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Memory Remains: Motörhead – 3 décadas de “1916” e as homenagens ao Brasil e ao Ramones

Temos o Motörhead figurando também no Memory Remains de hoje. A bola da vez é o 9° álbum da banda, 1916, que comemora na presente data suas três décadas de lançamento. Um álbum que envelhece muito bem, obrigado!

O disco encerrou um hiato de três anos sem um lançamento de inéditas. A banda havia soltado o play ao vivo “No Sleep at All”, em 1988. No ano de 1990, Lemmy havia se mudado da Inglaterra para os Estados Unidos e a produção de 1916 foi um tanto quanto confusa: Ed Stassium, produtor conhecido pelos trabalhos com Talking Heads e Living Colour, foi recrutado e iniciou o projeto, mas foi demitido por Lemmy após este ouvir a gravação da faixa “Going to Brazil”, na qual Ed adicionou pandeiros, sem o conhecimento da banda. O produtor, por sua vez alega que pediu para sair devido a divergências causadas pelo abuso de álcool e drogas por parte de Lemmy. Pete Solley foi contratado e no final ambos assinaram a produção do homenageado do dia.

Ainda sobre a faixa “Going to Brazil”, esta foi gravada após a primeira passagem da banda por terras tupiniquins. O fã pode se sentir lisonjeado por essa homenagem. O play ainda conta com outra homenagem, desta feita aos reis do Punk Rock, o Ramones, com uma música homônima. É a última gravação com PhilAnimalTaylor. Outro dado curioso é que, dos quatro músicos à época na banda, três já morreram: o guitarrista Phil Campbell é o único remanescente.

Sobre a mudança de ares, a banda emitiu um comunicado no encarte que diz o seguinte:

Para as pessoas que deixamos para trás – não queríamos deixar vocês, mas realmente tínhamos que ir! Este álbum é o melhor para isso. Antiquado e em uma esteira na nossa carreira, era necessária uma mudança. Decidimos uma mudança de localidade foi uma ideia a tentar, e achamos que nos fez bem musicalmente e em termos de atitude (o que é ainda pior).

O play marca a estreia da banda pelo selo WTG Records. Os problemas com a gravadora anterior, GWR Records, foram sanados e o quarteto pôde então seguir seu caminho em uma nova casa. A capa tem bandeiras de alguns países, porém, um descuido na arte fez com que as bandeiras da França, Bulgária, Rússia, Sérvia e de Portugal acabaram ficando de fora.

Vamos então colocar a bolacha para rolar. A abertura, com “The One to Sing the Blues” começa com belas batidas de Phil Animal Taylor, que recebe a companhia dos riffs precisos da dupla Phil Campbell e Würzel em um ótimo início. “I’m so Bad (Baby i don’t Care)” tem a pegada e o vigor característico do Motörhead. É aquela música que o ouvinte sabe que é diversão garantida. Tudo é muito simples e a banda sempre fez da simplicidade a sua melhor característica.

A mesma energia da faixa anterior é mantida em “No Voices in the Sky”, aquela música que o ouvinte não precisa mais do que cinco segundos para reconhecer que é o Motörhead tocando. A homenagem a nós brasileiros chega com “Going to Brazil”, que é um Rock and Roll cheio de energia e inspirado no que era feito nos primórdios, obviamente, com muito mais peso aqui. Essas quatro primeiras faixas já eram conhecidas do público, pois o Motörhead já as executava nos shows da turnê anterior.

Reprodução

Nightmare/ The Dreaming” é bem diferente de tudo que o Motörhead havia feito até o momento: é uma música densa, sombria, onde apenas as guitarras acompanham Lemmy, que canta sobre a Batalha do Somme, na Primeira Guerra Mundial. Cerca de dezenove mil soldados britânicos morreram. Ficou legal ver o Motörhead soando desta maneira.

Se você está no vinil é hora de virar o lado e “Love me Forever” é outra canção com um clima sombrio, porém, aqui a bateria já participa e o peso é maior. Seus dois belos solos são os grandes destaques aqui. O Rock and Roll a lá Motörhead retorna com Angel City, outra música interessante. A energia Rock and Roll com os dois pés no Punk retorna com “Make my Day”, uma das mais divertidas do disco. Que clima fantástico essa música possui.

Se a faixa anterior já tem elementos de Punk Rock, a faixa que chega agora é o que podemos classificar como um verdadeiro Punk Rock. “Ramones”, a faixa que presta homenagem à maior banda Punk da história é crua e reta, com apenas três acordes. É diversão garantida. Joey Ramone ficou tão orgulhoso que em entrevista comparou a emoção como se fosse John Lennon a lhe dedicar uma canção.

As duas faixas finais mostram lados opostos do Motörhead: “Shut You Down” mostra a verdadeira faceta da banda, rápida, crua e simples. Alguns podem até reclamar que Lemmy repetiu essa fórmula à exaustão durante sua carreira, mas e daí? Deu certo e não se mexe em time que está vencendo. Já a faixa título tem um clima melancólico, embalada pelo violoncelo de James Hoskins, que emprestou seu talento para a obra. Ficou diferente, particularmente eu não curti, mas o que vale é a homenagem que Lemmy prestou aos mortos na Primeira Guerra.

Em 39 minutos o Motörhead entrega em 1916 exatamente o que era esperado: muito Rock and Roll, sem rótulos e com uma energia que poucas bandas conseguiam explanar, ao mesmo tempo que eles experimentaram novos elementos em suas músicas, que podem causar um pouco de estranheza num primeiro momento, mas que acabou por não refletiu no resultado final do álbum, que é muito bom mesmo.

1916” é um dos discos mais aclamados da carreira da banda e isso explica a audição extremamente agradável e divertida, trinta anos após o seu lançamento. Infelizmente não temos mais o Motörhead na ativa, mas temos o legado importantíssimo deixado por Lemmy ao longo dos tempos, influenciando diversas bandas nas mais diversas vertentes do Rock e do Metal. É por isso que eu digo, com todo orgulho que eu ouço gente morta! Celebraremos então o mais novo trintão do Rock and Roll.

1916 – Motörhead

Data de lançamento – 26/02/1991

Gravadora – WTG

Faixas:

01 – The One to Sing the Blues

02 – I’m so bad (Baby i don’t Care)

03 – No Voices in the Sky

04 – Going to Brazil

05 – Nightmare – the Dreamtime

06 – Love me Forever

07 – Angel City

08 – Make my Day

09 – Ramones

10 – Shut You Down

11 – 1916

Formação:

Lemmy Killmster – baixo/vocal

Phil Campbell – guitarra

Würzel – guitarra

Phil “Animal” Taylor

Participação especial:

James Hoskins – violoncelo (1916)