarras limpas, elementos de jazz, passagens acústicas, melodias delicadas e explosões de intensidade convivem sem que uma característica se sobreponha completamente às demais.
Desde the book about my idle plot on a vague anxiety, lançado em 2005, a banda construiu um repertório marcado pela atenção à dinâmica e pela maneira como cada instrumento ocupa e abandona espaço dentro das composições. O álbum de estreia apresentava uma sonoridade mais fragmentada e nervosa, enquanto For Long Tomorrow, de 2009, ampliou as possibilidades desse vocabulário com melodias mais abertas, instrumentos acústicos e uma presença maior de referências do jazz e do pop. Em Hear You, de 2015, o grupo aprofundou uma abordagem mais atmosférica e contemplativa, enquanto NOW I SEE THE LIGHT retomou diferentes elementos dessas fases sem tentar reproduzi-las diretamente.
É justamente esse percurso que dá sentido à atual turnê. Batizada de “LONELINESS WILL SHINE – 25TH ANNIVERSARY LIVE”, ela funciona menos como uma retrospectiva tradicional e mais como uma celebração de uma linguagem que continua em transformação. O repertório apresentado no Cine Joia deixou isso evidente ao colocar faixas recentes lado a lado com músicas que acompanham a banda há quase duas décadas.
A abertura com “LONELINESS WILL SHINE”, uma das faixas de NOW I SEE THE LIGHT, apresentou imediatamente o toe atual, ainda sustentado pela complexidade rítmica que sempre caracterizou o grupo, mas cada vez mais confortável em trabalhar também com repetição, voz e estruturas melódicas menos angulares. Logo depois, “Long Tomorrow”, do álbum de 2009, estabeleceu uma dinâmica que se repetiria ao longo da noite: em vez de organizar o repertório de maneira cronológica, a banda colocou diferentes momentos da própria discografia em constante conversa.
A sequência com “Kaze to Kioku”, “Kodoku no Hatsumei” e “Chiaroscuro” reforçou esse movimento. Entre músicas recentes e material do primeiro álbum, o palco evidenciou principalmente aquilo que permaneceu na linguagem do grupo ao longo dos anos. As texturas mudaram, a produção dos discos se tornou mais ampla e os vocais passaram a ocupar um espaço maior, mas a atenção aos silêncios, às mudanças de dinâmica e aos pequenos deslocamentos rítmicos continua funcionando como centro das composições.
Ao vivo, no entanto, existe uma dimensão física que os registros de estúdio não conseguem reproduzir por completo. A precisão do toe poderia facilmente resultar em uma apresentação excessivamente técnica, mas acontece justamente o contrário. As músicas respiram, os volumes oscilam e as estruturas aparentemente rígidas ganham elasticidade conforme os quatro músicos se movimentam dentro delas.
Kashikura Takashi tem um papel fundamental nesse processo. Sua bateria não funciona apenas como sustentação para os demais instrumentos, mas frequentemente reorganiza a maneira como as guitarras são percebidas, utilizando acentos, pausas e mudanças de intensidade para conduzir a própria narrativa das composições. É difícil assistir ao toe sem direcionar parte considerável da atenção para sua execução, não apenas pela técnica evidente, mas pela maneira como ela participa diretamente da arquitetura das músicas.
Yamane Satoshi trabalha de forma menos ostensiva, mas igualmente importante, garantindo coesão enquanto as guitarras de Yamazaki Hirokazu e Mino Takaaki alternam frases delicadas, arpejos, ruídos e ataques mais intensos. É justamente essa relação entre contenção e explosão que faz com que o repertório funcione tão bem ao vivo.
Essa dinâmica apareceu com força em “The Latest Number” e “F_A_R”, faixas do EP Our Latest Number, de 2018. As duas condensam parte importante da linguagem que o toe desenvolveu ao longo dos anos, aproximando jazz, punk, post-rock e math rock sem transformar essa mistura em uma demonstração puramente técnica. No palco, elas também deixam bastante espaço para mudanças bruscas de intensidade, algo que encontrou uma resposta imediata do público.
