O Mad Painter não tenta esconder de onde vem sua música. Em Island Poetry, terceiro álbum do grupo de Boston, o hard rock britânico dos anos 1970 serve de ponto de partida para uma sequência de faixas que passa pelo blues, pelo glam, pelo rock progressivo e até pela disco music espacial. Lançado em 9 de outubro pela gravadora italiana Epictronic, o disco reúne 12 músicas e tem no órgão Hammond de Alex Gitlin uma das principais forças de sua identidade. Deep Purple, Rainbow, Queen e Uriah Heep aparecem como referências evidentes, mas o álbum encontra seus melhores momentos quando o grupo deixa de olhar para os próprios ídolos e trabalha com mais liberdade a identidade que vem desenvolvendo.
A jornada começa com “Debt Collector”, uma abertura roqueira que mostra à que a banda veio, com teclados inspirados no progressivo dos anos 70, somado a riffs secos, bateria marcada e uma produção que já escancara o tom do disco — direto, sem massagem, mas cheio de detalhes escondidos nas camadas de guitarra. Uma faixa que entrega o rock’n’roll sem firula. A influência do Deep Purple aparece no peso e na condução do arranjo, mas o Mad Painter acrescenta um jogo entre voz e instrumentos que dá personalidade ao refrão.
Logo depois, “Empty Bottles” mantém o peso, agora com grooves e muitos momentos de pré-tensão: baixo pulsante, riffs que exploram nuances e sintetizadores que abraçam o compasso da bateria jazzista, lembrando como a escola do hard rock e progressivo podem se cruzar. Estamos na segunda faixa mas já é notável que os sintetizadores e teclados irão carregar todo o disco, nos conduzindo por essa audição gostosa. O boogie rock assume o comando, com uma pegada que remete ao Status Quo e deixa a faixa mais solta que a abertura.
Na sequência, “Spin Your Ventilator” aumenta a intensidade e entrega um clima mais pesado do rock. Aqui, o grupo reduz a ornamentação e trabalha com um riff insistente, de andamento firme e pegada próxima do rock direto do AC/DC. A repetição é parte importante da estrutura: em vez de depender de grandes mudanças, a faixa procura seu efeito no ritmo e na insistência da guitarra. A produção mantém uma sonoridade quente, embora um pouco mais de aspereza pudesse dar ainda mais contundência à música.
“Suit of Worries” chega com uma pegada potente na entrada, e logo culminará em uma bateria urgente e um refrão poderoso, que remetem as raízes do progressivo e seus originários. A faixa nos é apresentada com aquela vibe de jam de garagem levada ao limite, com ousadia, psicodelia. O piano elétrico abre caminho para uma composição mais pesada, na qual o Hammond volta a disputar espaço com a guitarra. É um dos momentos em que o Mad Painter consegue unir a força instrumental do hard rock a uma composição com mais personalidade narrativa.
Chegando a “You Dreamed I Was in Love”, o clima fica robusto e cheio de inspiração. Os riffs densos e melodias abertas se misturam, quase sempre ancorados em afinações mais graves. O nome comprido já anuncia o drama, e a música acompanha essa proposta com uma abordagem grandiosa, próxima do Rainbow. Ciúme, tensão e teatralidade encontram espaço em um arranjo que prefere os grandes gestos à contenção. É uma das faixas mais assumidamente setentistas do álbum, mas a ambição nem sempre encontra a interpretação vocal à altura de todos os momentos: a composição parece pedir um clímax ainda mais incisivo do que aquele que efetivamente alcança.
Em “Nektarized” somos novamente jogados ao peso e densidade, mas cheios de melodia, com riffs de energia única e uma construção em seus teclados que entrega o puro progressivo. Sem cair na pompa excessiva, a faixa conquista aqueles que apreciam o bom e velho prog, mas não é uma faixa simples para ouvir como pano de fundo; é preciso prestar atenção nos vocais que nos hipnotizam e nos riffs que querem ensinar algo. . A mudança poderia quebrar a unidade do repertório, mas acaba sendo bem-vinda: mostra que o Mad Painter conhece mais caminhos do rock setentista do que apenas os riffs pesados e os solos extensos. É uma das escolhas mais curiosas do álbum.
