Entrevistas

Umbilichaos: “A linguagem do rock, dos sons intensos e viscerais, mudou minha vida”

Dani Moreira

Projeto solo noise-doom/psychedelic post-hardcore, de São Paulo-Brasil, criado em 2007 pela artista Anna C Chaos. Compositora, poetisa, guitarrista, cantora, programadora sonora, mulher trans lésbica e feminista.

Como Umbilichaos, ela cria uma experiência sonora que abole estruturas convencionais em favor de um enquadre cinemático, evocando os mais diversos pensamentos e emoções. Com 11 discos, entre outros lançamentos, busca a construção de uma linguagem sonora épica e apocalíptica, intensa e experimental, em constante evolução.

Para falar mais sobre o projeto, Anna C Chaos concede entrevista ao site Headbangers News, onde também fala sobre o novo trabalho que será lançado em Junho, a representatividade LGBT na cena do rock e metal e os planos para o futuro.

Umbilichaos é definido como um Ato de uma mulher no estilo noise-doom / psicodélico pós-hardcore. Pode contar como tudo começou?

Começou em dezembro de 2007. Após alguns meses tentando tocar com seres humanos, o início foi frustrado por falta de interesse em criar e incompatibilidades musicais. Eu tocava guitarra e cantava, e através de bandas como Big Black, Godflesh e Cocteau Twins, descobri a existência das drum-machines. Comprei uma, passei a programar todas as partes de bateria, desci muitos tons na guitarra para compensar a ausência de baixo, e conquistei a independência musical de maneira semi-ciborgue.

Umbilichaos é formado pela Anna C Chaos, e conhecida como ‘a banda de uma integrante só’. Como é compor tudo sozinha? Se sente mais livre para fazer tudo do seu gosto?

Totalmente livre. Não preciso me preocupar com atrasos, erros ou opiniões. Rsrs. Minha drum-machine, que chamo de Shiva, pois tem quatro braços, não falha nunca. A única possibilidade de erro sou eu, ou tocar onde não tem PA. Brincadeiras a parte, é enriquecedor ir dominando o processo de criação como um todo. Eu não preciso esperar me reunir com pessoas para criar, evitando uma espera que é desestimulante para muitas pessoas (ainda mais em contexto de pandemia), e posso lapidar minhas ideias sem interferência. Mas, pode ser mais demorado, por outro lado, por tudo depender de mim para chegar ao melhor resultado possível. Tanto solo, quanto banda, têm vantagens e desvantagens.

Já pensou em convidar mais integrantes para a banda?

Sim. No começo, ainda pensava em ter baixista e mais uma guitarra, mas não rolou. Pensei em ter 3 guitarras, que foi quando tudo tomou forma definitiva, e um amigo tocou comigo por um ano. Eu complementava esse formato fazendo loops ao vivo da terceira linha de guitarra. Cheguei a chamar um conhecido para essa vaga, mas ele roubou minha primeira guitarra e desapareceu. Uma hora, eu aceitei que depender de outras pessoas estava sendo muito estressante, eu já fazia o resto do som com loops e drum-machine (depois passei para laptops). Então, aceitei que era melhor ficar solo.

Dani Moreira

Quais foram as maiores influências na hora de montar a banda e no que você se inspira na hora de compor?

Muitas e diversas! Entre raízes e inspirações: Black Flag, Joy Division, Cocteau Twins, Germs, Joni Mitchell, John Fahey, Sabbath, Floyd, Obsessed, Celtic Frost, Amebix, Death, Sepultura, Slayer, Metallica, Presto, Portishead, Ravi Shankar, Elma, Hurtmold, L7, King Crimson, Isis, Jesu, Neurosis, Earth, Hole, The Gits, Sonic Youth, Slint, Swans, Meshuggah, Opeth, Behemoth, Integrity, Starkweather, Eyehategod, Botch, Fugazi, Soundgarden, Helmet, Melvins, Tool, Unearthly Trance, Tar…

Nos últimos anos mergulhei em alguns hardcore, death e black metal dissonantes e experimentais, como Joliette, Shai Hulud, Norma Jean, Zao, Ion Dissonance, Karmacipher, Ulcerate, Abyssal, Thoren, Iskalde Morket, Rotten Monarch, Neige Morte, etc.

