Entre feitiçaria, mau agouro e obsessão, Until They Burn Me, direto de Ferndale (EUA), lança o terceiro EP, intitulado ‘Coven’, por meio do selo Old Crow Records. O trabalho sucede o álbum dois grandes discos e traz um som mais lapidado que mistura diversas referências e entrega tons nostálgico, moderno e cheio de peso. Não à toa, esse novo EP é a prova de que a dupla encara o rock como laboratório: energia crua, sujeira bem-vinda e uma boa dose de cinismo embalada em riffs e dinâmicas que soam contemporâneas, mas também reverenciam o passado. São seis composições que passeiam por dark country, Americana, blues, folk e rock, sem a preocupação de manter uma identidade sonora rígida.
A bruxaria aparece como tema recorrente, mas as histórias vão além do sobrenatural: desejo não correspondido, superstições, medo e a tendência humana de procurar explicações para aquilo que não consegue compreender. Formado por Cody Carlyle e Travis Jordan, parceiros musicais há mais de 35 anos, o projeto conta também com a colaboração de Travis Martin neste trabalho. A liberdade para mudar de direção conforme cada narrativa exige é justamente o que dá personalidade ao repertório, embora algumas passagens funcionem mais como vinhetas atmosféricas do que como canções convencionais.
A jornada começa com “Charlotte and the Witch”, uma história de amor não correspondido que acaba tomando um caminho perigoso. O personagem central, incapaz de aceitar a rejeição, procura ajuda sobrenatural para conseguir o que deseja. Musicalmente, a faixa combina guitarras com efeito tremolo, uma base rítmica persistente e vocais graves, conduzidos com uma interpretação quase teatral – e um banjo que deixa tudo mais interessante. A influência do dark country aparece com naturalidade, enquanto as guitarras criam uma paisagem que lembra trilhas de faroeste. É uma introdução eficiente porque estabelece tanto a temática quanto a personalidade musical do EP – muito inspirado em bandas como Me and Tat Man.
Em seguida, “Blackbird” entrega o blues como protagonismo, que parte da antiga superstição de que determinados pássaros podem anunciar acontecimentos ruins. A composição trabalha com guitarras de timbre mais pesado e uma interpretação vocal carregada, criando a sensação de que algo está prestes a acontecer. A letra brinca com a dificuldade de distinguir um sinal verdadeiro de uma coincidência interpretada pelo medo. É uma faixa menos narrativa no sentido tradicional e mais interessada na atmosfera de desconfiança que consegue criar – a faixa mais cinematográfica, e a que ma8is gostei.
“Bedbugs”, com apenas 1min13s, interrompe a sequência de histórias cantadas e apresenta um instrumental experimental. Pequenos sons percussivos e movimentos irregulares dão à composição um caráter inquietante, como se alguma coisa estivesse se movimentando fora do campo de visão. É uma passagem curta, porém bem posicionada: em vez de aliviar a tensão das duas primeiras faixas, deixa o ouvinte ainda mais desconfiado do ambiente ao redor.
Na sequência, o EP muda totalmente o clima com “Leechcraft”. Com uma pegada mais dançante e um balanço que lembra uma antiga cantiga de marinheiros, a faixa traz uma sonoridade menos sombria na superfície, embora mantenha o caráter estranho da narrativa. Os vocais acompanham as mudanças melódicas com uma interpretação bastante expressiva, enquanto os trechos instrumentais dão liberdade para a composição escapar de uma estrutura previsível. É uma das escolhas mais interessantes do repertório justamente por aproximar movimento e desconforto, sem transformar a música em uma simples brincadeira temática.
Preparando os ritos finais, temos “Long Meg”, tambémn curta, com 1min28s, que funciona quase como uma história contada ao redor de uma fogueira. Uma voz de caráter infantil conduz a passagem, acompanhada por uma sonoridade escura que faz o conjunto lembrar uma cena de suspense. A interpretação tem um aspecto de recital, com a música trabalhando mais na construção do clima do que em uma estrutura convencional de rock. É uma das experiências mais peculiares de COVEN e ajuda a ampliar o repertório de referências folclóricas exploradas pelo duo.
A viagem sombria encerra com a comovente “Sister Midnight”, a composição mais longa do EP, de 6min32s. A faixa começa com uma linha de guitarra bastante marcante e segue por um caminho que combina folk e blues-rock. Os vocais têm uma condução mais melódica, mas a música ganha velocidade quando chega ao refrão, criando um contraste entre a atmosfera noturna e o impulso rítmico. As referências à bruxaria aparecem nas imagens e superstições presentes na narrativa, enquanto as guitarras assumem um papel importante no desenvolvimento da faixa.
O EP não depende exclusivamente de monstros, feitiços ou figuras folclóricas: suas histórias falam de sentimentos bastante humanos, como ciúme, obsessão, medo e insegurança. O principal acerto de COVEN está na maneira como o Until They Burn Me evita transformar a temática sobrenatural em uma fórmula musical. Cada faixa encontra sua própria abordagem, e essa alternância entre blues, folk, country e rock impede que o repertório fique preso a uma única atmosfera.