“Accelerator” traz novamente o embalo do Jazz, combinando riffs mais melódicos e simples com uma linha de baixo grave, bateria potente, os clássicos teclados do prog e finalmente, os vocais! A primeira faixa do disco que é cantada, exalando sensualidade e a nostalgia quente de Led Zepplin com Depp Purple! A seguinte, “Turn For The Worst” inicia com os teclados psicodélicos e riffs acústicos, outra faixa perfeita para trilhas sonoras que segue a mesma base das anteriores – mas com tclados em uma pegada Van Halen, você vai ouvir e entender o que estou dizendo.
A sonoridade em geral mescla peso do rock’n’roll entre os anos 70, com um apelo psicodélico acessível, resultando em músicas que equilibram técnica com passagens psicodélicas como em “Shadow of the Words”. É um som que não se perde em virtuosismo: a força está na simplicidade louca dos acordes e na intensidade da entrega, sempre mirando impacto imediato e emocional.
“Two Horsemen” tem a pegada Mike Oldfield, onde a banda usou a formula certa já existente e adicionou seus temperos, muito mais ácidos e saborosos. As guitarras assumem outro tipo de protagonismo em “Two Horsemen”, construída a partir da influência do Wishbone Ash e de seus diálogos entre instrumentos. Em vez de empilhar riffs e teclados, o grupo abre espaço para linhas que se complementam, deixando a música respirar. O resultado tem um caráter mais bluesy e menos ostensivamente pesado, funcionando como uma pausa necessária depois da grandiosidade da faixa anterior. É também um bom exemplo de como o Mad Painter pode trabalhar suas influências sem depender apenas da imitação de timbres clássicos.
“Tommy Lost It All” entrega uma vibe de trilha sonora, de filme mais românticos dos anos 80, e claro, com seu toque jazz. Essa é a balada do disco. A faixa tem importância especial dentro do repertório porque mostra que a identidade do Mad Painter não depende exclusivamente da reprodução de fórmulas conhecidas. Quando a banda dá mais espaço às próprias ideias, o material ganha personalidade e escapa do risco de soar como uma coleção de homenagens.
Se preparando para o final, “I Am the King” chega com pianos românticos em outra balada no álbum. Com inspiração nos Moody Blues, “I Am the King” leva o disco para um terreno mais contemplativo e dramático. O piano e os vocais sobrepostos acompanham uma narrativa melancólica, enquanto o arranjo passa de momentos de maior tristeza para trechos mais luminosos. Com cerca de seis minutos, é a composição mais extensa do álbum e também uma das mais ambiciosas em termos de desenvolvimento musical. O ritmo mais lento exige paciência, mas dá à música espaço para construir seu personagem e sustentar uma atmosfera que se aproxima do rock progressivo.
“Stand Your Ground” começa com um solo de bateria ousado e traz mais peso com riffs de guitarra marcantes, lembrando fases de rock progressivo dos anos 70. É a música que mais gostei pela melodia. A banda criou uma arte significativa, a pura nostalgia, é como se estivssémos ouvindo um disco de vinil dos anos 70!
O encerramento fica por conta de uma releitura de “Circle of Hands”, clássico do Uriah Heep e uma influência central para o Mad Painter. O Hammond ocupa o espaço que se espera de uma música dessa linhagem, enquanto as guitarras sustentam uma base mais sombria para os vocais e suas harmonias. A interpretação respeita a dimensão original da composição e se encaixa naturalmente na linguagem do grupo. Por outro lado, terminar com uma versão de outra banda deixa uma questão no ar: depois de onze faixas de material próprio, seria interessante ouvir o Mad Painter encerrar o disco com uma composição capaz de sintetizar sua própria identidade.