A cena rock e metal se tornou um local ligado à agressividade machista, conservadorismo e ainda há muito preconceito com mulheres e população LGBT+. Você já sofreu algum tipo de preconceito? Você acha que ainda existe muita hostilidade em meio à cena?

Sobre a primeira pergunta: Nas gigs que toco ou frequento, não. Nada agressivo, pelo menos. Ou na minha frente. Rsrs. Mas já percebi desconfortos pontuais com minha presença. E sempre encontramos críticas de mulheres cis (que são mais presentes enquanto grupo político) aos eventos diversos que rolam. Eu sempre orbitei em torno das bandas e shows do coletivo Sinfonia de Cães, e de bandas como Hurtmold, Elma, Are you God, que nunca fizeram sons muito convencionais. Acho que isso minimiza um pouco o ambiente de intolerância. E mais tarde os eventos mais feministas e centrados nas mulheres.

Mas, em outras gigs mais convencionais de punk, grind, thrash, death “puros”, digamos assim, sempre senti uma hostilidade, essa agressividade machista que você menciona. E nem comigo, mas no clima geral. Acho que como os eventos são predominantemente feitos por e para homens, e nossa cultura tem uma construção de masculinidade que é bem problemática, mais a álcool e drogas, se torna bem complicado para pessoas e grupos vulneráveis estar nesses espaços.

O rock e metal era conhecido como um lugar de união, movimento social e acolhedor para pessoas que se sentem diferentes e sofrem preconceitos. O que você acha que fez o movimento mudar tanto e ter pessoas cada vez mais conservadoras?

Capitalismo! Rsrs. Elaborando, eu acho que ainda é acolhedor e comunitário em certos grupos e espaços. No entanto, o rock e suas vertentes, em grandes porções, acabou virando um microcosmo da sociedade, perpetrando as mesmas opressões, mas com visual diferente. Nosso som começou com gente norte-americana preta e pobre, algumas de sexualidade desviante da norma, no mínimo. Quando começaram a branquear e comercializar para as massas, muita gente que não tem senso crítico e entendimento do lugar que ocupa no mundo veio a fazer parte do rolê. E aí, as mesmas estruturas alienantes e adoecedoras, que fizeram as pessoas buscarem outros modos de vida foram trazidas pra esses espaços. Fora que nosso povo, que já é bem violento, parece ter um sentimento muito ganguista com tudo: futebol, música, religião, política. É sempre uma coisa meio cristã, de meu grupinho é o povo escolhido e vamos entrar numa cruzada com os outros. Acabamos vendo um discurso de pregar liberdades, mas que reproduz toda uma série de violências históricas e hierárquicas. Acaba que mulheres cis ou trans, população LGBT em geral, não se sente segura de estar nesse meio, e falta posicionamento claro dos espaços e eventos (até das bandas) de que opressão e violência não serão tolerados. É só observar a maioria dos shows de metal: quando começa a roda, grande parte das mulheres vai ficando acuada nos cantos. Ao passo que muito homem cis, está ali se sentindo num octógono. Aí, fala-se em comunidade. Mas de quem, quando não se tem cuidado com as pessoas que fazem parte dela? Eu colei no Eyehategod, mas não arrisquei ver os irmãos Cavalera tocando ‘Beneath the Remais’ e ‘Arise’, em 2018. Mas, é uma questão que valeria uma tese. Fica para as pessoas acadêmicas acompanhando o site.

Dani Moreira

Quais as dificuldades você encontra para divulgar seu projeto? Como a pandemia afetou seu projeto e planos?

