Entrevistas

ENFORCER: “Selvagens do palco”

Olof Wikstrand, vocalista e guitarrista

Cintia Regueiro

Olof Wikstrand, vocalista e guitarrista

A banda sueca de Heavy/Speed Metal ENFORCER lançou no último mês de março seu segundo disco ao vivo, ‘Live By Fire II’, registrado em 2019 durante a passagem da turnê latino-americana do álbum ‘Zenith’, editado naquele mesmo ano, pela Cidade do México. De uma outrora banda emergida da crescente cena que acostumou-se a clamar como NWOTHM (New Wave Of Traditional Heavy Metal), onde bandas explodiram aos montes em todo o globo resgatando aquele som clássico da NWOBHM (essa você sabe, né?), o ENFORCER se mostrou um nome fundamentado a cada novo álbum. Do começo, ainda engatinhando em discos como ‘Into The Night’ (2008) e ‘Diamonds’ (2010); até à busca pela sua personalidade em registros que pavimentaram a sua emergente ascensão como ‘Death By Fire’ (2013) e ‘From Beyond’ (2015), que já são vistos como clássicos do Heavy Metal contemporâneo, ao salto em ‘Zenith’ (2019), o álbum mais ambicioso e ousado lançado pelos suecos até o momento – já me permitindo ao “spoiler” –, uma vez que a banda procura ir ainda mais longe.

Conversamos com o vocalista/guitarrista Olof Wikstrand que nos falou sobre os detalhes que envolveram o novo trabalho, sobre as características mais ambiciosas de ‘Zenith’ e sua versão espanhola, e todo o resto que você acompanha a seguir.

Olof, são oito anos de diferença entre o primeiro Live By Fire e agora este novo registro. Durante esse período, vocês lançaram dois álbuns de estúdio (From Beyond e Zenith), o que seria um relativo curto espaço de tempo, para alguns, para se lançar um novo play ao vivo. Sobre essa perspectiva, qual foi a principal ideia de lançar o Live By Fire II?

Sim, foram oito anos entre esses dois álbuns e dois discos de estúdio, já que Live By Fire I foi gravado durante a turnê Death By Fire, no começo de 2013. A ideia foi de sempre manter um material atualizado online e mostrar às pessoas sobre o que é o ENFORCER atualmente. Eu acho que evoluímos muito desde a última vez e, definitivamente, foi uma boa ideia lançar outro álbum ao vivo, desde que o outro parece tão velho agora e nós nos desenvolvemos muito como banda.

O ENFORCER tem uma grande relação com os fãs latino-americanos. O que me faz pensar que, desde o dia daquele show na Cidade do México, vocês já tinha a intenção de usar as gravações para usá-las futuramente. Foi isso mesmo ou haviam outras opções?

Não, na verdade essa foi uma grande oportunidade que chegou até nós. Tínhamos esses shows agendados e sabíamos que o público da Cidade do México realmente deu o seu melhor todas as vezes que estivemos por lá. Dessa vez, tínhamos uma boa casa de shows, tivemos boas vendas de ingressos, sabíamos que seria um grande show, poderíamos filmar e fazer dessa vez um set completo, já que no último álbum ao vivo tocamos um set restrito de festival. Agora podíamos dar um toque mais pessoal, mais do jeito que queríamos. Então foi uma ótima oportunidade e, é claro, seria uma homenagem aos fãs latino-americanos por causa do grande entusiasmo deles. É sempre ótimo sentir essa energia de volta para a banda.

Os shows do ENFORCER são sempre bem energéticos e a banda é reconhecida pelas suas apresentações selvagens. O que combina com as audiências bem entusiasmadas da América Latina. Inclusive, vocês gravaram uma versão inteira do Zenith em espanhol (N.R.: lançando apenas em formato digital no site da Nuclear Blast) e um “lyric video” para “Die For The Devil” (N.R: “Muere Por El Diablo”), em homenagem aos fãs latino-americanos. Porém, no track list do Live By Fire II não há nenhuma dessas versões, e vocês chegaram a tocá-las em alguns shows no México. Por que?

Nós tocamos duas ou três músicas em espanhol durante a turnê mexicana, mas como íamos lançar esse material como vídeos ao vivo, achamos que seria melhor lançar em inglês porque é um material lançado para o mundo todo, não apenas para o público da América Latina. Nós ficamos um pouco críticos de não lançar as versões em espanhol, mas como íamos gravar em vídeo achamos que precisava ser em inglês dessa vez. Quem sabe na próxima vez nós faremos um show inteiro em espanhol. Não sei, é ótimo ver como as pessoas têm reagido a isso. É muito inspirador!

