Resenhas

Não Vejo a Hora

Humberto Gessinger

8.0

Se alguém espera um disco pesado de rock, não irá encontrar nesse. Gessinger continuou no violão, teclado e acordeon. Digamos que seja um rock progressivo, bom de ouvir pra quem curte essa fase dele.

Sem dúvidas, Humberto Gessinger deve prezar pela voz, fazer exercício ou algo que o valha, pois aos seus 56 anos, canta melhor do que muitos jovens por aí. Dizem que o Peter Pan do rock brasileiro é Dinho Ouro Preto. Mas esse bastão poderia ser passado ao ex-vocalista do Engenheiros do Hawaii, hein?

Rock n’ roll pela atitude, alguém que lançou um disco em vinil, K7 e CD em pleno 2020, tem que ter muito sangue na veia. Tomara que o vinil volte cada vez mais e mais…

O disco começa com a balada “Partiu”, cuja letra trata literalmente sobre o nome da música, despedida. Foi uma boa escolha para abrir as faixas.

“Um Dia de Cada Vez”, uma música com a cara de Humberto, sem dúvidas. Entra o teclado e começa o pop, impossível terminar de ouvir as onze faixas e não lembrar da frase “todos os dias, um de cada vez. A cada dia, a sua agonia, seus prazeres também”. Claramente impondo sua maturidade.

Mais uma música chiclete, “Bem a Fim”. “Quando a resposta vem do outro lado, alguém, dizendo que está tudo bem” impõe que o disco será essa calmaria, em tempos de militância e revolta. Mesmo sendo a primeira da leva acústica do disco, existe uma referência ao AC/DC e lembra os primórdios do Engenheiros. Não existe opinião política nesse álbum. Gessinger arriscou num disco fora da curva, sem querer andar na mesmice dos dias atuais.

Quarta música, “Algum Algoritmo”, um som nostálgico dos anos 80 moderno. Talvez seja a música carro-chefe do disco. Spoiler para quem ainda não ouviu: “Tudo isso eu sei, mas não vejo a hora de te ver”. Outra, das poucas, que nos faz lembrar sua antiga banda. “Calmo em Estocolmo”, segue a mesma linha de “Algum Algoritmo”, instrumental simples.

“Olhou Pro Lado, Viu”. Uma das mais roqueiras. Para quem aguarda ansiosamente qualquer ar do rock atual, ouça a sexta música. Sétima faixa, “Fetiche Estranho”, Humberto volta com acordeon, uma música mais country ou MPB. Segunda com o trio acústico. Em “Maioral”, sua banda de apoio não aposta em nenhum solo de qualquer instrumento, apenas segue seu o vocal, com excelência.

Oitava faixa, “Estranho Fetiche”, Nome inverso da sétima, fica a critério do ouvinte entender o porque disso ou se é somente um nome qualquer. Humberto cita Elvis, Raul, Belchior, Legião Urbana, Pink Floyd  e Elis Regina, cantores já não presentes na Terra. Refrão que se repete em “Fetiche Estranho”, trocadilho de Humberto para deixar seu disco cada vez mais interessante.

“Outro Nada”, penúltima música, mais progressiva e tentando encaixar um solo dentro do disco. Uma das mais roqueiras do disco. “Missão”, uma música positiva para fechar o álbum, como o próprio nome já diz, com o foco na missão: “Vai sem drama. Sem medo de errar, vai sem culpa. E se quiser voltar, vai sem pressa”.

Um disco bem aguardado, depois do InSULar (2013). Digamos que seja um trabalho diferente do que já tenhamos vistos, o que é algo normal. Um som mais acústico, calmo, atemporal. O que não podia faltar são as inúmeras metáforas em suas letras. Um disco completamente atual, para quem espera ouvir algo do Engenheiros do Hawaii, será um surpresa, talvez até algo negativo. Recomendo ouvir com outros ouvidos…

No canal do Youtube de Humberto Gessinger, foi lançado um mini documentário que encerra com a frase: “Não vejo a hora do projeto ganhar sua terceira dimensão, do preto e branco ganhar cor”.

Faixas:

  1. PARTIU
  2. UM DIA DE CADA VEZ
  3. BEM A FIM
  4. ALGUM ALGORITMO
  5. CALMO EM ESTOCOLMO
  6. OLHOU PRO LADO, VIU
  7. FETICHE ESTRANHO
  8. MAIORAL
  9. ESTRANHO FETICHE
  10. OUTRO NADA
  11. MISSÃO

Formação:

Humberto Gessinger (Vocal)
Nando Peters (baixo, violão)
Paulinho Goulart (Acordeon)
Felipe Rotta (Guitarra)
Rafael Bisogno (Bateria)