Entre esses momentos, o repertório passou ainda por “Because I Hear You”, faixa de encerramento de Hear You, “Esoteric”, de For Long Tomorrow, além de “Sonny Boy Rhapsody” e da faixa-título “NOW I SEE THE LIGHT”. A presença significativa do disco lançado em 2024 foi uma das escolhas mais acertadas do show, justamente porque impediu que uma turnê de aniversário se transformasse em um exercício de nostalgia.
Cinco músicas do álbum mais recente apareceram no repertório, ocupando praticamente o mesmo espaço de For Long Tomorrow, um dos trabalhos mais reconhecidos da discografia da banda. A escolha reforça que o toe não parece interessado em dividir sua trajetória entre uma suposta fase clássica e um presente secundário. O material atual participa efetivamente da narrativa construída no palco.
Essa percepção também ajuda a entender a reação da plateia. O segundo show no Cine Joia tinha um público claramente familiarizado com o catálogo do grupo, e a vibração não se restringia a uma ou duas músicas mais conhecidas. A cada nova introdução reconhecida, havia uma resposta imediata, com fãs reagindo, comemorando e acompanhando atentamente as mudanças do repertório.
Foi um show feito para quem acompanha a banda. Não no sentido de excluir quem conhece pouco o toe, mas porque não havia a necessidade de conquistar a plateia por meio de concessões ou de concentrar o set apenas nos momentos mais acessíveis da discografia. O grupo podia simplesmente apresentar diferentes períodos de sua carreira e confiar que aquele público acompanharia o percurso.
A excelente performance também se sustentou justamente nessa relação. O toe não depende de grandes intervenções entre as músicas ou de uma presença de palco baseada em discursos constantes. A comunicação acontece principalmente por meio da própria execução, das mudanças de volume, dos silêncios e da maneira como cada composição se constrói até atingir seu ponto de maior intensidade.
O encore reuniu três das escolhas mais celebradas da noite. “Two Moons” e “After Image”, ambas de For Long Tomorrow, prepararam o caminho para “Goodbye”, uma das músicas mais reconhecíveis da banda e escolha especialmente eficiente para encerrar a apresentação. A faixa resume vários dos elementos que fizeram do toe uma referência dentro do rock instrumental das últimas décadas: uma melodia imediatamente identificável, construção gradual, contrastes de intensidade e uma execução que encontra impacto sem depender de excesso.
Ao final, o que a segunda noite no Cine Joia demonstrou foi que os 25 anos do toe não estão sendo tratados pela própria banda como um ponto de chegada. A turnê olha para trás, naturalmente, mas o faz a partir de um presente musical ainda ativo. NOW I SEE THE LIGHT ocupa espaço real dentro da apresentação e dialoga de maneira convincente com músicas compostas quase vinte anos antes.
Também ficou evidente o tamanho da relação construída com o público brasileiro. O retorno ao país, oito anos depois de sua última passagem, resultou em duas apresentações esgotadas em São Paulo e em uma plateia que respondeu com entusiasmo praticamente contínuo ao repertório. Para uma banda cuja música exige atenção aos detalhes e depende de estruturas que frequentemente evitam soluções óbvias, encontrar um público tão envolvido faz diferença.
O toe respondeu à altura. Com uma execução precisa, coesa e particularmente intensa, o quarteto mostrou que a complexidade de suas composições nunca funciona como finalidade em si mesma. Técnica, aqui, é parte da linguagem, não demonstração de habilidade. Depois de 25 anos, talvez seja justamente essa uma das razões pelas quais a banda continua despertando tamanho envolvimento: as músicas podem ser minuciosamente construídas, mas, no palco, permanecem vivas.

Setlist
LONELINESS WILL SHINE
Long Tomorrow
Kaze to Kioku
Kodoku no Hatsumei
Chiaroscuro
The Latest Number
Because I Hear You
Esoteric
Sonny Boy Rhapsody
NOW I SEE THE LIGHT
F_A_R
Encore
Two Moons
After Image
Goodbye