As limitações de tempo e dinheiro. É difícil me desdobrar entre ter uma casa, um trabalho, e pessoas na minha vida, enquanto tento ser uma artista produtiva. É bem difícil arcar com a parte financeira sozinha. Um quarteto paga uma live sem muito perrengue, pra mim é perder um rim. Rsrs. Acabo tendo que levar o DIY aos limites. E sobre a pandemia, afetou bastante. Estava num momento bem bacana, de muitos shows acontecendo, vários legais ainda por vir em SP, uma segunda turnê na Europa nos acertos finais, outra em planejamento pelo Sul, e tudo foi para a geladeira pelos próximos anos. Então, o que restou é compor, gravar e lançar.

Dia 17 de junho você irá lançar seu 12° disco. Com tantos trabalhos lançados e bons anos de carreira, como você enxerga sua evolução musical, comparando os primeiros e os atuais trabalhos?

Eu acho que foi uma evolução continuada, discreta.  Eu acredito que desde o primeiro disco, já tinha uma identidade e estética bem definida, bases sólidas para trabalhar. As dificuldades e crescimentos musical abruptas foram nos 3 anos entre formação e lançamento do primeiro trabalho. Na minha percepção, você não pega dois discos meus e pensa que são bandas diferentes. Mas sempre tem elementos novos naquela estrutura, estou sempre buscando explorar ideias mais a fundo, e procurando novas fontes de inspiração. É como uma casa em um terreno grande: vou sempre fazendo um puxadinho e ou reforma. Ou posso estar errada, e ser o ACDC do Sludge-Doom. Rsrs.

Qual mensagem você quer passar através da sua música?

Eu não tenho uma mensagem definida, pensada. Acho que não tenho mensagem, rsrs. Não em termos de discurso, pelo menos. Meu foco sempre é a música em si, o que aqueles sons, ritmos, arranjos despertam no corpo, nas emoções, na mente. É uma artesania. Gosto de pensar que eu esculpo sons: burilar, moldar, e dar uma forma significativa, que provoca minha própria resposta. E isso não apenas criando, mas escutando música. Gosto de uma frase do Robert Fripp, “a única coisa que você pode esperar da música, é a música.” E ainda assim, eu acho que ganho tanto com isso. Pensar em música dá sentindo pra minha vida, me faz ter vontade de levantar da cama. A linguagem do rock, dos sons intensos e viscerais, mudou minha vida. Não sei o que teria sido de mim na adolescência, sem isso. Espero poder retribuir de alguma forma, despertando esses sentimentos em alguém. Pensando, acho que a mensagem implícita nisso tudo é: por mais difícil que seja, sobreviva e vá até o fim.

Quais os seus planos para o futuro – e para quando o mundo se normalizar?

A Covid e o Capetão não estão deixando a gente pensar muito em futuro, né? Estou pensando no que tenho a mão. Tenho ouvido música na maior parte do meu tempo livre, que é meu estudo. Ainda tenho material inédito para gravar e lançar nos próximos 3 anos, ideias estruturadas para mais uns 3 discos depois, e entrei no louco plano de regravar meus 8 primeiros discos com os recursos de gravação atuais. Para fazer melhor jus àquelas músicas em termos qualidade sonora, e com algumas adaptações às minhas mudanças de concepção depois de anos tocando esses sons. Inclusive, gravei recentemente os vocais para a nova versão do primeiro disco, Entrails. E no segundo semestre, quero gravar o 13º disco.  Além disso, espero um dia poder reagendar a Europa, e conhecer outros estados do Brasil. Se não virar guerra civil canibal antes.

Pode deixar uma mensagem aos nossos leitores do site Headbangers News?

Continuem nesse plano astral e saudáveis. Cuidem de vocês e de quem vocês amam. Que possamos ter um circuito mais forte de rock underground quando pudermos tocar ao vivo novamente. Façam música, ouçam música, tentem encontrar algum prazer e vontade de viver, nestes tempos tão difíceis. O mundo vai precisar que estejamos bem, para reconstruir o que sobrar. Para ajudar, ouçam mais Ion Dissonance, Abyssal, Starkweather, Elma e Lynn da Quebrada (por que não?). E claro, Umbilichaos. Será uma decisão alegradora para a vida de vocês.

Obrigada ao Headbangers News, pelo espaço!