Penso que foi um desafio e tanto gravar um disco inteiro em espanhol. É meio complicado fazer os fonemas se encaixarem e soarem bem. Mesmo assim, posso dizer que ele ficou perfeito nesse sentido.

Desde que nós viemos para a América Latina na primeira vez eu tenho me dedicado muito a aprender espanhol e, de forma geral, interessado na língua. Comecei a estudar em 2016 e por volta de 2018 eu acho que me desenvolvi suficiente para levar isso adiante. Eu tive muita ajuda de várias pessoas próximas à banda, tanto para trabalhar nas letras quanto nas performances vocais. Fiquei muito agradecido com o ótimo retorno que tive, mas isso não seria possível sem as várias pessoas que me ajudaram muito. Levou algumas semanas, mas eu acho que valeu a pena no final. As pessoas gostaram e é algo que nós consideramos fazer novamente.

Vocês poderiam dar uma sugestão para a Nuclear Blast de lançar a versão em espanhol do Zenith também em formato físico. Especialmente em vinil.

Eu esperava que nós pudéssemos lançar algo físico desse material, em vinil mesmo, mas ainda não conseguimos. Falei com a gravadora diversas vezes para fazermos isso, mas até agora não foi feito. Eu não sei o porquê.

No primeiro Live By Fire vocês usaram as gravações de Tóquio e de Atenas. E o show também saiu em DVD. Mas, desta vez, apenas o álbum a vivo. Por que?

Eu acho que nós simplesmente queríamos focar toda nossa energia nos vídeos para serem o melhor possível e o CD e o Vinil são obviamente as faixas de áudio desse material. Queríamos fazer o melhor possível, mas o DVD já é um formato antiquado com resolução baixa e não fica legal. Nós queríamos estar mais atualizados, tipo lançando no YouTube para ter certeza de que mais pessoas possíveis pudessem ouvir. Percebemos que essa é a razão de que não poderíamos lançar com uma resolução maior ou algo assim.

Algo que me chamou muito a atenção no Live By Fire II foi o trabalho de captação, mixagem e masterização, muito superior ao que temos ouvido em registros ao vivo lançados ultimamente. O som está completamente limpo, perfeito e muito cristalino.

Em se tratando de um disco ao vivo, meu objetivo pessoal sempre foi em lançar o melhor álbum ao vivo já feito na história da música. E como me aproximo disso? Primeiro, tendo apenas álbuns de estúdio como referências para a mixagem. Acho que nós atingimos esse som de bateria não só porque eu mesmo mixei o álbum, mas também porque usamos tudo em linha, assim como a guitarra e o baixo e conseguimos reduzir todo o ruído do palco. Mantivemos tudo baixo no palco para evitar vazar qualquer tipo de ruído para processar a bateria igual faríamos em um grande estúdio e assim criar um grande som de bateria. Processamos as linhas de guitarra digitalmente para conseguir um som super limpo e assim pude mixar como se fosse um disco ao vivo. É por isso que o som é absolutamente superior a tudo que foi feito nesse contexto de “ao vivo”. Essa é a primeira coisa. Quanto ao vídeo, nós os trabalhamos neles depois de trabalhar o som. Estávamos interessados em achar imagens marcantes mais do que simplesmente ir da Câmera A para a Câmera B. Mais como um clipe musical, para criar intensidade na edição. Eu acho que deu muito certo. Estou muito feliz e as reações tem sido ótimas.

Durante a turnê do já clássico From Beyond vocês também excursionaram aqui pelo Brasil. O que você pode dizer dessa experiência?

É sempre ótimo tocar no Brasil, porque assim como no México, somos recebidos com muito entusiasmo. No Brasil os fãs são selvagens e sempre curtimos muito. Sempre foi ótimo e não vejo a hora de voltar ao Brasil.

Devido a pandemia do Covid-19, muitos shows e festivais foram cancelados. O que afeta diretamente a receita de uma banda. Como vocês estão conseguindo lidar com essa situação?

Este ano tem sido muito relaxante na verdade, sem todo o stress de tocar ao vivo e lidar com toda a logística. Tem sido muito útil de uma maneira criativa. Nós estamos podendo colocar tanta energia e foco na parte criativa de estar em uma banda, escrevendo músicas e surgindo com ideias legais. Isso é o que fizemos esse ano. 

Cintia Regueiro

‘Zenith’ foi lançado em 2019. Vi algumas críticas não tão favoráveis, mas, particularmente, o considero um disco espetacular onde cada música traz consigo uma característica muito peculiar. Passado esses dois anos, como você analisa o Zenith em relação a carreira do Enforcer?

Essa é uma pergunta realmente muito boa! Eu também tenho visto alguns reviews não muito bons, e algumas vezes eles fazem me questionar, mas aí eu tenho que ouvir [o álbum] novamente para estar absolutamente determinado de que é o melhor material que já fizemos. Acho que é mais um sinal dos tempos, quero dizer, pra mim esse álbum não é tão fora ou diferente dos outros álbuns que lançamos anteriormente, comparado com o que as pessoas tem falado. Acho que é um grande álbum de heavy metal que, de fato, flerta mais com o Heavy Metal clássico como Dio, Ozzy, como a fase do Black Sabbath com Dio talvez, Judas Priest antigo e o começo do Scorpions, o que pra mim é a definição do Heavy Metal. Acho que as pessoas esperavam que fosse mais “thrashier” ou algo assim, mas nós nunca fomos uma banda de Thrash Metal. Nós só tivemos músicas que estavam próximas ao Thrash, e se você cria algum tipo de expectativa nesse sentido vai se decepcionar. Eu sempre nos vi mais como uma banda de heavy metal como as que eu citei anteriormente. Acho que é um grande álbum com algumas das canções mais memoráveis que já fizemos. É como vejo pelo menos. E nós também queríamos um disco que cada música fosse diferente uma da outra e se destacasse. Mas nesses tempos em que as pessoas ouvem 30 segundos de uma única música e tomam uma decisão baseado nisso, eu entendo que elas irão se decepcionar. Se você ouvir como um todo, com todos os personagens diferentes de cada música, vai descobrir algo melhor que qualquer álbum genérico lançado hoje em dia. Quero dizer, a inspiração pra ele não foi o Glam Metal ou outra coisa, eu nem ouço isso. A inspiração foi Dio, Scorpions e muitas outras coisas. Se você colocar esse álbum ao lado dos álbuns do Dio e Scorpions, provavelmente vai notar a grandeza dele. Ao menos é o que tentei mediar com esse álbum. Então, na minha visão, é o melhor álbum que já fizemos.

A primeira música do ‘Zenith’, “Die For The Devil”, por exemplo, é um hit imediato, com um refrão grandioso e riffs cativantes. “Zenith Of The Black Sun”, “1000 Years Of Darkness”, “Searching For You” e “Thunder And Hell”, por exemplo, são outras canções brilhantes. “Sail On” também e, pra mim, é a música mais diversificada entre elas. É realmente o álbum mais desafiador e ambicioso que vocês já fizeram, até agora.

Sim, definitivamente é o álbum mais ambicioso que já fizemos. Só de colocar tantos elementos diferentes em cada música e fazê-los se encaixar em um único disco é mais ambicioso do que lançar 10 músicas que são semelhantes entre si. Nós também tentamos ter um tom de guitarra diferente em cada música e que cada uma delas tivesse sua própria identidade. Para que você não simplesmente ouvisse, entrando por um ouvido e saindo pelo outro, mas para que, de fato, criasse algo com o ouvinte. É realmente ambicioso e estou feliz com o resultado.

Você explicou que está usando esse período de recesso mundial por conta da pandemia para escrever e compor novas músicas. Penso que essas músicas novas sejam tão ambiciosas quanto as que encontramos no ‘Zenith.

Sim, estamos criando músicas para o próximo álbum que será ainda mais desafiador. Depende, na verdade acho que será tanto desafiador quanto ele, já que estamos resgatando coisas que estávamos fazendo anteriormente. Eu quero satisfazer a mim mesmo e a minha própria criatividade, mas eu sei que eu também tenho que satisfazer os fãs. Afinal, são os fãs que ajudaram a construir isso tudo e se não os satisfazermos, não teremos sucesso. Então tento encontrar um meio termo entre agradar velhos fãs e a mim mesmo de forma criativa. Também tento não refazer algo que já fizemos ou que outra pessoa já fez. Tudo tem que ser único, tudo tem que ser criado e não uma cópia de outra coisa, o que, na minha opinião, quase todas as outras bandas do mundo estão fazendo.

Para finalizar, nas últimas semanas tivemos a triste notícia da morte do lendário LG Petrov, vocalista do ENTOMBED, uma das maiores bandas da história do death metal, que perdeu sua batalha pessoal contra o câncer. Você tinha alguma relação próxima com ele?

Não era muito próximo dele, mas o Petrov era um cara que sempre que a gente encontrava em festivais, aeroportos, a gente tomava umas cervejas. Em Estocolmo também. Ele era um personagem que estava sempre por perto de todos ligados ao Heavy Metal em Estocolmo e também das outras bandas de Metal, como nós, quando nos encontrávamos em festivais. Não éramos próximos, mas, definitivamente, era alguém que gostávamos de tomar umas cervejas, então foi incrivelmente triste ouvir sobre sua partida.

 

Tradução: Vinicius Mariano/Rodrigo Helfenstein